O período vivido pelo Brasil entre 2023 e2024 serve como um exemplo contundente da amplitude e da gravidade dos impactos sobrepostos que podem ser desencadeados por um evento de calor extremo. A constatação está num capítulo especial de um novo relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês), elaborado em conjunto com a Organização Mundial de Meteorologia (OMM).O texto afirma que o calor extremo está emergindo como uma das ameaças mais urgentes e menos compreendidas à agricultura e à segurança alimentar em todo o planeta. O aumento das temperaturas, as ondas de calor prolongadas e as mudanças nos padrões climáticos já estão prejudicando a produtividade das culturas, a saúde do gado, a disponibilidade de água e os meios de subsistência rurais – com impactos caindo desproporcionalmente sobre os mais vulneráveis.Ao usar o caso recente do Brasil para ilustrar esses riscos, o relatório lembra que, sobre uma base já mais quente, moldada pelas mudanças climáticas e amplificada pelo El Niño, a onda de calor no país afetou simultaneamente lavouras, pecuária, florestas, pesca e a saúde humana.“Essas falhas interconectadas evidenciam a profunda vulnerabilidade de todo o setor agrícola e as graves implicações que tais eventos têm para os meios de subsistência e a segurança alimentar de milhões de pessoas que dele dependem”, diz o estudo.Leia também: Brasil soma R$ 28 bilhões em prejuízos com desastres naturais em 2025Segundo a FAO, os eventos de calor extremo em 2023 e 2024 no Brasil ocorreram dentro de um contexto mais amplo de tendências de aquecimento na América do Sul e no mundo, bem como do forte El Niño daquele período.É lembrado que, desde 1979, houve um aumento significativo na frequência e intensidade de ondas de calor nas regiões tropicais e subtropicais do Brasil. Essas ondas de calor foram sentidas em áreas que anteriormente não eram afetadas, como a Amazônia e o Nordeste.Até o fim do século, um evento de calor extremo com temperatura máxima diária de pelo menos 40,6 °C (como o registrado na cidade do Rio de Janeiro em 18 de novembro de 2023) se tornará muito mais provável.Leia também: Queimadas fazem desmatamento crescer 92% na AmazôniaSoja e milhoOs impactos sobre as principais culturas do Brasil — soja e milho de primeira safra– no período de outubro de 2023 a maio de 2024 foram significativos, uma vez que as ondas de calor coincidiram com os ciclos de desenvolvimento das culturas nas principais áreas produtoras do Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste. “As temperaturas máximas diurnas excederam o limiar crítico para soja (30 °C) em mais de 60% dos dias naquele período na maior parte das áreas, exceto na região Sul. Normalmente, uma porcentagem tão elevada é observada apenas no Nordeste.”E até mesmo as temperaturas médias diárias, que normalmente permanecem abaixo de 30 °C, ultrapassaram esse limiar em até 20% dos dias no início da temporada de cultivo (outubro–dezembro).O estudo destaca que a soja é mais sensível a altas temperaturas durante as fases reprodutiva e de enchimento de grãos, quando o calor excessivo pode causar abortamento de flores, queda de vagens e má formação de grãos, reduzindo a produtividade total. “As perdas podem ser maiores em lavouras plantadas sob preparo convencional de solo (aração e gradagem) devido à perda de umidade e ao aumento da temperatura do solo.”Foi citado ainda que, no Estado de São Paulo, lavouras de soja conduzidas em áreas sob plantio direto, especialmente sobre palhada de cana-de-açúcar, sofreram menos com os efeitos das altas temperaturas e veranicos. A cobertura de palha atuou como isolante térmico, mantendo uma temperatura adequada para o desenvolvimento da cultura e para os microrganismos do solo, além de reduzir a perda de umidade do solo.As previsões iniciais da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para aquele período projetavam uma safra recorde de 162 milhões de toneladas. No entanto, em parte devido ao estresse térmico implacável, em maio de 2024 a estimativa foi reduzida para 147,7 milhões de toneladas, uma queda de quase 10% em relação às expectativas iniciais.Em nível subnacional, o impacto foi ainda maior. Por exemplo, a redução na produtividade da soja foi estimada em mais de 20% em São Paulo. Na safra de outubro de 2023 a maio de 2024, impactos semelhantes foram observados para o milho de primeira safra. A redução estimada de produtividade no Estado de São Paulo foi superior a 10%.Também foram relatados danos a diversas outras culturas devido ao calor extremo. Por exemplo, o amendoim sofreu abortamento de flores e redução no número de vagens. Outro impacto foi que milho, batata, soja, cana-de-açúcar e feijão-comum enfrentaram aumento de pragas e doenças (como mosca-branca e Macrophomina phaseolina). Entre as culturas perenes afetadas estavam café arábica, oliveira, cajueiro e ipê.SuínosO setor de pecuária também enfrentou forte pressão. Suínos, um dos animais mais sensíveis ao calor, estiveram sob estresse térmico severo por 20 dias ou mais a cada mês ao longo de grande parte do período 2023–2024 na fortemente afetada região Centro-Oeste. Em condições médias, os suínos estiveram sob condições de estresse térmico leve e moderado nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, enquanto, nas partes ao norte do país, prevaleceram condições de estresse severo.A partir de julho de 2023 até setembro de 2024, no entanto, praticamente todas as regiões do Brasil experimentaram uma grande mudança nas categorias de estresse. Condições leves passaram a moderadas, ou mesmo severas, e estresse moderado passou a severo.O mesmo ocorreu com os bovinos leiteiros, com queda na saúde e na produtividade dos animais, particularmente no Sudeste, que concentra 1/3 da indústria de laticínios brasileira.O estudo explica que o estresse térmico em suínos provoca redução na ingestão de alimento e no ganho de peso, mas que esses efeitos podem ser compensados pelo prolongamento do ciclo de crescimento, embora isso acarrete custos adicionais. No entanto, para bovinos leiteiros, o estresse térmico leva à redução da produção de leite, e essas perdas não podem ser recuperadas.“Períodos prolongados de exposição a calor extremo, para ambas as espécies, podem causar danos fisiológicos que persistem por toda a vida dos animais e podem resultar em descendentes com desempenho reduzido, o que representa perdas econômicas adicionais e irreversíveis para os produtores.”Incêndios florestaisOutro impacto relatado com a onda de calor de 2023–2024 foi que ela desencadeou incêndios florestais catastróficos e condições perigosas para trabalhadores. Em 2024, o índice de incêndios florestais FWI ficou anormalmente elevado em comparação à média de longo prazo (1980–2022).A região Centro-Oeste foi particularmente atingida, com o percentual de dias no ano em que o FWI — que leva em conta temperatura, umidade, velocidade do vento e precipitação — ultrapassou o limiar de 30 pontos percentuais, aumentando em até 40 p.p. (ou 150 dias).O estudo lembra que os incêndios florestais no Brasil devastaram uma área equivalente ao tamanho da Itália e causaram poluição severa do ar por micropartículas. “Os picos de risco de incêndio em 2024 foram mais evidentes no Centro-Oeste, seguidos pelo Nordeste e Sudeste, e mostram contrastes acentuados em relação à média de longo prazo para cada região. Nos últimos 20 anos, essas duas regiões exibem um aumento no percentual de dias com risco elevado de incêndio (FWI acima de 30), bem como aumento na variabilidade interanual.”The post Caso de calor extremo no Brasil em 2023-2024 ilustra riscos para segurança alimentar appeared first on InfoMoney.
