Do dólar à renda fixa: o que muda e o que fazer se a guerra finalmente acabar?

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A guerra entre Estados Unidos e Irã criou uma situação incomum para o investidor brasileiro: quem apostou em petróleo e bolsa americana ganhou, quem ficou na bolsa local e em ações de menor capitalização perdeu. Agora, com a perspectiva de um acordo de paz novamente no horizonte, os vencedores e perdedores dos últimos dois meses podem trocar de lugar?Desde o início da guerra até a última segunda-feira (4), antes de o alívio começar, o petróleo Brent acumulou alta de quase 58%, o Nasdaq subiu mais de 10% e o dólar caiu 3,7%, segundo levantamento da consultoria Elos Ayta para o InfoMoney. Já o Ibovespa, que chegou a ser embalado pela alta do petróleo, corrigiu no meio do caminho e recuou 1,69%. (Fonte: Elos Ayta)Analistas avaliam que parte desse movimento tende a se reverter se EUA e Irã selarem a paz. Para Fernando Siqueira, head de research da Eleven Financial, a queda do petróleo é o impacto mais imediato e já está parcialmente em curso, mas o efeito colateral recai diretamente sobre as ações de petroleiras, especialmente a Petrobras (PETR4), que liderou a bolsa brasileira nos meses anteriores. “As empresas de petróleo estavam liderando nesses últimos meses e provavelmente sofreriam uma correção”, avalia.“O impacto mais direto tende a vir no petróleo, que hoje carrega um componente relevante de risco associado à oferta”, concorda Cleiton Souza, sócio-fundador da Private Investimentos. “Com a redução dessa incerteza, o movimento mais provável é de queda nos preços, ainda que com alguma volatilidade no processo”, avalia, apontando possível fluxo para os emergentes.Leia tambémIbovespa se anima com possível acordo EUA-Irã, mas pode ter “efeitos paradoxais”Benchmark da Bolsa tem ganhos modestos, uma vez que petroleiras, que correspondem a grande parte do índice, registram baixa com petróleo No entanto, os efeitos da guerra não devem desaparecer tão rapidamente, mesmo para o petróleo, observa Dalton Gardimam, economista-chefe da Ágora Investimentos. “O mundo viu que precisa ter estoques maiores e vai procurar aumentá-los ao mesmo tempo em que repõe o que foi usado”, alerta. Na sua avaliação, isso deve manter o preço do barril acima de US$ 80 por um longo período, mesmo com a reabertura do estreito. A mesma lógica, segundo ele, vale para fertilizantes, alumínio e outras matérias-primas que transitam pela região. “Tudo que passa pelo Estreito de Ormuz vai ficar mais caro. É um choque dado, não reversível”, diz.Bolsa: setores domésticos devem ganhar protagonismoA virada no petróleo, se confirmada, redistribui o desempenho dentro da bolsa, e os maiores beneficiados tendem a ser as empresas mais sensíveis aos juros, como varejo, construção civil, além dos fundos imobiliários. Isso porque, com o petróleo em queda, a pressão inflacionária recua, abrindo espaço para uma retomada das expectativas de corte da Selic.Rafael Minotto, analista da Ciano Investimentos, lembra ainda que empresas com alto grau de endividamento receberiam um bote salva-vidas, devido ao impacto benéfico de um eventual fim do conflito sobre a inflação.A Bolsa não pode só confiar no fluxo estrangeiro, que deve continuar diminuindo, pressionado pela melhora das ações de tecnologia americanas, pondera Gardimam, da Ágora. Ainda assim, ele vê valor no mercado brasileiro. “Estamos com uma relação entre o preço das ações e seu lucro projetado em torno de 11 vezes, abaixo da média histórica, de 12 vezes, portanto o mercado não está caro e há boas oportunidades, de empresas com retornos de 8% ao ano, acima do juro real da NTN-B até”, afirma.Leia também“Techs” e uma “intrusa”: 9 BDRs para comprar após mês de alta na bolsa americanaEspecialistas apontam chance de continuidade de recuperação vista em abril, quando o S&P500 subiu mais de 10% diante da trégua – mesmo frágil – entre EUA e IrãDólar é dúvidaNo câmbio, as projeções dos analistas divergem. Gardimam não vê espaço para alta do dólar, mas também não projeta queda expressiva, estimando que o equilíbrio da moeda americana está em torno de R$ 4,70. O juro elevado no Brasil cria pouco incentivo para saída de capital, na sua avaliação. “O brasileiro de alta renda se acostumou a ganhar 14%, 15% ao ano”, diz.Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, é mais conservador e projeta o dólar entre R$ 4,95 e R$ 5,00, apontando que os dois vetores que movem o câmbio neste momento puxam em direções opostas: a redução do risco geopolítico favorece o real, mas a queda do petróleo atenua esse efeito, já que o fluxo de divisas gerado pelas exportações de energia tende a diminuir.Souza, da Private, vê mais enfraquecimento do dólar pela redução da busca de proteção geopolítica com o eventual fim do conflito, mas reconhece que o cenário doméstico continua sendo um fator determinante na magnitude do ajuste.Diante do impasse, vale a máxima dos alocadores: o investidor não deve esperar uma janela única, então o ideal é fazer aportes no exterior conforme o perfil de risco, de maneira gradual e programada.Renda fixaNa renda fixa, os ganhos dependem da queda dos juros e da inflação, que dependem do petróleo, mas não apenas dele. Apesar disso, a expectativa é que a Selic continue caindo“A gordura [na Selic] é grande, então os cortes devem continuar, até porque parar é politicamente complicado”, diz Gardimam, estimando que a taxa básicac pode recuar para 13,5% ainda neste ano.Sung acredita que o alívio nos juros futuros deve ser gradual, com os contratos mais longos fechando ligeiramente à medida que o cenário geopolítico se estabiliza, sem movimento brusco. Ou seja: o investidor alocado em Tesouro IPCA+ precisa manter a paciência. Nesta quarta, a notícia sobre um possível acordo fez as taxas cederem, mas a queda desacelerou ao longo do dia.Armadilha do investidor apressadoDiante de tantos movimentos simultâneos, os analistas aconselham: o investidor precisa resistir à tentação de reposicionar a carteira de forma abrupta. “Boa parte desse ajuste costuma acontecer de forma rápida. O erro mais comum é tentar entrar depois da confirmação, quando o mercado já reprecificou parte relevante dos ativos”, diz Souza. Na sua visão, as oportunidades são mais claras em termos de rebalanceamento e ajuste de exposição do que em apostas direcionais de curto prazo.Siqueira indica manter uma estratégia consistente entre renda fixa, renda variável e investimentos no exterior, fazendo apenas ajustes pontuais conforme o cenário. O risco de agir tarde, diz, é justamente comprar caro quando a notícia já foi precificada pelo mercado.Enquanto isso, o momento ainda é de aguardar pelo desfecho. “A gente precisa realmente ver uma coisa concreta para o fim do conflito”, diz Sung. Para ele, só a partir de uma confirmação efetiva será possível traçar com mais segurança a trajetória dos ativos.The post Do dólar à renda fixa: o que muda e o que fazer se a guerra finalmente acabar? appeared first on InfoMoney.

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