Teo Babún Jr. guarda lembranças carinhosas da grande casa de esquina azul e branca em Santiago de Cuba, onde sua avó, uma matriarca rica na Cuba pré-revolução, reunia a família — seus oito filhos e 21 netos.Os Babún eram industriais que, como cerca de 200 mil outros cubanos abastados, fugiram da ilha após Fidel Castro chegar ao poder. Deixaram para trás uma ferrovia, uma serraria, um estaleiro e uma fábrica de cimento — além da grande propriedade chamada “La Mesquita”.Leia também: Presidente de Cuba diz que não teme guerra com os Estados UnidosPor um período, Raúl Castro, irmão de Fidel e ex-presidente, morou ali. Quase sete décadas depois, o governo cubano usa o local para abrigar uma associação cívica árabe.Conhecida como “Casa del Árabe”, a casa, que inclui um restaurante, está entre milhares de propriedades tomadas pelo governo comunista de pessoas que deixaram Cuba — algumas apenas com a roupa do corpo — e nunca receberam compensação.O sistema cubano parece estar à beira do colapso, e o governo dos Estados Unidos demonstra interesse em acelerar essa queda.Enquanto os dois lados negociam em segredo, uma questão espinhosa de décadas voltou à tona: os incontáveis bilhões de dólares em casas, fábricas, fazendas, usinas de açúcar e outros negócios confiscados após a revolução socialista que nacionalizou empresas e implementou amplas políticas agrárias.“Se você possui algo e alguém tira isso de você sem nenhum tipo de compensação ou solução, isso simplesmente não é justo”, disse Babún. “Minha família só quer justiça.”Se os Estados Unidos tiverem influência nas negociações sobre o futuro de Cuba, ex-proprietários esperam que o tema seja abordado.Resolver os confiscos é complicado e levaria anos. Mas especialistas afirmam que há muitos precedentes pelo mundo, como Vietnã, Alemanha e China, que oferecem um roteiro.Durante anos, o falecido pai de Babún, Teófilo Sr., dedicou-se a ajudar exilados a pegar em armas contra o governo Castro, inclusive na fracassada Invasão da Baía dos Porcos.O filho, hoje com 78 anos, comandou uma organização religiosa sem fins lucrativos financiada pelo governo dos EUA e tentou criar um registro de propriedades tomadas de cubanos, na esperança de que o Departamento de Estado pressionasse Cuba sobre essas perdas.Mas o esforço se mostrou demorado e difícil demais, e o projeto terminou com 8 mil reivindicações registradas — uma pequena fração dos casos potenciais. (Ele disse que muitas pessoas pareciam hesitantes, temendo que aderir a uma reivindicação coletiva anulasse sua capacidade de negociar acordos individuais maiores com o governo cubano.)A família contratou consultores em 2018, que estimaram o valor de seus bens naquele momento em US$ 874,2 milhões, incluindo US$ 9 milhões pela casa, segundo ele.Mas Babún afirmou que a passagem do tempo e o agravamento da crise em seu país natal suavizaram sua visão.“É preciso encontrar uma solução que proteja os ocupantes atuais, se for uma casa, e não desloque ninguém”, disse Babún. “E, ao mesmo tempo, buscar justiça.”Antes de 1959, Cuba era governada pelo ditador Fulgencio Batista e conhecida como um playground para elites americanas. Cubanos ricos eram frequentemente vistos como oligarcas que exploravam os pobres.Os irmãos Castro, buscando acabar com a corrupção generalizada, a forte desigualdade econômica e a dependência dos Estados Unidos, lideraram um movimento guerrilheiro armado que derrubou Batista.Poucos meses após assumirem o poder, uma lei agrária expropriou terras com mais de 405 hectares e proibiu a propriedade estrangeira. Em 1960, Cuba confiscou refinarias de petróleo pertencentes a americanos e nacionalizou grandes empresas.Como retaliação, os Estados Unidos anunciaram um embargo comercial severo contra Cuba, que permanece até hoje.Uma comissão do governo americano documentou perdas de empresas e cidadãos dos EUA, certificando quase 6 mil reivindicações avaliadas em US$ 1,9 bilhão. Com juros de 6% adicionados, estima-se que hoje esses valores cheguem a cerca de US$ 9 bilhões — uma quantia difícil para Cuba pagar.Cinco dos dez maiores reclamantes eram empresas açucareiras dos EUA. Outras eram Exxon, Coca-Cola, Colgate-Palmolive e Woolworth’s.Pela lei americana, para que o embargo seja suspenso, o governo cubano deve devolver propriedades ou compensar proprietários americanos cujas perdas foram certificadas pelo governo dos EUA.Autoridades americanas que se reúnem com líderes cubanos em negociações secretas deixaram claro que a compensação a americanos e empresas dos EUA continua sendo uma prioridade central.O Ministério das Relações Exteriores de Cuba não respondeu aos pedidos de comentário para esta reportagem.No início dos anos 1960, Estados Unidos e Cuba realizaram negociações durante quase um ano sobre o que seria considerado “compensação rápida e adequada” pelas expropriações, disse William LeoGrande, professor da American University que escreveu um livro sobre a história das negociações entre os dois países.