Cartões de crédito: endividamento alto reacende debates, mas haverá mudança no setor?

Blog

O endividamento das famílias subiu para 49,7% em 2025, próximo ao pico histórico de 49,9% em 2022 e superior à média de 10 anos, de 43,5%. O número levantou preocupações e o noticiário já começou a repercutir possíveis estratégias do governo para reduzir esse indicador.Dentre as medidas, uma possível regulação de cartões de crédito, incluindo o endurecimento do limite para cartões de crédito rotativo, chamou a atenção dos investidores.Leia tambémBC: juros do cartão sobem e crédito perde ritmo, causando aperto às famíliasAlta no rotativo encarece empréstimos, eleva inadimplência e mantém orçamento pressionadoPara o Morgan Stanley, a situação tem causado mais ruído do que mudança. De acordo com os analistas, a discussão sobre regulação ignora que altas taxas financiam parcelamentos sem juros. Desta forma, seguindo o argumento do banco, limitar taxas poderia eliminar os parcelados, prejudicando consumidores e volumes. Dado os riscos políticos e econômicos, os analistas acreditam que a probabilidade de ação seja baixa.Impacto nos mercadosDe acordo com os analistas, um teto forçado nas taxas combinado com redução dos parcelados seria particularmente negativo para adquirentes, as empresas que processam pagamentos para lojistas. Isso impactaria, principalmente, empresas como PagSeguro (PAGS34) e Stone, cuja rentabilidade depende fortemente das receitas de antecipação de recebíveis.Para emissores de cartão, como Nubank (BDR: ROXO34) e Itaú (ITUB4), os analistas calculam impacto mais misto. De maneira geral, a rentabilidade por operação poderia melhorar em um cenário mais “normal”, mas com volumes menores. O banco também destaca que uma redução gradual e coordenada dos parcelados seria um cenário mais construtivo para emissores, embora ainda desafiador para adquirentes.Mudanças possíveisO debate tem girado em torno das altas taxas de juros cobradas sobre saldos rotativos, com a possibilidade de impor tetos ou, ainda, redesenhar o arcabouço regulatório. Conforme os analistas, a discussão atual ignora a complexidade estrutural do sistema de cartões brasileiro.Uma possível solução, conforme o Morgan, exigiria ação coordenada em toda a indústria, com apoio dos reguladores. Em conjunto, seria possível reduzir gradualmente parcelamentos mais longos. Ao mesmo tempo em que permitiria que as taxas de juros se normalizassem, minimizando impactos no consumo.O Bank of America também atenuou a possibilidade de mudança no contexto atual. De acordo com o banco, o Banco Central brasileiro prefere soluções mais estruturais, argumentando que as linhas de crédito rotativo devem ser utilizadas apenas em situações de emergência. Ao mesmo tempo, os analistas da casa destacaram que esses tetos poderiam ser implementados pelo próprio Congresso, sujeitos à aprovação presidencial.Estrutura financeiraDe acordo com o Morgan, as taxas de juros muito elevadas observadas no segmento rotativo não são uma distorção isolada, mas sim uma consequência direta do desenho do sistema. Os analistas explicam que, no Brasil, a maior parte dos saldos de cartão de crédito não gera receita de juros. Desta forma, a parcela relativamente pequena de saldos rotativos precisa, na prática, subsidiar todo o portfólio.Esse portfólio inclui custos de funding (captação de recursos), perdas de crédito (inadimplência) e despesas operacionais. “Como resultado, as taxas de juros muito elevadas observadas no segmento rotativo não são uma distorção isolada, mas sim uma consequência direta do desenho do sistema”, observam.Neste contexto, os analistas enxergam que impor tetos arbitrários para taxas de juros provavelmente geraria riscos econômicos e políticos indesejados. Um dos exemplos, seria a redução ou eliminação dos parcelados por emissores de cartão, para reduzir taxas. Sem parcelamentos, os analistas calculam que o uso de cartões de crédito cairia, provocando, também, uma forte reação negativa dos consumidores.Para o BofA, os bancos digitais seriam ainda mais impactados do que os bancos tradicionais. Mais dependentes de cartões de crédito, os bancos digitais teriam que ampliar sua exposição aos empréstimos para folha de pagamento de pessoas físicas. Conforme os analistas, essa exposição aumentaria os riscos para os lucros.The post Cartões de crédito: endividamento alto reacende debates, mas haverá mudança no setor? appeared first on InfoMoney.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *