Mapa de Risco: Crise Brasil-EUA foi superdimensionada pelo debate político?

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A sequência de embates entre Brasil e Estados Unidos nos últimos meses ajudou a consolidar no debate político brasileiro a percepção de que os dois países caminhavam para uma crise diplomática sem precedentes. Mas, para o cientista político Guilherme Casarões, professor da Florida International University, boa parte dessa leitura foi amplificada pela polarização política e pela disputa eleitoral brasileira.Durante participação no programa Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, desta sexta-feira (8), Casarões afirmou que os atritos entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump jamais chegaram perto de produzir uma ruptura concreta nas relações bilaterais. “A temperatura não estava tão quente assim”, resumiu o professor ao analisar os episódios recentes envolvendo tarifas, restrições diplomáticas, sanções e trocas de críticas públicas entre os dois governos.O auge da tensãoSegundo ele, o momento mais delicado ocorreu após a carta divulgada por Trump em julho do ano passado, quando o presidente americano anunciou tarifas de 50% contra produtos brasileiros e passou a associar a medida ao que chamou de perseguição contra Jair Bolsonaro e censura praticada pelo STF. Na avaliação do cientista político, aquele episódio realmente marcou o ponto mais baixo da relação bilateral em décadas.“Foi o momento mais baixo de 200 anos de história bilateral entre o Brasil e os Estados Unidos”, afirmou.Leia tambémLula diz que Trump não deve interferir na eleição brasileira de 2026Após reunião na Casa Branca, presidente afirma confiar que disputa será decidida “pelo povo brasileiro”Casarões lembrou que, além das tarifas, os EUA abriram investigações comerciais contra o Brasil, restringiram vistos de autoridades brasileiras e aplicaram sanções contra Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky.Ainda assim, o professor argumenta que o próprio excesso de medidas acabou limitando a capacidade americana de continuar escalando o conflito.“O que me surpreendeu foi que, ao gastar todas as munições ao mesmo tempo, os Estados Unidos ficaram sem opções depois”, disse.A crise que virou narrativaA partir dali, segundo ele, iniciou-se um movimento gradual de descompressão da crise. Primeiro vieram negociações reservadas entre diplomatas. Depois, a retirada parcial das tarifas. Em seguida, o recuo em outras medidas adotadas anteriormente pela Casa Branca. “Ficou claro que o esgotamento das possibilidades da caixinha de ferramentas do governo americano teria que levar a uma situação um pouco melhor”, afirmou.Casarões também criticou o tom alarmista que passou a dominar parte da cobertura política brasileira sempre que surgiam novos atritos diplomáticos. Ele citou como exemplo o episódio envolvendo a prisão de Alexandre Ramagem pelo ICE e a posterior troca de medidas entre autoridades brasileiras e americanas ligadas a vistos e credenciais diplomáticas.“Todo mundo falou: ‘vai ser a Terceira Guerra Mundial, é o fim do mundo, o Brasil vai acabar’. E nada aconteceu”, disse.Na visão do professor, parte dessa interpretação distorcida nasce da tendência brasileira de analisar a relação com os Estados Unidos como se os dois países ocupassem o mesmo peso estratégico no tabuleiro internacional.“A gente muitas vezes pensa na relação entre Brasil e Estados Unidos como se ela fosse simétrica”, afirmou.Brasil não era prioridade para TrumpCasarões ressaltou que, apesar da importância regional do Brasil, Washington tem outras prioridades muito mais urgentes neste momento, como inflação, tensões internas no trumpismo e a guerra envolvendo o Irã. “Para os Estados Unidos, o Brasil é uma nota de rodapé”, afirmou.Segundo ele, isso ajuda a explicar por que críticas públicas de Lula contra Trump frequentemente não produziram respostas proporcionais da Casa Branca, apesar da expectativa criada por setores políticos e parte do mercado.“Toda vez que o Lula falava do Trump, as pessoas comentavam: ‘agora o Trump vai reagir ao Lula, agora o mundo vai acabar’. Nada aconteceu”, disse.Na avaliação do cientista político, o encontro realizado nesta semana entre Lula e Trump acabou funcionando como a consolidação desse processo de normalização das relações entre os dois governos.Relação voltou ao pragmatismo“Não tem nada fora do esquadro, nada que a gente possa ler como o prenúncio de uma ruptura diplomática”, afirmou.Casarões pondera, no entanto, que a imprevisibilidade de Trump continua sendo um fator de instabilidade permanente. “Em se tratando de Trump, a gente nunca sabe qual é o próximo passo”, disse.Ainda assim, ele avalia que o momento atual é de relativa estabilidade entre Brasília e Washington, sobretudo porque há interesse mútuo em preservar a relação.“O governo brasileiro deixou muito claro que está aberto à conversa e interessado em manter uma relação positiva com os Estados Unidos”, afirmou.“E tenho certeza absoluta de que neste momento interessa também ao governo americano manter boas relações com o Brasil”, concluiu.O Mapa de Risco, programa de política do InfoMoney, vai ao ar todas as sextas-feiras, a partir das 5h da manhã, no YouTube e no seu tocador de podcast preferido.The post Mapa de Risco: Crise Brasil-EUA foi superdimensionada pelo debate político? appeared first on InfoMoney.

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