A divulgação pelo IBGE nesta quinta-feira (30) da pesquisa de desemprego (PNAD) continuou a mostrar um mercado de trabalho aquecido, com a taxa de desemprego praticamente estável em patamares baixos e com o rendimento dos trabalhadores num momento histórico de altas. Na opinião de economistas, isso acrescenta doses de incerteza quando ao comportamento da inflação, especialmente de serviços, e para o trabalho do Banco Central na definição da taxa de juros.A taxa de desemprego anunciada subiu de 5,8%, no trimestre móvel encerrado em fevereiro, para 6,1% no primeiro trimestre de 2026, em linha com as expectativas. Na série trimestral com ajuste sazonal, no entanto, o indicador avançou menos, de 5,6% para 5,7%.Segundo a análise de Rodolfo Margato, economista da XP, o nível de ocupação segue em trajetória de alta, apesar de alguma desaceleração em março. “Estimamos que a população ocupada tenha avançado 0,1% em comparação com fevereiro, alcançando 102,8 milhões de pessoas”, disse, completando que esse foi o quinto crescimento consecutivo na margem.Enquanto isso, a força de trabalho cresceu 0,2% em março contra fevereiro, chegando a 108,9 milhões de pessoas, com alta de 0,4% ante março de 2025 e de 0,7% em 12 meses. E a taxa de participação da força de trabalho avançou marginalmente, de 62,1% para 62,2%, ainda bem abaixo do nível pré-pandemia, em torno de 63,5%.Leia também: Caged: saldo líquido de março é positivo em 228.208 vagas, acima das projeçõesUm ponto destacado pelos economistas é que o emprego formal continua a mostrar resiliência. Margato destaca que o contingente total de ocupações formais aumentou 0,2% em março comparado a fevereiro (2,5% na base interanual), somando 64,8 milhões de pessoas. E que o indicador avançou 3,2% nos últimos 12 meses.Em contrapartida, o conjunto das categorias informais recuou 0,3% em termos mensais (-0,3% ante o mesmo mês de 2025), para 38,0 milhões. O emprego informal teve queda de 0,6% em 12 meses. “Chamamos atenção para o declínio no agrupamento de Trabalhadores por Conta Própria (-0,6% mensais ou -122 mil)”, pontuou o economista da XP.Leonardo Costa, economista do ASA, lembra que a queda da informalidade contribui para sustentar o crescimento do rendimento médio, já que o emprego formal tende a remunerar melhor.Renda em altaO grande ponto de atenção citado pelos especialistas é exatamente o crescimento da renda real do trabalho. Margato lembra que esse rendimento vem crescendo consistentemente. “A categoria de Outros Serviços registrou forte alta de 11,5% na comparação interanual. A massa de rendimento real do trabalho – que combina nível de ocupação e rendimento média – avançou 0,5% na margem. Houve expansão de 7,1% na comparação com março de 2025 e de 6,1% em 12 meses”, citou o economista.“Em síntese, as estatísticas da PNAD reforçaram o cenário de mercado de trabalho apertado. A taxa de desemprego permanece significativamente abaixo de seu nível neutro (NAIRU), o que não deve ser revertido no curto prazo”, afirmou Margato, que mante a previsão de uma taxa de desemprego de 5,6% ao final de 2026 e 6,2% ao final de 2027.“A combinação de mercado de trabalho robusto com um amplo conjunto de impulsos de renda e crédito deve sustentar a demanda no curto prazo. Nossa previsão para o crescimento real do PIB em 2026 permanece em 2,0%.”Leonardo Costa, do ASA, também afirmou que o rendimento segue sendo o destaque estrutural da PNAD. “O rendimento real habitual médio atingiu R$ 3.722, novo recorde histórico, com alta de 1,6% no trimestre e de 5,5% no ano, aceleração relevante considerando que o deflator já embute inflação mais elevada do período”, disse, destacando que a massa de rendimento real chegou a R$ 374,8 bilhões, também recorde, com avanço de 7,1% no ano (mais R$ 24,8 bilhões).André Valério, economista sênior do Inter, também citou que a renda real continuou crescendo e renovando o recorde histórico, mas alertou que a PNAD é uma média móvel trimestral e os impactos do conflito no Irã na renda real em particular, e no mercado de trabalho em geral, só irão ficar mais visíveis nas próximas leituras.“Nossa expectativa é de continuidade da tendência de moderação no mercado de trabalho, com o crescimento da renda real perdendo força devido ao choque do petróleo. Esperamos que a taxa de desocupação encerre o ano em 5,6%, acima dos 5,1% observados em 2025”, previu Valério.Na opinião de Claudia Moreno, economista do C6 Bank, opinou que essa forte elevação da renda do trabalhador impõe desafios para a inflação brasileira. Para ela, a inflação de serviços do país, que segue pressionada pelo mercado de trabalho aquecido, é um fator que pode interferir nas próximas decisões do Copom, além dos efeitos da guerra no Oriente Médio.“O que os dados da PNAD sugerem é que estamos em um momento de estabilidade da taxa de desemprego em nível muito baixo para os padrões do país. Mesmo que haja alguma desaceleração na criação de vagas em função da perda de ritmo da economia, o mercado de trabalho deve continuar aquecido neste ano. Nossa projeção é de que a taxa de desemprego termine 2026 pouco acima de 5%”, estimou.Já Rafael Perez, economista da Suno Research, advertiu que a elevação do desemprego no primeiro trimestre reflete, em grande medida, a sazonalidade do mercado de trabalho, decorrente do encerramento de vagas temporárias após o pico de contratações do fim de ano. “Contudo, essa tendência deverá ser revertida nos próximos meses.”Sobre a massa de rendimentos em alta e a renda real habitual na máxima histórica, ele disse que isso é reflexo do ambiente de desemprego baixo, da escassez de mão de obra em alguns segmentos e do impacto do aumento do salário-mínimo.Ele ponderou que esse quadro de avanço dos rendimentos tem mitigado, em parte, os efeitos do elevado endividamento das famílias. “Ao mesmo tempo, impõe um desafio adicional ao Banco Central, ao sustentar a demanda e dificultar a redução das pressões inflacionárias no setor de serviços”, disse.Para Perez, a tendência permanece de um mercado de trabalho ainda resiliente, que deve seguir como um dos principais vetores de sustentação do consumo das famílias e do PIB. “Mesmo diante da desaceleração da atividade econômica, projetamos uma queda gradual da taxa de desemprego nos próximos meses, encerrando o ano abaixo de 6%.”The post PNAD: renda em alta mantém desafios para o BC, dizem economistas appeared first on InfoMoney.
