A Polícia Federal prendeu, nesta terça-feira, o deputado estadual Thiago Rangel (Avante) na quarta fase da Operação Unha e Carne. A ação buscou desarticular uma organização criminosa investigada por fraudes em procedimentos de compra de materiais e contratação de serviços, incluindo obras de reforma, na Secretaria estadual de Educação. Dados fiscais do parlamentar mostram que ele multiplicou o patrimônio quase 34 vezes desde que entrou para a política.Em 2019, as declarações de Imposto de Renda mostram que Rangel tinha R$ 92 mil em patrimônio. No ano seguinte, ele se lançou candidato à Câmara de Vereadores e já registrou um grande salto patrimonial, fechando o ano com R$ 1,1 milhão em bens. Ele comprou uma casa com 534 m² em um condomínio em Campos por R$ 300 mil e a entrou em uma sociedade de postos de gasolina avaliada em R$ 600 mil.Leia tambémMichelle volta a criticar Ciro e mostra vídeo em que ele chama Bolsonaro de ‘jumento’Atualmente, Ciro Gomes ensaia uma aproximação com o Partido Liberal (PL), sigla de BolsonaroMeio/Ideia: Lula soma 40% no 1º turno; Flávio Bolsonaro tem 36%Levantamento mostra disputa concentrada entre PT e PL e empate técnico no 2º turnoNo primeiro ano como vereador, Thiago Rangel quase dobrou seu patrimônio e fechou 2021 com R$ 2 milhões em bens. O salário anual pago pela Câmara foi de R$ 156 mil brutos. Entre seus novos bens estava um carro de luxo avaliado em R$ 550 mil, dois caminhões tanque e a participação societária em uma nova empresa de agenciamento de mão de obra por R$ 100 mil.Em 2022, Thiago se lançou candidato a deputado estadual e reduziu fechou o ano com uma redução de patrimônio: R$ 1 milhão. Ele não participava mais da sociedade dos postos de gasolina e vendeu os caminhões que estavam no seu nome. Entretanto, criou sua empresa própria de combustível: a TH Participações, avaliada em R$ 100 milEleito a uma cadeira na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), o parlamentar voltou a ascender financeiramente, mais que dobrando o patrimônio ao fim de 2023 e ultrapassando R$ 3,1 milhões em bens. Naquele ano ele recebeu R$ 403 mil da Alerj e declarou que a TH Participações já valia quase R$ 2 milhões.A prisãoNa decisão, Moraes destaca que a operação avançou a partir de dados extraídos de um computador apreendido na Alerj, ligado ao gabinete do ex-presidente da Casa Rodrigo Bacellar (União), atualmente preso. Entre os arquivos, foi identificada uma planilha com a relação de deputados estaduais e indicações para cargos em órgãos estratégicos do governo, com campos como “o que tem” e “o que está pedindo”. No caso de Thiago Rangel, aparece a Superintendência Regional do IPEM em Campos dos Goytacazes — cargo cuja nomeação ocorreu dias após a data do documento, segundo a investigação.A partir desses elementos, foram reunidas informações de diferentes investigações que embasaram os mandados de prisão desta fase. Na Educação, o esquema, segundo a PF, consistiria no direcionamento de obras de reforma em escolas públicas do Norte Fluminense — área de influência política de Bacellar e Rangel — para empresas pré-definidas com integrantes da organização criminosa.Veja quem são os alvos da operação:Thiago Rangel: Apontado como peça central do esquema em sua área de influência, no Norte Fluminense. Segundo a PF, o deputado teria utilizado sua posição política — primeiro como vereador em Campos e, depois, na Alerj — para viabilizar a nomeação de aliados em cargos estratégicos, o que permitiria interferência em contratos públicos e facilitaria fraudes em licitações.Luiz Fernando Passos de Souza: Indicado como operador financeiro de Rangel, atuaria na movimentação de recursos do esquema. De acordo com a investigação, utilizava empresas registradas em nome de terceiros, como a de sua companheira, para receber e repassar valores desviados, incluindo recursos ligados à Educação.Fábio Pourbaix Azevedo: Descrito como “braço direito” de Rangel, seria o principal operador das fraudes em licitações. A PF afirma que ele coordenava, em nome do parlamentar, irregularidades em contratos tanto na Câmara de Vereadores quanto no Executivo de Campos dos Goytacazes.Rui Carvalho Bulhões Júnior: Ex-chefe de gabinete da Presidência da Alerj na gestão de Rodrigo Bacellar, é apontado como responsável