Tradicionalmente fora do centro das disputas políticas da Câmara, a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher passou a concentrar um conflito com potencial de impacto eleitoral após a eleição da deputada Erika Hilton (Psol-SP) para a presidência do colegiado. Parlamentares de partidos de esquerda avaliam que a controvérsia vem sendo explorada pela oposição em um momento importante do calendário político, com potencial de atingir o eleitorado feminino, considerado estratégico para a disputa presidencial. Integrantes do campo governista, nessa esteira, têm adotado cautela diante da escalada do embate, evitando ampliar a controvérsia.Leia tambémMichelle ganha espaço após crise do Master e choca com Flávio por palanques do PLEx-primeira-dama assume articulação no DF após desgaste de Ibaneis e confronta estratégia de alianças conduzida pelo senadorResistência a Carlos e Jair Renan testa força de Bolsonaro em Santa CatarinaEnquanto o ex-vereador carioca ainda é visto como ‘turista’ e aposta em deputada para se tornar mais conhecido no estado, o filho mais novo do ex-presidente na política busca se aproximar de grupo de prefeita de Balneário Camboriú, com quem já trocou farpasPrimeira mulher trans a ocupar o cargo, Hilton assumiu sob contestação de parlamentares da oposição, que passaram a dar centralidade ao tema inclusive nas redes sociais. O principal ponto de divergência envolve questionamentos sobre o gênero da deputada. Parlamentares de direita defendem que ela não teria “legitimidade” para presidir a comissão, argumento rejeitado por aliados, que classificam as críticas como discriminatórias.A avaliação sobre o impacto eleitoral ocorre em um cenário de oscilação na aprovação ao governo entre mulheres. Levantamento da Quaest divulgado em março mostrou aumento da desaprovação do governo nesse segmento, enquanto a aprovação recuou em relação aos meses anteriores.Desde a escolha de Hilton para liderar o colegiado, marcada por votos em branco em protesto, deputadas da oposição intensificaram a contestação. Após a primeira sessão presidida pela deputada, o grupo anunciou a apresentação de recurso para tentar anular a eleição e uma representação no Conselho de Ética da Câmara.Em coletiva no Salão Verde, parlamentares exibiram camisetas com frases como “não somos imbecis” e “não somos esgoto”, em referência a uma publicação de Hilton nas redes sociais após assumir o cargo.Na ocasião, a deputada afirmou que não se importava com a opinião de “transfóbicos e imbecis” e disse que críticos poderiam “espernear” e “latir”. Durante a sessão, ela afirmou que a declaração se referia a ataques recebidos na internet, e não a parlamentares.O embate também avançou para o campo institucional. O líder da oposição, deputado Cabo Gilberto (PL-PB), apresentou projeto para restringir a presidência da comissão a deputadas cisgênero, excluindo a possibilidade de escolha de uma mulher trans. Sessão tem troca de ataques e atrasa votaçõesA primeira reunião sob comando de Hilton foi marcada por impasses em torno da inclusão de requerimentos na pauta. Logo na abertura, a presidente informou que alguns pedidos apresentados por deputadas da oposição não haviam sido incluídos por não atenderem a critérios regimentais. As parlamentares, por sua vez, contestaram a decisão e afirmaram que houve cerceamento de prerrogativas.— Isso cerceia o exercício das prerrogativas dos membros desta comissão — afirmou a deputada Chris Tonietto (PL-RJ).Parte dos requerimentos tratava de manifestações de repúdio a declarações de Hilton nas redes sociais, o que ampliou o debate sobre o tema durante a sessão. Hilton, em contrapartida, declarou que não houve análise de mérito e indicou que os pedidos poderiam ser reavaliados.Deputadas da oposição também criticaram o uso de critérios técnicos para barrar os pedidos.— Se Vossa Excelência está colocando a culpa nos técnicos, está errado, porque é uma decisão política. E eu tenho certeza que (é uma) política ideológica, como assumir essa presidência, desrespeitar as mulheres — afirmou a parlamentar catarinense afirmou a deputada Júlia Zanatta (PL-SC) — Não adianta vir aqui se pagar de técnica.Parlamentares alinhadas à presidente reagiram, apontando tentativa de obstrução dos trabalhos.— Nós não pretendemos contraditar cada uma das falas, lamentavelmente, provocativas. Porque aqui nós vemos um claro intuito de obstrução, de tentativa de inviabilizar o trabalho das comissões — disse a deputada Fernanda Melchionna (Psol-RS).Com o impasse, a sessão teve atraso na abertura da ordem do dia, que só foi aberta mais de uma hora e meia depois do início da sessão, atrasando a votação dos projetos previstos na pauta.Presidência retira requerimentos e libera pautaDiante da falta de acordo, Hilton decidiu suspender os trabalhos durante cinco minutos. Na volta, determinou a retirada, de ofício, todos os requerimentos em discussão para permitir o andamento da pauta. Alguns deles tratavam sobre o convite à ministra das Mulheres e um pedido de investigação sobre a criação de um jogo de cunho misógino por alunos do Instituto Tecnológico de Aeronáutica.— A comissão das Mulheres precisa caminhar. Não pode ser a recusa de um requerimento que pare os trabalhos. Nós temos uma pauta importante — afirmou.A decisão permitiu o início da análise de projetos, mas não encerrou as divergências. Ao longo da sessão, parlamentares mantiveram críticas à condução dos trabalhos e ao conteúdo das falas da presidente.Deputadas da base classificaram falas da oposição como “transfóbicas”, enquanto integrantes da oposição afirmaram que estavam sendo rotuladas por divergências políticas.Após a reunião, deputadas da oposição anunciaram novas medidas para contestar a permanência de Hilton no cargo e a avaliação entre parlamentares e interlocutores da direita é de que o episódio deve continuar sendo explorado politicamente nas próximas semanas, especialmente nas redes sociais e no contexto eleitoral.The post Atuação de Erika Hilton à frente de Comissão da Mulher acirra embate eleitoral appeared first on InfoMoney.
