IA avança nas empresas, mas trava no meio do caminho e expõe desalinhamento interno

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A inteligência artificial já entrou de vez na estratégia das empresas. O investimento cresce, o discurso é otimista e os primeiros resultados começam a aparecer. Mas, na prática, a transformação avança em ritmo irregular e esbarra em um ponto crítico dentro das organizações: o desalinhamento entre quem decide e quem executa.Um estudo publicado pela Harvard Business Review, com base em pesquisa conduzida pela Wharton School em parceria com a GBK Collective, mostra que mais de 80% dos líderes empresariais já utilizam IA semanalmente, enquanto 74% relatam retornos positivos nas primeiras implementações.Apesar disso, o impacto ainda está longe de ser generalizado. Pesquisas de consultorias como BCG, McKinsey e MIT indicam que menos de 10% das empresas conseguem extrair valor significativo da IA em escala.O problema, segundo o levantamento, não está na tecnologia nem no investimento — mas dentro da própria estrutura organizacional.O “meio confuso” das empresasA principal fratura aparece entre dois níveis de liderança: executivos seniores e gerentes de nível médio. Enquanto a alta liderança enxerga avanço e retorno, quem está na linha de execução tem uma percepção bem mais cautelosa. De acordo com o estudo, 45% dos executivos afirmam já obter retorno significativo sobre investimento em IA, mas esse número cai para 27% entre gerentes de nível médio.A diferença se repete na leitura sobre o ritmo da transformação. Mais da metade dos executivos (56%) acredita que suas empresas estão adotando IA mais rapidamente que os concorrentes. Entre os gerentes, apenas 28% concordam com essa avaliação.Na prática, isso significa que as empresas operam com duas narrativas simultâneas sobre a mesma transformação.Leia também:Profissionais de atacado e varejo têm maiores riscos de burnout, aponta estudoOtimismo no topo, cautela na operaçãoO descompasso não é apenas técnico — é também emocional. Quase dois terços dos executivos afirmam ter se tornado “muito mais positivos” em relação à IA no último ano. Entre gerentes de nível médio, esse percentual cai para 39%, enquanto 46% se descrevem como cautelosos.Esse contraste aparece também fora da liderança. Pesquisa da BCG com a Columbia Business School indica que 76% dos executivos acreditam que seus funcionários estão entusiasmados com a IA, mas apenas 31% dos trabalhadores dizem o mesmo.O dado reforça uma leitura central: a percepção da transformação muda conforme a posição dentro da empresa.Leia também:Uma a cada três mulheres já sofreu assédio sexual no trabalho, indica estudoEntre estratégia e realidadeParte dessa divergência tem explicação direta no tipo de trabalho realizado em cada nível. Executivos tendem a utilizar IA para atividades de síntese, estratégia e apoio à decisão — áreas em que a tecnologia já apresenta bons resultados. Já os gerentes de nível médio lidam com a implementação no cotidiano: integração com sistemas, adaptação de processos, treinamento de equipes e gestão de erros.É nesse ponto que a transformação deixa de ser conceito e vira operação — com atritos, falhas e limitações. O estudo mostra que esse grupo está mais exposto às dificuldades reais da tecnologia, o que explica a diferença de percepção. Enquanto a liderança olha para o potencial, a operação lida com as restrições do presente.Leia também:Com a volta aos escritórios ganhando força, modelo híbrido virou benefícioO impacto no trabalho cotidianoA adoção da IA não acontece em um vácuo — ela se soma a um ambiente de trabalho que já vinha passando por mudanças profundas. Segundo pesquisa da Mercer citada no estudo, 43% dos trabalhadores acreditam que a IA tornará seu trabalho mais difícil ou frustrante, enquanto 53% avaliam que a tecnologia pode afetar sua estabilidade no emprego.Ao mesmo tempo, o mercado já convive com transformações paralelas. Dados da Gallup mostram que cerca de 60% dos profissionais preferem modelos híbridos de trabalho, indicando uma mudança estrutural nas expectativas em relação à organização do trabalho.Esse contexto amplia a complexidade da transição. A empresa precisa transformar processos, incorporar tecnologia e, ao mesmo tempo, lidar com uma força de trabalho que já passou por uma ruptura recente e redefiniu suas prioridades.Leia também:IA redefine o valor do trabalho humano e exige aprendizado contínuo nas empresasO gargalo da execuçãoO estudo aponta que o problema central da transformação em IA não está na ambição — mas na capacidade de execução.Gerentes de nível médio, responsáveis por traduzir estratégia em prática, operam sob restrições significativas. Pesquisa da McKinsey citada no levantamento indica que esses profissionais dedicam menos de 30% do tempo à gestão de pessoas, enquanto quase metade da jornada é consumida por tarefas administrativas.Nesse cenário, a introdução de novas ferramentas — como a IA — pode representar não um ganho imediato, mas uma camada adicional de complexidade no curto prazo.A promessa de eficiência existe, mas exige adaptação, aprendizado e reorganização do trabalho.Leia também:Empresas passam a organizar carreiras por habilidades — e não apenas por cargosO desafio agora não é tecnológicoO retrato que emerge é o de uma transformação que avança, mas de forma desigual dentro das organizações. De um lado, empresas ampliam investimentos, estruturam estratégias e acumulam ganhos iniciais. De outro, a implementação enfrenta obstáculos práticos, diferenças de percepção e limitações operacionais.O resultado é um processo que não trava completamente, mas também não escala na velocidade esperada. A conclusão do estudo é direta: o principal desafio da transformação em IA deixou de ser tecnológico. Passa a ser organizacional.Enquanto as empresas não conseguirem alinhar visão estratégica, capacidade de execução e realidade do trabalho cotidiano, a inteligência artificial seguirá avançando, mas sem entregar todo o potencial prometido.No fim das contas, a pergunta já não é se a IA vai transformar os negócios. É se as empresas estão preparadas para transformar a si mesmas.Leia também: O novo trabalhador brasileiro: mais qualificado, mais diverso — e mais pressionadoThe post IA avança nas empresas, mas trava no meio do caminho e expõe desalinhamento interno appeared first on InfoMoney.

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