por intermediar negociações e realizar entrega de valores em espécie, além de participar de tratativas relacionadas a contratos públicos.Júcia Gomes de Souza Figueiredo: Diretora Regional de Educação Noroeste, é descrita como uma espécie de “longa manus” de Rangel dentro da estrutura da Secretaria de Educação. Segundo a PF, teria papel relevante na viabilização das fraudes e no desvio de recursos.Marcos Aurélio Brandão Alves: Apontado como possível “laranja” no esquema, aparece ligado a movimentações financeiras suspeitas e a empresas que receberam recursos de contratos de obras em escolas. A investigação destaca saques em dinheiro vivo e atuação como procurador de empresas usadas para circular valores.Vinicius de Almeida Rodrigues: Sócio da VAR Construtora, empresa citada em contratos investigados na Secretaria de Educação. Segundo a PF, a companhia aparece em planilhas ligadas ao esquema e realizou transferências para empresas associadas ao operador financeiro, com indícios de participação no fluxo de recursos desviadosOs investigados poderão responder pelos crimes de organização criminosa, peculato, fraude à licitação e lavagem de dinheiro, além de outros delitos que venham a ser descobertos durante as apurações.As empresas envolvidasEntre as empresas envolvidas no esquema, segundo a decisão, duas têm como sócia a mulher de Luiz Fernando Passos de Souza: E H Almeida Reformas e Construções LTDA e E H Almeida de Souza Casas de Festas. De acordo com a investigação, elas eram usadas principalmente para receber recursos de outras empresas, entre elas a T.H. Rio Administração e Participações LTDA, cujo administrador de fato seria o deputado Thiago Rangel. Em cinco operações realizadas entre julho de 2023 e janeiro de 2024, as empresas ligadas a ela receberam da T.H. quase R$ 300 mil. Entre janeiro de 2024 e agosto de 2025, os repasses somaram mais R$ 424,5 mil.Outra empresa sob apuração é a VML Comércio e Serviços Eireli, que recebeu recursos relacionados a intervenções em escolas públicas, como a Estadual Maria da Conceição Pereira. A investigação aponta que a empresa também recebeu repasses diretos de unidades escolares estaduais: apenas em janeiro de 2025, foram identificados créditos que somam R$ 225 mil provenientes dessas instituições.Segundo os investigadores, conversas extraídas do celular de Thiago Rangel e de seu operador financeiro indicam tratativas para manipulação de licitações e articulação direta com empresários envolvidos em contratos de obras. Os diálogos fazem referência à liberação de serviços e à divisão de valores após a assinatura dos contratos, além de menções a saques em dinheiro vivo. Em alguns trechos, há indícios de organização prévia das contratações e de repasses vinculados à execução das obras, o que, para a Polícia Federal, reforça a suspeita de desvio de recursos públicos e uso de um sistema de pagamentos paralelos.As compras e obras investigadas, que já haviam sido alvo de denúncias do deputado estadual Flávio Serafini (PSOL), integrante da Comissão de Educação da Alerj, também são mencionadas na decisão do ministro Alexandre de Moraes.“Até o presente momento, o que fora constatado é que o Deputado Estadual Thiago Rangel passou a administrar uma parte do esquema criminoso, àquela que estava sobre a sua influência política regional (em Campos dos Goytacazes e adjacências). Acredita-se que o esquema criminoso tenha sido partilhado entre políticos estaduais da base de apoio do ex-deputado estadual Rodrigo da Silva Bacellar, da qual o deputado estadual Thiago Rangel Lima passou a fazer parte”, diz o documento.A ação é parte da força-tarefa Missão Redentor II, instituída em cumprimento ao Acórdão da ADPF 635, que visa a assegurar a atuação uniforme e coordenada da Polícia Federal na produção de inteligência e repressão aos principais grupos criminosos no Estado do Rio. O foco é na asfixia financeira e na ruptura de suas conexões com agentes públicos.Outro esquema de fraudesThiago Rangel é aliado de primeira hora do ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar. Rangel já havia sido alvo de outra ofensiva das autoridades, em 2024, por suspeita de envolvimento em um esquema de fraudes em licitações, corrupção e lavagem de dinheiro.Na Operação Postos de Midas, deflagrada