Juro de longo prazo é insustentável, mas vai cair? Como se posicionar para lucrar

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Mesmo após dois cortes seguidos, a Selic segue nas alturas e ainda oferece um refúgio para o investidor que quer capturar ganhos na segurança da renda fixa. Mas a estratégia de alocação mudou, e uma das oportunidades para lucrar alto está no prêmio oferecido pelos títulos de longo prazo.A ponta longa da curva de juros reflete atualmente o risco das contas públicas, mas a assimetria joga a favor de quem compra agora, avalia João Arthur Almeida, diretor de investimentos da Suno Consultoria: “A gente enxerga a posição de juros longos, principalmente em juro real, como bem atrativa, esse mercado tem uma simetria muito positiva”.Leia também: Hora de comprar Bolsa? Esperar Selic cair para migrar para ações é “erro clássico”Se os juros longos caírem, quem estiver comprado agora pode embolsar lucros gordos, mas é preciso ter estômago para suportar a “volatilidade muito alta, às vezes até maior do que a da Bolsa, dependendo do movimento na curva de juros”, pondera Almeida.Ninguém duvida do potencial, mas a dúvida é: quando exatamente os juros longos vão deslanchar? As variáveis são difíceis de prever e vão de políticas (quem vai ganhar as eleições?) e macroeconômicas (os títulos americanos irão pressionar?) a, principalmente, fiscais (como a dívida pública será contida?).Mayara Rodrigues, analista de renda fixa da XP Investimentos, concorda que a parte longa da curva não está esticada “à toa” e que o mercado vem aplicando a relação de risco e retorno correta para a incerteza atual. No entanto, ela alerta que “esse não pode ser o novo normal porque não cabe no balanço do governo esse custo da dívida tão alto”. Mas onde colocar o dinheiro? A recomendação unânime dos especialistas é adequar o vencimento ao estômago: a alocação na parte longa da curva é válida e carrega o maior potencial de alta, mas deve ser restrita apenas aos investidores de perfil arrojado que suportem o forte vaivém da marcação a mercado.Veja um resumo das recomendações de especialistas ouvidos pelo InfoMoney.Títulos públicosTesouro IPCA+: o queridinhoMesmo com o início do ciclo de cortes, o cenário ainda exige proteção contra a inflação, o que colocou os papéis atrelados a índices de preços no topo das recomendações. Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Investimentos, afirma que “as maiores assimetrias ainda se encontram nas NTN-Bs (Tesouro IPCA+).Para o investidor avesso à volatilidade, focar nos papéis mais curtos faz sentido: “ele vai ficar no máximo na parte intermediária da curva”, orienta Arthur. Mello acrescenta que “as NTNs-B de vencimentos mais curtos também podem funcionar como uma proteção natural, em um eventual cenário de aceleração da inflação”.Roberto Dumas, estrategista-chefe da GCB, pondera que os juros longos podem demorar a cair: “eu ficaria muito mais em IPCA+ do que em CDI”, opina. Ele justifica que “dependendo do próximo governo, a inflação pode desandar e o gasto público aumentar, junto com a emissão de moeda”.Prefixados: cuidado adicionalPor outro lado, a visão para os prefixados é de muita cautela. “Tem um componente muito forte da inflação implícita, que fez com que o prefixado andasse”, explica o diretor da Suno, reforçando a preferência atual pelo juro real.Se a opção for travar a taxa, Mello alerta que “estas alocações devem ser realizadas com um horizonte mais de médio e longo prazo, e não com o acompanhamento diário de performance”.Tesouro Selic: segurança nunca é demaisJá o Tesouro Selic continua sendo indispensável. Com a estimativa de que a taxa básica de juros estacione na casa dos 13%, o CEO da SulAmérica Investimentos entende que “os investidores ainda devem manter uma parcela relevante do portfólio em ativos pós-fixados, com movimentações marginais nesta classe de ativo”.Crédito privadoO mercado de crédito corporativo – que engloba debêntures, CRIs, CRAs – se encontra em alerta sobre a saúde das companhias mais endividadas, após eventos de crédito envolvendo gigantes como Raízen (RAIZ3), GPA (PCAR3) e Ambipar (AMBP3) trazerem mais aversão a risco e impulsionarem os spreads – prêmios que esses papéis pagam na comparação com títulos públicos.Para Rodrigues, da XP, houve um efeito de contaminação: a subida das taxas de alguns ativos problemáticos acabou influenciando papéis em que a qualidade e o fundamento não mudaram. É justamente nesta assimetria — em que o retorno aumentou muito mais do que o risco — que está a janela de oportunidade atual.Leia também: Saiba quais regiões de SP despontam como “locomotivas” da logísticaNicole Vieira, head de crédito privado da Polo Capital, acrescenta que o mercado está lidando com um volume de liquidez muito maior hoje do que tinha nas crises de crédito passadas. Essa abundância de capital atrelada ao pânico de curto prazo gera vendas forçadas. Para ela, a correção recente é “saudável, mas com alguns exageros”.A abertura dos prêmios de risco serviu como uma janela estratégica para a Asset1 reciclar o seu portfólio, trocando ativos que geravam desconforto por opções mais seguras que passaram a oferecer taxas atrativas. “Tínhamos algumas posições que avaliamos que poderiam piorar o risco de crédito, então reduzimos algumas e aproveitamos para comprar em empresas que se mostravam como oportunidades”, relata Daniel Palaia, gestor de crédito privado da Asset1.Os papéis preferidosPara capturar esses prêmios esticados, os especialistas recomendam direcionar o capital para a prateleira das empresas high grade, que têm classificação de risco de alta qualidade. Segundo Palaia, o investidor deve buscar portos seguros e alocar seus recursos no próprio setor bancário, em empresas de energia, saneamento e companhias de rodovias.Mello, da SulAmérica, compartilha dessa preferência por utilities, argumentando que as empresas têm geração de caixa previsível e são menos impactadas pelos ciclos econômicos. Na área da saúde, que passa por turbulências, Palaia abre uma exceção pontual para a Rede D’Or (RDOR3), considerada pela gestora como o único ativo de total segurança do segmento hoje.Investir direto ou via fundos?Quanto aos instrumentos e veículos de investimento ideais para acessar esse mercado, a indicação varia conforme a tolerância à volatilidade. Conservador: a XP Investimentos orienta que o aporte seja feito via fundos de crédito privado com gestão ativa, mitigando o risco de concentração. Moderado ou arrojado: a exposição pode ser direta via debêntures e certificados de recebíveis, buscando isenção fiscal e retornos superiores, mas sempre com apoio profissional para avaliar balanços e limites de diversificação. Como se proteger – e o que evitarMello acrescenta que, para quem precisa de liquidez e segurança no curtíssimo prazo, os títulos bancários tradicionais, como CDBs e Letras Financeiras, continuam sendo os veículos de proteção mais resilientes em tempos de prêmios voláteis.Na outra ponta, a lista do que deve ser evitado a todo custo concentra as empresas fortemente endividadas e que dependem do aquecimento do consumo das famílias.Palaia é enfático ao desaconselhar alocações em empresas cíclicas. O gestor da Asset1 prefere ficar de fora de boa parte do setor de saúde, do segmento logístico, que demanda capital intensivo, e empresas de alimentos: “tendem a sofrer com juros altos, já que são empresas com margens baixas”.The post Juro de longo prazo é insustentável, mas vai cair? Como se posicionar para lucrar appeared first on InfoMoney.

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