“Cuba não tinha dinheiro para pagar imediatamente e, em vez disso, ofereceu títulos do governo de longo prazo, o que os EUA consideraram nem rápido nem adequado”, afirmou.Embora o governo dos EUA negocie em nome de americanos ou empresas com reivindicações certificadas, isso não ocorre tecnicamente para os muitos exilados cubanos que deixaram casas e negócios para trás.Cuba considerou essas propriedades “abandonadas” e as tomou sob a justificativa de redistribuir riqueza. Mas o governo manteve muitas delas. Apenas cubanos que permaneceram no país foram compensados por propriedades perdidas, disse Lisandro Pérez, estudioso de Cuba no John Jay College of Criminal Justice, em Nova York.Nunca foi divulgado um levantamento oficial das propriedades confiscadas pelo governo cubano. Não há estimativa confiável de quantas são nem de quanto os exilados poderiam ter a receber.“Não éramos apoiadores de Batista, não éramos políticos nem cometíamos crimes — deveríamos receber de volta”, disse Nicolás Gutiérrez, advogado cubano-americano em Miami cuja família perdeu uma fortuna estimada em US$ 50 milhões no início dos anos 1960.Os bens incluíam duas usinas de açúcar, 15 fazendas de gado, um moinho de arroz, uma plantação de café, um banco, uma seguradora e uma empresa de distribuição de alimentos no atacado.Gutiérrez, secretário corporativo da Associação Nacional de Proprietários de Terras Cubanos no Exílio, também atua como consultor de outras famílias e participa de um processo contra a Expedia por reservar clientes em hotéis construídos pelo governo cubano em terrenos de praia confiscados.A Expedia argumenta que os autores não têm legitimidade para processar, embora o caso continue.Gutiérrez, de 61 anos, nunca esteve em Cuba. Mas afirma que, se o governo devolver as propriedades de sua família, eles as colocarão novamente em operação e ajudarão a economia debilitada do país.“Nem todos na família vão correr de volta. Eu vou correr”, disse. “Na minha visão, Cuba está em um buraco tão profundo que, para sair dele, vai precisar atrair novos investimentos estrangeiros sérios.”Especialistas concordam que seria inviável devolver casas que foram entregues a inquilinos ou divididas em apartamentos multifamiliares. Ninguém defende despejos em massa. Mas muitas mansões imponentes estão sendo usadas por diplomatas internacionais ou ministérios do governo.Uma casa que a família Gutiérrez possuía no bairro Vedado, em Havana, é ocupada pela Lloyd’s of London. Vizinhos em uma rua de Havana onde a família tinha outra casa disseram que propriedades “abandonadas” não deveriam ser devolvidas.“Se saíram do país”, disse um vizinho, Jorge González Amores, “significa que não estavam interessados no imóvel.”Especialistas propuseram diversas soluções, incluindo a criação de fundos público-privados para reconstruir a rede elétrica de Cuba e usar parte dos lucros para compensar antigos proprietários, disse Jason Poblete, advogado que representa donos de propriedades americanos e cubanos.Apontam-se exemplos como Vietnã e Alemanha, que nos anos 1990 usaram ativos congelados nos Estados Unidos para pagar reivindicações. Já na União Soviética e na China, proprietários receberam apenas uma fração do valor dos bens confiscados.Em outros países, fundos de compensação foram gerados pela privatização de empresas estatais.Mas Cuba afirma também ter reivindicações contra os Estados Unidos.Em 1999, um tribunal cubano considerou o governo americano responsável por mortes e danos causados por suas “políticas agressivas” contra Cuba, incluindo a invasão da Baía dos Porcos e o embargo comercial. O valor estimado na época: US$ 181 bilhões.Carlos Fernández de Cossio, vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, afirmou em entrevista recente ao Drop Site News que, nos anos 1960, Cuba havia proposto um “acordo holístico” sobre propriedades de americanos e empresas dos EUA, com um pagamento único, mas que os Estados Unidos recusaram.Segundo ele, um pagamento coletivo seria a única solução. Nesse cenário, o governo cubano pagaria ao governo americano, que então distribuiria os valores aos prejudicados.Richard Feinberg, pesquisador da Florida International University que estudou essas reivindicações, afirmou que resolver a questão é importante para normalizar relações diplomáticas e estabelecer um ambiente de negócios confiável em Cuba.O tema foi discutido em duas reuniões entre Cuba e o governo de Barack Obama, mas sem solução. Feinberg conversou com autoridades cubanas como parte de sua pesquisa e disse que elas não pareciam interessadas.“O governo cubano não parecia entender”, disse. “Eles me perguntavam: Richard, por que você está dando tanta importância a algo que aconteceu há 50, 60 anos?”“Isso mostra o quanto o governo cubano entendia pouco de economia e capitalismo”, acrescentou. “Eles não compreendiam a propriedade privada.”Enrique Carrillo, cuja família era dona da destilaria de rum Santa Cruz, a leste de Havana, disse estar ansioso para que famílias cubanas sejam compensadas e possam ajudar a reconstruir o país.“Esperamos por muito tempo por esse momento, por um alinhamento das circunstâncias”, disse Carrillo. “Meu pai trabalhou duro por muitos anos para construir a empresa, e eu não pretendo simplesmente aceitar isso. Minha família não pretende abrir mão da própria história.”c.2026 The New York Times CompanyThe post A Cuba comunista algum dia vai pagar os bilhões em propriedades que confiscou? appeared first on InfoMoney.
