A alta de 0,6% em fevereiro no Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), considerado uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB), indica que a economia segue respondendo ao crescimento da massa de renda real das famílias, às medidas de estímulo do governo e aos programas de transferência de renda. Mas, na avaliação dos economistas, uma leitura mais ampla do dado, considerando a forma como a atividade estava no mesmo mês no ano passado, indica uma leve moderação da atividade, reflexo da alta de juros e da desaceleração da economia. Além disso, os dados ainda não refletem o impacto do conflito no Oriente Médio, segundo os especialistas.Leia também: Churrasco ‘salgado’: inflação da carne e da cerveja supera IPCA em 12 mesesO peso do consumo e o alerta nos serviçosPara as principais instituições financeiras, o indicador reflete forças opostas atuando sobre a economia brasileira.Um relatório do Goldman Sachs aponta que a atividade real deve continuar a se beneficiar de transferências fiscais para famílias de baixa renda, além de um “forte cenário” no mercado de trabalho. O banco pondera que essa expansão deve ser mitigada por “condições financeiras e monetárias domésticas apertadas”, como o aumento da inflação e o alto nível de endividamento das famílias.Já na avaliação de Rodolfo Margato, economista da XP, o IBC-Br excluindo a agropecuária (alta de 0,6% no mês) demonstrou”solidez no ganho de velocidade da atividade doméstica, e os números acabam reforçando a visão de um primeiro trimestre de 2026 robusto em termos de atividade geral.Em contrapartida, a visão qualitativa exige cautela, segundo Leonardo Costa, economista do ASA. Para ele, o resultado de fevereiro indica um ritmo moderado da atividade no primeiro trimestre do ano. Costa ressalta que a informação mais relevante dos dados é a “acomodação dos serviços”, setor que tem maior peso no PIB, o que vai em linha com a expectativa de uma atividade mais fraca ao longo de 2026.Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br)Mês/mêsTri/TriMês/mês (comparação anual)IBC-Br0,61,1-0,3Agropecuária0,21,8-1,3Indústria1,21-1,3Serviços0,31,11Impostos0,81,3-2,6IBC-Br ex-agropec.0,61,10Fonte: Banco CentralTração de curto prazo divide especialistasYihao Lin, da Genial Investimentos, observa que a parte mais cíclica da economia está ganhando tração, revertendo sinais de perda de dinamismo. Porém, ele alerta que esses mesmos dados demandam uma certa cautela devido à “reversão da tendência de arrefecimento dos segmentos mais cíclicos da economia”, o que pode intensificar os desafios para o Banco Central na condução da política monetária e no controle da inflação.É nesse contexto de resiliência que o indicador marcou seu quinto mês seguido de expansão, como destaca Pablo Spyer, conselheiro da Associação Nacional das Corretoras de Valores (Ancord). Ele avalia que o dado mostra que a atividade ainda tem tração, principalmente puxada pela indústria. Já a queda na comparação com o mesmo mês do ano passado tem relação direta com a estratégia do BC de esfriar a economia por meio dos juros altos, na avaliação do conselheiro da Ancord.Acompanhando essa leitura de freio gradual, Matheus Pizzani, economista do PicPay, alerta que o panorama sob um prisma mais extenso não confirma um cenário otimista permanente. Para Pizzani, a leitura do índice vem se mostrando mais alinhada à realidade de uma “inflexão pontual”, tornando necessário mais informações para que se consolide como uma trajetória perene.Crédito mais restrito e a sombra da geopolíticaSe o consumo das famílias ainda sustenta parte da atividade, o ambiente corporativo já sente os efeitos da transição de ciclo econômico. A desaceleração na comparação anual acende um alerta sobre a qualidade dos ativos e do crédito.Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, destaca que o IBC-Br reforça um cenário de crescimento técnico, mas sem aceleração estrutural. Segundo ele, o ambiente exige maior rigor na análise de risco empresarial, já que a capacidade de pagamento tende a ficar pressionada pelos juros altos.Conflito no Oriente Médio ainda fora do dadoAlém dos desafios domésticos, o mercado já calibra as expectativas para os próximos indicadores, que deverão capturar choques externos recentes.Peterson Rizzo, gerente de R.I da Multiplike, lembra que a foto de fevereiro ainda é um reflexo do passado. “Vale lembrar que os números não refletem os efeitos da intensificação do conflito entre Irã e Estados Unidos. Esses impactos, especialmente via petróleo, inflação global e condições financeiras, tendem a aparecer nos próximos indicadores”, alerta.Para os investidores, essa combinação de atividade interna ainda resiliente na margem com ruídos externos já tem impacto prático.Segundo Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, o cenário reduz o espaço para cortes agressivos na taxa Selic. “A consequência é uma reprecificação na parte curta da curva, com ajuste no timing de flexibilização”, afirma Lima.Projeções para 2026A XP diz que não mudou a projeção do PIB para o ano, mantida em 2,0%, mesmo percentual projetado pela Genial Investimentos.Para a Ouro Preto Investimentos, o PIB deve continuar entre 1,5% e 1,7% no ano, “mantendo um cenário de crescimento baixo e juros elevados por mais tempo”, segundo Lima.O PicPay projeta avanço de 1,7%, prevendo perda de fôlego dos vetores ligados à economia doméstica e a retomada da participação do setor externo na composição do PIB.Já o Goldman Sachs mantém uma projeção mais conservadora, com um PIB de 1,6% para o ano, mesmo percentual estimado pela Azumi Investimentos e pela Asset Bank.Em geral, embora os dados mensais de fevereiro tenham vindo acima do esperado, o consenso entre os economistas é de que a economia caminha para um ritmo mais moderado ao longo do ano devido aos juros elevados e à acomodação estrutural de setores-chave, como o de serviços.The post Prévia do PIB tem “foto” positiva, mas esconde desaceleração gradual da atividade appeared first on InfoMoney.
