Trump prometeu transparência na Venezuela, mas acordos secretos de petróleo continuam

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Autoridades dos Estados Unidos e da Venezuela prometeram uma nova era de prestação de contas para a lucrativa indústria petrolífera venezuelana após a queda do presidente Nicolás Maduro.O presidente Donald Trump disse que os Estados Unidos controlariam as vendas de petróleo venezuelano. A Venezuela enviaria orçamentos mensais à Casa Branca, afirmou o governo Trump, e os Estados Unidos disseram ter contratado auditores para conferir os comprovantes.Leia também: Maduro se foi da Venezuela – mas os muitos problemas do país continuamA nova líder da Venezuela e aliada de Trump, Delcy Rodríguez, disse que o público poderia rastrear cada dólar do petróleo em um novo site.Nenhuma dessas iniciativas, no entanto, até agora lançou luz sobre para onde tem ido o dinheiro do petróleo venezuelano, levantando dúvidas sobre a vontade política em Washington e Caracas.Ainda assim, mesmo com as melhores intenções, o plano de Washington de mostrar como e onde as riquezas do petróleo da Venezuela estão sendo gastas seria uma tarefa gigantesca. Décadas de saque deixaram a Venezuela com uma indústria petrolífera opaca e profundamente corrupta, problema que Rodríguez em grande parte não conseguiu resolver em seu papel anterior à frente da economia nacional.Para cada US$ 2 que a Venezuela obteve com a venda de petróleo no início desta década, US$ 1 foi desviado, mostram documentos internos e estatísticas oficiais.As apostas são ainda mais altas hoje. Para Trump, seu plano de destravar o enorme potencial petrolífero da Venezuela com US$ 100 bilhões em investimentos americanos depende, em parte, de convencer executivos do setor nos Estados Unidos de que seu governo pode estabelecer o Estado de Direito.Para Rodríguez, garantir aos venezuelanos que a indústria do petróleo, parte central da identidade nacional do país, beneficia muitos — e não apenas poucos — é essencial para melhorar suas reduzidas chances de vencer uma eleição presidencial competitiva que os Estados Unidos pressionam para que ocorra no próximo ano.Não está claro quanta corrupção Rodríguez toleraria para manter o controle do governo, que continua repleto de funcionários ligados a Maduro e seus patrocinadores empresariais.Durante os 13 anos de governo de Maduro, a onipresente estatal petrolífera venezuelana, conhecida como PDVSA, tornou-se praticamente um patrimônio pessoal de sua família, permitindo que parentes e aliados vendessem petróleo em condições altamente preferenciais. Esse sistema de favorecimento lubrificou as engrenagens do aparato governante, garantindo sua lealdade a Maduro, que sobreviveu a múltiplas crises antes de ser capturado em janeiro por forças especiais dos Estados Unidos.Os esquemas opacos de comercialização de petróleo continuaram até a queda de Maduro, e alguns beneficiários seguiram discretamente fazendo negócios com a PDVSA sob Rodríguez, de acordo com documentos internos e entrevistas com autoridades do setor petrolífero venezuelano e pessoas próximas à indústria.Essas negociações questionáveis testam sua promessa de romper de vez com as políticas econômicas de Maduro, às quais ela atribui a prolongada crise financeira da Venezuela.Esses documentos, até então não divulgados, oferecem um raro vislumbre da dimensão da corrupção nos últimos anos de Maduro, marcados por um impasse econômico com os Estados Unidos e pela crescente repressão interna.Os documentos e as entrevistas também mostram o papel central desempenhado por um parente de Maduro, Carlos Malpica Flores, descrito por várias autoridades do setor petrolífero e pessoas de dentro da indústria como o guardião da riqueza da família Maduro. As pessoas entrevistadas para esta reportagem falaram sob condição de anonimato para evitar represálias.O governo Trump impôs sanções a Malpica, 53, em dezembro, alegando que ele havia “facilitado a continuidade da corrupção do regime de Maduro”. Malpica não respondeu às perguntas enviadas por meio de um parceiro de negócios e dois parentes.Documentos da PDVSA mostram que empresas de fachada controladas por Malpica e outros empresários próximos a Maduro exportaram petróleo no valor de US$ 11 bilhões em 2021 e 2022 sem pagar nada à estatal. Esse montante representou metade de todas as receitas petrolíferas da Venezuela nesses dois anos, segundo estatísticas do banco central do país.As vendas de petróleo fora dos registros oficiais parecem ter violado a legislação venezuelana da época, que atribuía à PDVSA a guarda exclusiva da riqueza petrolífera do país.Desde a remoção de Maduro e a imposição do controle americano sobre as exportações de petróleo da Venezuela em janeiro, Malpica parece ter perdido acesso às vendas de petróleo bruto, segundo pessoas próximas à indústria.Mas essas pessoas, assim como uma alta autoridade do setor petrolífero venezuelano, afirmam