em 2024, a Polícia Federal apontou indícios de um crescimento acelerado do patrimônio de Rangel no intervalo de dois anos. Ao concorrer a vereador em Campos dos Goytacazes, em 2020, ele declarou bens de R$ 224 mil. Já em 2022, na eleição para deputado estadual, o valor saltou para mais de R$ 1,9 milhão.A investigação, conduzida em conjunto com a Receita Federal e o Ministério Público Estadual, identificou uma rede de empresas e postos de combustíveis ligados ao parlamentar — ao menos 18 estabelecimentos e 12 empresas. De acordo com os investigadores, o grupo seria abastecido por recursos oriundos de contratos firmados sem licitação ou com dispensa fraudulenta, com indícios de sobrepreço e desvio de dinheiro público, posteriormente lavado por meio dessas atividades.Durante a operação, foram cumpridos mandados de busca e apreensão em 14 endereços, incluindo a Alerj, a Câmara de Vereadores e a Prefeitura de Campos. Foram apreendidos R$ 160 mil em espécie, um veículo blindado, além de celulares, computadores e documentos. O inquérito teve origem na prisão em flagrante de um assessor do deputado, em 2022, apontado como operador do esquema. À época, Rangel negou irregularidades e afirmou confiar no esclarecimento dos fatos pela Justiça.O que dizem os citadosQuestionada, a Secretaria de Estado de Educação disse que está realizando uma revisão administrativa de todos os procedimentos relacionados às obras de manutenção e reparo nas unidades da rede estadual.Entre as medidas que passaram a ser adotadas pela pasta, destacou a o órgão, está a definição de um teto de R$ 130 mil para intervenções classificadas como manutenção e pequenos reparos. A resolução, justifica, é baseada nas diretrizes da Lei de Licitações 14.133. Quaisquer obras que ultrapassem esse limite passam a ser tratadas como intervenções de maior porte, logo, executadas pela Empresa de Obras Públicas (Emop-RJ).“A Secretaria segue colaborando com o Ministério Público, com o Tribunal de Contas do Estado e com os demais órgãos de controle”, afirmou, em nota.Procurada, a defesa de Thiago Rangel disse, em nota, ter recebido com surpresa a notícia da ação da PF e da prisão preventiva do deputado.“Neste momento, está se inteirando dos fatos, do teor da investigação e das medidas eventualmente determinadas, reafirmando desde logo a plena confiança nas instituições e no devido processo legal. O deputado nega a prática de quaisquer ilícitos e prestará todos os esclarecimentos necessários nos autos da investigação, local próprio para a apuração dos fatos”. A defesa ressalta, por fim, que “qualquer conclusão antecipada é indevida antes do conhecimento integral dos elementos que fundamentaram a medida”.A defesa de Rodrigo Bacellar informou que ainda está tomando conhecimento dos fatos. A Alerj, por sua vez, informou que está à disposição das instituições da República no que for necessário para colaborar no esclarecimento dos fatos.“A Assembleia Legislativa reforça seu compromisso com a transparência e confiança no trabalho dos órgãos competentes”, destacou.Em publicação nas redes sociais em fevereiro, acessada pelo GLOBO, Thiago Rangel afirmou ter destinado uma emenda parlamentar de cerca de R$ 950 mil para investimentos em infraestrutura de creches e escolas em São José de Ubá, no Noroeste Fluminense. Segundo ele, os recursos seriam aplicados em obras de manutenção, ampliação e melhorias nas unidades, incluindo intervenções elétricas, hidráulicas e serviços de construção civil.Filha prodígioO parlamentar é pai de Thamires Rangel (PMB), considerada a vereadora mais jovem do país, eleita por Campos dos Goytacazes, quando ainda tinha 18 anos e terminava o 3º ano do Ensino Médio. Ano passado, ela chegou a ser nomeada subsecretária do Ambiente e Sustentabilidade do Rio, mas anunciou a saída nas redes sociais após a exoneração do então secretário Diego Faro, em meio à reforma administrativa conduzida pelo governador em exercício, Ricardo Couto. Thamires também foi a única mulher a conquistar uma das 25 cadeiras do legislativo campista. O apoio à herdeira foi além da participação assídua em comícios e carretas: dos R$ 119 mil recebidos pela candidata em doações de campanha, R$ 41,5 mil foram desembolsados por Thiago. 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