“Vou viver para sempre”, cantou Irene Cara no filme Fama. “Vou aprender a voar.” Ambas são impossibilidades físicas, mas isso é a música pop. Se Irene tivesse cantado algo um pouco menos cativante, como “vou viver até os 80, ou talvez 100”, estaria no caminho certo — ainda que com menos ambição.Fama, com sua avalanche de collants e cores primárias, foi lançado em 1980, quando a expectativa média de vida era de 73 anos na Europa e 74 anos nos EUA. Em 2030, esses números terão subido para 86 e 81 (a Europa hoje é consideravelmente mais saudável do que os EUA). Em todo o Ocidente, mais pessoas estão envelhecendo. Mais do que uma simples realidade social, isso está se tornando rapidamente uma questão central também para líderes empresariais.Leia também: Envelhecer bem, gastar mal: disparidade financeira cresce entre gerações no paísAntever o que vem pela frente é uma competência essencial para qualquer executivo sênior, como Rita McGrath argumentou em seu livro seminal de 2019, apropriadamente intitulado “Seeing Around Corners” (Enxergar o que ainda não se vê, em tradução livre). “Muitos de nós vivenciamos pontos de inflexão como um único momento no tempo em que tudo muda de forma irreversível”, escreveu a professora da Columbia Business School.“[Mas] quando você observa a verdadeira natureza dos pontos de inflexão, vê uma história diferente. É semelhante à maneira como o personagem de Hemingway, Mike Campbell, em “O Sol Também se Levanta”, responde quando perguntam como ele faliu. ‘Gradualmente’, diz ele. ‘E depois, de repente.’”A inteligência artificial chegou ao seu momento do “de repente” — e de forma perigosamente rápida, segundo aqueles que temem bolhas. A mudança climática e a sustentabilidade estão na fase do “gradual” há décadas, para frustração de ambientalistas. A “longevidade” — o desafio das populações que envelhecem — também está na fase do “gradual”. Mas pode avançar para o “de repente” muito mais rápido do que muitos imaginam.Mais de um quinto da população da União Europeia tem 65 anos ou mais. Nos EUA, a proporção é de uma em cada seis pessoas, ou cerca de 61 milhões — número que deve saltar para mais de 80 milhões até 2050. A quantidade de pessoas que comemorarão 100 anos de idade na América está prestes a dobrar.Na UE, a proporção de adultos em idade ativa, entre 15 e 64 anos, deve cair de 64% da população total em 2022 para 54% em 2100. Em 2023, a taxa total de fecundidade da UE caiu para 1,38 filho por mulher, o nível mais baixo registrado desde 1961, quando começou a coleta de dados comparáveis — bem abaixo dos 2,1 necessários para manter a população estável sem imigração. As populações estão encolhendo em Portugal, Espanha, Alemanha, Itália e Polônia, segundo o World Population Review. Sem imigração, essa tendência de queda se tornará ainda mais acentuada.Como estamos nos preparando para um mundo em que as taxas de natalidade caem, as forças de trabalho envelhecem e os passivos da “velhice”, como pensões e cuidados de saúde intensivos, pressionam os recursos? O “custo” da velhice hoje é alto demais, enquanto a “oportunidade” é pouco explorada. Se conseguirmos permanecer mais saudáveis por mais tempo, nos requalificar e repensar o que significa aposentadoria, é perfeitamente possível que milhões de pessoas trabalhem até os 80 anos.Andrew Scott, professor de economia e especialista em longevidade, é o cientista principal no instituto do bilionário da tecnologia Larry Ellison, em Oxford. Ellison, que certa vez disse “a morte nunca fez sentido para mim”, colocou a biologia generativa no centro do trabalho do instituto, investindo centenas de milhões de libras de seu próprio dinheiro em pesquisa. Ele está certo em fazer isso.“Uma criança nascida hoje tem 50% de chance de viver até os 90 anos”, disse Scott.“Praticamente todo o crescimento do emprego no futuro virá de pessoas com mais de 50 anos. Por exemplo, no Reino Unido, aos 50 anos cerca de 80% das pessoas estão trabalhando; aos 65, esse número cai para 30%. Se conseguíssemos apenas reduzir pela metade essa taxa de queda, veríamos um aumento de 4% no PIB. É o mais perto de um almoço grátis para o crescimento que consigo enxergar.”Sir Jonathan Symonds, presidente da gigante farmacêutica GSK, defende que nosso “tempo de saúde” — viver bem — é tão importante quanto o tempo de vida — viver por muito tempo. Em um evento que presidi com líderes empresariais e formuladores de políticas, organizado pela consultoria Oliver Wyman em Londres no outono passado, foi revelado que mais de 80% dos gastos médios individuais com saúde ocorrem na última década de vida.Se conseguíssemos identificar marcadores de futuros problemas de saúde e agir cedo, o envelhecimento não seria dominado pela linguagem do peso e da decrepitude, argumenta Symonds. Ao reconhecer a saúde ao longo da vida e o conceito mais amplo de bem-estar como um bem social e econômico, a pergunta “quanto tempo vou viver?” passa a importar tanto aos 18 quanto aos 80 anos. Todos aqueles jovens suando em aulas de spinning merecem aplausos. Academias gratuitas oferecidas por empregadores são mais do que um benefício superficial.Pesquisas reunidas pela Oliver Wyman para a Fortune revelam que rituais de bem-estar estão em alta, especialmente entre os mais ricos. Questionados sobre se seu bem-estar geral provavelmente melhoraria nos próximos 12 meses, 65% dos grupos de alta renda responderam que sim. Se você tem tempo, recursos, família e amigos que apoiam e infraestrutura local, é provável que seja mais saudável do que quem não tem. Grupos de menor renda muitas vezes acabam preenchendo o formulário com “nenhuma das alternativas”.“A economia da longevidade é a próxima fronteira de crescimento, mas a divisão em K da saúde está se ampliando em dois mundos separados”, disse Rupal Kantaria, sócia do Oliver Wyman Forum. “Consumidores de alta renda investem em prevenção personalizada e longevidade. Na base, doenças e dívidas se acumulam. O meio fica espremido — rico demais para redes de proteção, pressionado demais para avançar.”Populações que envelhecem exigem novas respostas de governos e empresas — do planejamento da força de trabalho e da saúde preventiva a novos modelos de sociedade e do ambiente construído, além de estilos de vida mais positivos. Assim como a IA e a mudança climática, a demografia é um fenômeno de “efeito total”, que nos obriga a mudar a forma como pensamos cada função que desempenhamos e cada plano estratégico que executamos. Essa é uma conversa que precisa envolver todas as faixas etárias — de adolescentes que contemplam uma vida profissional de 60 anos aos maiores de 60 que querem viver três décadas finais saudáveis e produtivas. Talvez não vivamos para sempre, mas a maioria de nós viverá por um tempo muito, muito longo.2026 Fortune Media IP LimitedThe post Próxima aposta de bilionário da Oracle é repensar envelhecimento saudável e produtivo appeared first on InfoMoney.