que Malpica continua lucrando com suas empresas que operam campos de petróleo, prestam serviços à PDVSA e distribuem produtos petrolíferos no mercado interno.O governo da Venezuela não respondeu aos pedidos de comentário. O governo Trump se recusou a comentar publicamente para esta reportagem.Um funcionário do governo disse que o governo venezuelano vinha apresentando garantias de que os recursos estavam sendo gastos corretamente.Um alto funcionário do Departamento de Estado, Michael Kozak, disse ao Congresso no mês passado que o governo dos Estados Unidos contratou a KPMG, uma empresa global de serviços financeiros, para auditar as vendas de petróleo da Venezuela, acrescentando que a empresa fornecerá relatórios em uma data posterior ainda não especificada. O banco central da Venezuela disse na semana passada que, separadamente, contratou outra empresa de auditoria, sem fornecer mais detalhes.A história de Malpica simboliza a transformação da economia venezuelana em um feudo pessoal da família Maduro, um sistema que ainda permanece em parte, apesar da mudança de liderança.A carreira de Malpica decolou rapidamente. Meses após assumir o poder, Maduro o nomeou para o conselho do banco de desenvolvimento da Venezuela, conhecido como Bandes. Pouco depois, ele se tornou tesoureiro nacional e chefe financeiro da PDVSA.Esses cargos deram a Malpica acesso irrestrito à riqueza petrolífera da Venezuela, que ele continuou a explorar após deixar o setor público em 2016 e se tornar subcontratado da PDVSA e comprador de petróleo.No fim de 2022, o conselho da PDVSA se reuniu para avaliar anos de contas de petróleo não pagas deixadas por Malpica e outros aliados de Maduro, segundo a apresentação da reunião consultada pelo Times. O conselho contabilizou quase 240 petroleiros que saíram sem pagamento entre 2019 e 2022, causando um prejuízo de US$ 13 bilhões ao Estado venezuelano.O conselho votou, na prática, por dar baixa nesse valor, mostra a apresentação.Meses depois, Rodríguez assumiu o comando da PDVSA após articular a queda de seu antecessor, Tareck El Aissami, um protegido de Maduro que responde a processo por corrupção. Sob sua gestão, as irregularidades mais flagrantes da PDVSA, como vendas de petróleo sem pagamento, praticamente cessaram.Mas Malpica e outros empresários próximos a Maduro continuaram recebendo acesso preferencial ao petróleo, evidenciando os limites de suas iniciativas.Em 2023, por exemplo, uma empresa de fachada ligada a Malpica tornou-se a segunda maior exportadora de petróleo bruto da Venezuela, ficando atrás apenas da Chevron, multinacional que produz petróleo no país há um século, mostram os documentos.Cópias de alguns contratos mostram que a empresa de fachada, Hangzhou Energy, registrada na China, recebeu petróleo da PDVSA em condições altamente favoráveis e incomuns, apesar de não ter histórico de atividade empresarial. Um contrato de 2022 mostra que a Hangzhou foi autorizada a vender cerca de um décimo dos volumes de exportação do país naquele ano em troca de fornecer ao governo uma quantidade não especificada de “ajuda humanitária”.Não está claro quanto de ajuda a Hangzhou efetivamente entregou nem o que ela incluía. Criados supostamente em resposta às sanções americanas, acordos de petróleo por alimentos semelhantes ao obtido pela Hangzhou tornaram-se uma grande fonte de corrupção nos últimos anos de Maduro, drenando bilhões de dólares do Estado em um momento de crise humanitária, segundo o governo dos Estados Unidos e investigações do site venezuelano Armando.Info.Um e-mail enviado ao gerente de operações da Hangzhou, Zhang Junling, não obteve resposta.A estreita relação de Malpica com Maduro e sua esposa ajudou-o a sobreviver às frequentes “limpezas” na PDVSA, que levaram quatro de seus presidentes recentes e dezenas de executivos à prisão, incluindo a maioria dos que assinaram contratos com a Hangzhou.Malpica também conseguiu, ao longo dos anos, estabelecer uma relação de proximidade com Rodríguez, segundo várias pessoas que conhecem bem ambos. Essa conexão parece tê-lo poupado até agora da “faxina” promovida pela nova presidente, que resultou na demissão ou no isolamento de dezenas de parentes de Maduro.Vários empresários do setor de petróleo próximos a Maduro foram detidos desde sua captura, mas até agora nenhum foi formalmente acusado publicamente de crimes financeiros.O site de prestação de contas da indústria petrolífera, chamado Transparent Sovereignty, prometido por Rodríguez em janeiro, hoje exibe apenas um registro.O site informa que o governo vendeu US$ 300 milhões em óleo combustível em março, valor que foi usado para aumentar o salário mínimo.O site não informa quem comprou o petróleo nem por quanto.c.2026 The New York Times CompanyThe post Trump prometeu transparência na Venezuela, mas acordos secretos de petróleo continuam appeared first on InfoMoney.

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