A compra por pânico voltou ao Japão. À medida que o conflito entre EUA, Israel e Irã abala os mercados de petróleo, consumidores japoneses estão estocando papel higiênico — um produto sem qualquer relação com as interrupções, mas que já causou problemas suficientes para o país a ponto de o governo japonês pedir que a população pare de comprar antecipadamente. Ainda assim, publicações nas redes sociais mostrando prateleiras vazias de papel higiênico se multiplicam.Mas por que as pessoas comprariam por pânico produtos não relacionados ou não afetados pelo conflito? A compra por pânico se comporta muito como uma corrida bancária. Ninguém sabe exatamente onde ela começa — algum dado isolado e alarmante que sugere que uma loja vai ficar sem papel higiênico ou que um banco vai ficar sem dinheiro.Leia também: Japão deve liberar mais de 53 milhões de barris de petróleo bruto para refinariasAntigamente, esse “dado” era uma pessoa real que corria e gritava para os vizinhos: “Ei, João, tira seu dinheiro do banco! Vai acabar!” — e João saía correndo. Agora, alguém publica nas redes sociais que a covid-19, tarifas ou a guerra com o Irã vão dizimar os estoques de papel higiênico, e desconhecidos pelo país inteiro começam a encher seus carrinhos.A compra por pânico da era da pandemia está voltandoFoi exatamente isso que aconteceu no grande pânico da covid-19. Em 12 de março de 2020, as vendas de papel higiênico dispararam 734% em relação ao mesmo dia do ano anterior, tornando-o o item de supermercado mais vendido do mundo naquele dia. Quando o grande pânico do papel higiênico de 2020 terminou, 70% dos supermercados do mundo haviam ficado sem estoque em algum momento — um recorde.A escassez foi tão severa que provocou uma mudança mensurável nos hábitos de banheiro nos Estados Unidos: as vendas de bidês dispararam e, em muitos lares, a adoção se manteve.Mas pesquisadores que estudaram o episódio depois descobriram que não houve, de fato, interrupção na cadeia de suprimentos de papel higiênico. A produção permaneceu estável e a distribuição intacta. A escassez foi, na prática, quase totalmente fruto de pânico e exagero.Agora, a compra por pânico está de volta — desta vez no Japão — e, em alguns aspectos, faz ainda menos sentido. Durante a covid, as cadeias de suprimento de todos os setores estavam sob pressão, então o impulso de estocar tinha, ao menos, uma lógica aparente. Hoje, as interrupções decorrem do aperto no mercado de petróleo ligado ao conflito com o Irã, com pouca relação com bens de consumo embalados. Mas o Japão tem uma longa história com pânicos envolvendo papel higiênico — e essa história segue uma lógica própria.A história do Japão com pânicos de papel higiênicoA crise original de papel higiênico no Japão ocorreu em 1973, também desencadeada por turbulências no Oriente Médio relacionadas ao petróleo. Tudo começou quando Yasuhiro Nakasone, então ministro do comércio internacional e da indústria, pediu ao público que economizasse produtos de papel. O anúncio pretendia sinalizar austeridade. Em vez disso, alimentou rumores de que o papel estava acabando — e consumidores japoneses, especialmente mulheres responsáveis pelo orçamento doméstico, começaram a comprar quantidades enormes de papel higiênico. Acadêmicos descreveram o pânico como uma reação à crescente instabilidade da classe média, um medo de que seus meios de subsistência fossem sustentados por aparências frágeis.Desde então, o Japão corre para estocar seus produtos de higiene sempre que surge uma crise. O devastador terremoto e tsunami de 2011 desencadearam o mesmo tipo de comportamento de acumulação, embora aparentemente tenha havido algumas interrupções reais nas regiões afetadas. Agora, o ciclo está se repetindo.O que faz do papel higiênico um alvo recorrente? Ele é volumoso e claramente finito — quando desaparece da prateleira, isso chama atenção. E, ao contrário dos alimentos, que são consumidos e repostos em um ritmo contínuo, o papel higiênico ocupa uma categoria psicológica própria, como símbolo de estabilidade e responsabilidade no longo prazo.“A importância do papel higiênico se enraíza profundamente na alma da cultura moderna”, escreveu o antropólogo Grant Jun Otsuki sobre a escassez durante a covid, em 2021. “A simples ideia do desaparecimento do papel higiênico do mundo leva algumas pessoas a agir com rapidez e decisão para garantir seus próprios estoques.”Até agora, o pânico não parece ter se espalhado muito além do Japão — exceto, talvez, para a vizinha Austrália, onde Perth já registrou alguns sinais iniciais de estocagem. Como se os gritos vindos do outro lado do mar finalmente tivessem chegado a novos ouvidos.2026 Fortune Media IP LimitedThe post O grande pânico da falta de papel higiênico volta a atacar no Japão appeared first on InfoMoney.
