A cena é conhecida nas grandes cidades: chuva forte, trânsito parado, e em algum momento a gente pensa se vai conseguir passar pela água que não para de subir. No caso dos carros elétricos, a pergunta costuma vir com mais receio ainda, pois há quem imagine risco de choque, pane imediata ou até explosão.Com a tecnologia mais difundida e uma presença cada vez maior nas ruas, esse tipo de situação já faz parte da rotina de quem atende ocorrências envolvendo veículos. “Os riscos são praticamente os mesmos”, diz o tenente-coronel Willian Leal Nunes, comandante do 15º Batalhão de Bombeiros Militar de Santa Catarina, ao comparar o comportamento de um carro elétrico na enchente e um à combustão.Em conversa com o InfoMoney, o especialista explicou que alguns perigos nem sempre estão onde o senso comum aponta, e deu dicas de segurança para quem tem um eletrificado e pode se deparar com alagamentos no dia a dia.O que acontece com um carro elétrico na enchenteAtravessar um alagamento com um carro elétrico não muda tanto quanto muita gente imagina. Na prática, os riscos mais imediatos são os mesmos de qualquer veículo: perda de aderência, dificuldade de controle e, em situações mais críticas, o carro começar a flutuar.Algumas diferenças aparecem no comportamento do veículo. “Ele não tem o risco de o motor puxar água”, explica Leal, ao comparar com os modelos a combustão. Em situações específicas, isso pode evitar uma pane imediata.O peso também entra nessa conta “Com baterias maiores e instaladas na parte inferior, o eletrificado tende a ficar mais pesado do que o carro à combustão, então ele ‘gruda’ mais no fundo”, explica Leal.Mas isso não significa que a travessia seja segura. Se o nível da água sobe além do esperado ou a corrente ganha força, o risco de perder o controle continua alto, e a recomendação geral segue a mesma: evitar avançar quando não há certeza das condições da via.Leia também: JMEV EV2 chega ao Brasil como o carro elétrico mais barato do mercadoPor que não há risco de choqueA explicação está na forma como o sistema é projetado. Via de regra, a bateria fica isolada e protegida em uma estrutura própria, pensada justamente para evitar contato externo mesmo em situações adversas. Além disso, o conjunto conta com um sistema de monitoramento constante, que acompanha o funcionamento das células em tempo real.“Se tiver alguma fuga de energia, alguma perda de carga fora do padrão, o sistema é cortado”, explica Leal. Aqui, o funcionamento lembra um disjuntor: ao identificar algo fora do esperado, o sistema interrompe automaticamente o fluxo de energia.A diferença é que, no carro elétrico, esse controle é mais refinado, observa o tenente-coronel:“Ele não serve só como um disjuntor, pois o sistema identifica aquecimento ou variações em células específicas e redistribui o uso da bateria, reduzindo o risco de falhas mais graves”, diz Leal.O que pode acontecer depois do contato com a águaPor si só, o contato com a água não costuma causar um problema imediato no sistema elétrico, especialmente no alagamento em água doce. O cenário muda quando há exposição mais prolongada ou contato com água salgada ou salobra.“A bateria fica dentro de um cofre metálico, muito bem protegida. Mas quando entra água salgada, esse cofre começa a oxidar, e com o tempo isso pode comprometer a vedação da estrutura e expor componentes internos da bateria”, alerta Leal.Nesses casos, os efeitos nem sempre aparecem na hora. “Teve situações em que a reação começou depois”, diz o oficial, ao lembrar de veículos afetados por enchentes em regiões atingidas por furacões nos Estados Unidos.Esse tipo de dano é mais difícil de identificar a olho nu e pode evoluir mesmo depois que o carro volta a funcionar normalmente. Por isso, a recomendação é revisar e não confiar apenas no comportamento imediato do veículo após a exposição à água, especialmente se houve submersão ou contato com água contaminada.A temida “fuga térmica”O termo costuma aparecer quando se fala em carros elétricos, e assusta por si só. Como explica Leal, a fuga térmica é um processo interno da bateria. “Uma célula começa a aquecer e vai passando calor para as outras. Esse efeito em cadeia continua enquanto ainda há energia no sistema”, diz o tenente-coronel.A carga da bateria influencia diretamente esse comportamento. Quanto mais energia armazenada, maior tende a ser a duração da reação. “É como um tanque de combustível: vazio queima menos tempo, cheio queima mais”, afirma.Mas esse tipo de ocorrência não começa de forma espontânea. Normalmente, está associado a situações mais extremas, como incêndios que já atingiram o veículo ou danos mais severos ao sistema.No uso cotidiano, alguns cuidados ajudam a preservar o funcionamento do sistema e reduzir a exposição a esse tipo de cenário. Evitar manter o carro longos períodos sob calor intenso, não levar a bateria com frequência a mais de 80% de carga e seguir o cronograma de revisões são medidas que contribuem para manter o conjunto em condições seguras de operação.Onde está o risco de verdade (e o que pode piorar no futuro)Extensões improvisadas, adaptações fora do padrão e instalações inadequadas estão entre os principais pontos de atenção. Esse tipo de situação aparece com mais frequência em condomínios, onde a infraestrutura nem sempre acompanha a chegada dos veículos elétricos. “A pessoa faz uma gambiarra para carregar, outro vê e acaba repetindo”, alerta Leal.Outro ponto que entrou no radar é o envelhecimento da frota. Os carros elétricos que circulam hoje ainda são relativamente novos, e muitos estão nas mãos dos primeiros ou segundos proprietários. A preocupação é com o que pode acontecer daqui a 10 anos quanto a manutenções fora de padrões adequados.“Quando começar a abrir bateria, misturar peças e fazer adaptações, aí sim pode virar um problema maior”, afirma Leal. A lógica do “mecânico de confiança” não desaparece, mas passa a exigir outro tipo de preparo desses profissionais.The post Carro elétrico: quais os riscos em uma enchente? Saiba o que fazer appeared first on InfoMoney.
