Análise técnica dita o timing, mas conhecer a empresa é fundamental, diz Acampora

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Com mais de cinco décadas de experiência no mercado financeiro, o veterano de Wall Street Ralph Acampora reforça uma visão que atravessa gerações de traders: mesmo com o avanço da tecnologia e a ascensão da inteligência artificial — que, segundo ele, chega a “tirar seu sono” —, os fundamentos da leitura de mercado permanecem os mesmos.Entre eles, destaca-se o “bom dever de casa”: pesquisar a fundo a ação ou a empresa antes de investir continua sendo fundamental.Em entrevista ao InfoMoney nesta sexta-feira (27), durante a Expert Trader XP, em São Paulo, Acampora afirmou que a análise técnica segue como uma ferramenta fundamental para o timing das operações, desde que ancorada na simplicidade e na disciplina.Leia mais: Ralph Acampora: quem é o trader pioneiro que levou a análise técnica a Wall StreetInfoMoney: Qual a importância de um evento desses [Expert Trader] aqui no Brasil?Ralph Acampora: Acho incrível. Estou muito impressionado com o tamanho do público e com a quantidade de mulheres traders presentes. E o mais importante, quantas mulheres [traders] jovens estão aqui. Eu já disse muitas vezes aos meus amigos em Wall Street: “onde estão as mulheres [traders]?”.Quando comecei a organização CMT [Chartered Market Technician], em 1970, essa era uma preocupação constante. A porta nunca esteve fechada, mas agora vemos mais participação. E aqui isso está muito evidente. Estou realmente impressionado. Continuem assim.IM: É a sua primeira vez no Brasil? O que achou? RA: É minha primeira vez no Brasil, e estou adorando. Inclusive, a comida é uma maravilhosa.IM: Depois de tantos anos no mercado financeiro, sempre utilizando análise técnica, na sua opinião, onde a análise técnica ainda tem vantagem sobre outras formas de análise?RA: Quando falo de finanças, gosto de começar pelo começo: a empresa ou a ação que pretendo comprar. Quero saber tudo sobre a empresa. Isso é fundamental.Mas antes de apertar o gatilho e comprar a ação, quero ver se ela está indo bem. E é aí que entra a análise técnica: ela é uma ferramenta de timing.Ao longo dos anos, ensinando e acompanhando a evolução da análise técnica, percebo que ela é extremamente útil. Não digo que uma seja melhor que a outra, mas juntas formam o que chamo de “análise de fusão”.Por isso, incentivo todos a fazerem sua lição de casa, e depois olharem o gráfico.IM: Por muitos anos, o mercado tratou análise técnica e análise fundamentalista como grupos separados. Na sua visão, isso ainda faz sentido ou os investidores precisam combinar as duas análises?Essa é uma pergunta incrível. Se eu tirasse o paletó, vocês veriam as cicatrizes nas minhas costas, de tanto lutar essa batalha ao longo dos anos.Na minha humilde opinião, a data mais importante da história da análise técnica é sexta-feira, 17 de dezembro de 2004. Foi quando eu e outros três colegas fomos à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos. Naquele ano, a lei Sarbanes-Oxley determinou que todos os analistas — e eu era um deles — precisariam fazer o exame CFA.Eu bati na mesa e disse: “mas eu tenho um CMT, sou um Chartered Market Technician”. E isso, naquele momento, não foi considerado. Tivemos uma discussão intensa. Sentamos com cerca de 20 advogados para defender nosso ponto de vista.Em determinado momento, um deles se levantou e disse: “Ralph, vemos você na televisão, você parece um cara legal”. Então colocou um gráfico na minha frente e perguntou: “o que é fato neste gráfico?”. Eu respondi: “o preço é um fato”. Ele se surpreendeu. Então completei: “e os lucros? Lucros são estimativas. Eles podem ser revisados. Mas o gráfico não é republicado”.Ele respondeu: “boa resposta”. E eu disse: “pode ter certeza disso”.Três meses depois, a Comissão reconheceu oficialmente a análise técnica como uma disciplina válida. Hoje, o maior órgão regulador do mundo reconhece dois tipos de analistas: o fundamentalista, que analisa empresas e possui o CFA, e o técnico, que analisa ações e possui o CMT.Tenho muito orgulho disso. IM: O que a análise técnica geralmente vê primeiro? Fluxo de dinheiro, perda de convicção ou uma mudança real de tendência?RA: Bem, depende do que você está procurando. Se a sua análise é focada em fluxo de dinheiro, por exemplo, então o volume ganha mais importância. Para mim, todos esses indicadores que todo mundo utiliza, como RSI, MACD e Bandas de Bollinger, são úteis, sem dúvida.Mas é importante lembrar: você não possui esses indicadores, você possui o preço. Por isso, eu sempre começo pelo preço. Ensino isso há mais de 30 anos e, de forma intencional, levo os alunos ao básico, como aprender a traçar uma linha de tendência. Pode parecer simples. A gente costuma pensar que subir é bom e cair é ruim, mas é surpreendente quantas pessoas não conseguem identificar corretamente uma tendência.No fim das contas, trata-se de voltar ao básico. Todos nós temos vieses, todos nós criamos opiniões. Dizemos “acho que essa empresa é ótima” sem nem olhar o comportamento da ação. Eu sou um cara simples: começo pelo preço e, depois, observo o fluxo de capital. Afinal, você quer entender se aquela tendência de alta está sendo sustentada pela entrada crescente de dinheiro. É isso que ajuda na tomada da decisão final.IM: Essa é a sua sequência de análise: primeiro o preço e, em seguida, o fluxo de capital?RA: Eu também observo o sentimento do mercado, buscando entender se há excesso de otimismo ou pessimismo. Além disso, gosto de analisar como uma ação específica está performando dentro do seu próprio setor. Por exemplo, se for uma empresa do setor automotivo, avalio como ela se compara às grandes montadoras, como a General Motors. Se está tendo um desempenho melhor ou pior.E, se você realmente quiser se aprofundar, vale investigar em quais ETFs [Exchange Traded Funds],essa ação está incluída. Muitas vezes, ela faz parte de um fundo negociado em bolsa e, se esse ETF estiver performando bem, isso pode ser mais um indicativo de que a ação pode ser uma boa oportunidade de compra.IM: Você falou sobre fazer o dever de casa. Você lê as notícias constantemente? RA: Sempre, sempre. Eu olho tudo. Tudo afeta o mercado. E infelizmente nesse ambiente em que estamos, o que está acontecendo no Irã é simplesmente global. E se você não estava acompanhando o que está acontecendo e ouvindo o que está acontecendo, vai perder esses movimentos.IM: Depois de 50 anos olhando gráficos, o que você acha que a maioria dos traders ainda não entende sobre o mercado? RA: Essa é uma ótima pergunta. Não acho que seja falta de entendimento. Acho que o problema é o viés. Muitos entram no mercado já com uma opinião formada, antes de fazer a lição de casa. Por exemplo: “eu gosto de ações de tecnologia”.Tudo bem, as essas ações estão performando melhor ou pior que o mercado? Isso é simples de ver. Você pode analisar o fluxo de dinheiro, o interesse no setor e, só depois, descer para as ações individuais.Hoje, isso é muito mais fácil. Quando comecei, fazia tudo manualmente. Agora, está tudo no celular. O problema não é complexidade, é disciplina em fazer o básico.IM: Com inteligência artificial, algoritmos e trading automatizado se tornando mais comuns, você acha que isso reduz o valor das ferramentas clássicas da análise técnica ou apenas muda a forma como devem ser usadas?RA: Vou ser muito honesto: o que me tira o sono é a inteligência artificial. Eu sou um cara simples. Não entendo completamente isso. E acho que muita gente também não entende, mas assume que é algo bom.Ouvi de pessoas da Bolsa de Nova York que cerca de 80% das negociações hoje são feitas por algoritmos. Quando comecei, tudo era manual.Hoje, dizem que os operadores humanos só são necessários na abertura e no fechamento do mercado. Durante o dia, é a IA que cuida de tudo.Mas veja, esses sistemas ainda usam gráficos. Se uma ação bate na média móvel de 200 dias, a IA sabe disso. Se chega a uma resistência, ela reage. Ou seja, os princípios continuam. O que muda é quem está executando, humanos ou máquinas.Não sou contra a IA, mas acho que pouca gente realmente entende como ela funciona no mercado.IM: Você realmente não dorme à noite por conta disso? RA: Eu durmo, sim. Estou brincando quando digo que não durmo. O que quero dizer é que eu não entendo tudo. Sou um homem de 85 anos, ainda procurando meu “botão de ligar e desligar”.E, diante de toda essa tecnologia, vale até inverter a pergunta e fazê-la aos mais jovens: será que eles realmente entendem o que a inteligência artificial está fazendo no mercado de ações? Eu acho que não. Talvez alguns entendam, mas, no geral, acredito que não.IM: Para o trader ou investidor que hoje se sente sobrecarregado com indicadores, notícias e excesso de informação, qual é a coisa mais importante a simplificar para ler o mercado com mais clareza?RA: O mercado pode ser muito confuso hoje. Há muitas estatísticas hoje e muitas formas de analisar o mercado. Mas eu sempre digo: você não possui os indicadores. Você não possui RSI ou MACD. Você possui o preço. Então comece pelo mais simples e mais importante: o preço.Se você gosta do comportamento da ação, siga com ela. É isso.Eu ensino isso há mais de 30 anos: comece pelo básico. Desenhe uma linha de tendência. Parece simples, mas muita gente não consegue identificar corretamente se o mercado está em alta ou baixa. Depois, olhe o fluxo de dinheiro para ver se aquela tendência é sustentada.IM: E como você vê o futuro do trading?Bem, temos a IA. Eu não sei o impacto dela, mas sabe, nós temos as ferramentas e as ferramentas são muito sofisticadas, sabe, estão no seu celular, você não quer ficar olhando o que o mercado está fazendo.Eu tenho que rir quando faço isso. Mas não, acho que é só continuar. Siga a tendência. Lembre-se, a tendência é sua amiga. O presidente Bill Clinton disse: siga a linha de tendência, não as manchetes.Confira mais conteúdos sobre análise técnica no IM Trader. Diariamente, o InfoMoney publica o que esperar dos minicontratos de dólar e índice. The post Análise técnica dita o timing, mas conhecer a empresa é fundamental, diz Acampora appeared first on InfoMoney.

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