Vale a pena levar o seu negócio para o Paraguai? Veja prós e contras da mudança

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A pressão por competitividade e os altos custos tem levado um número crescente de empresas brasileiras a redesenhar suas operações e atravessar a fronteira rumo ao Paraguai. No centro desse movimento está a Lei de Maquila, regime fiscal estratégico do nosso ‘vizinho’ que permite a produção por lá com tributação reduzida de 1% sobre o valor agregado (IVA), desde que o foco seja em exportação.O movimento ganhou força nos últimos anos, impulsionado pelo chamado “Custo Brasil” e por mudanças recentes na legislação paraguaia. Mais de 200 indústrias brasileiras já passaram a operar no país, atraídas por benefícios fiscais e custos operacionais mais baixos. Ainda assim, especialistas alertam que a decisão está longe de ser simples.“Não é só imposto. Quando a gente olha só imposto, a gente erra na conta. A mudança, quando bem feita, representa um ganho estrutural”, afirma Suelen Raizer, fundadora da consultoria tributária Frontexa. Segundo Raizer, o Paraguai combina fatores como energia mais barata, menor custo trabalhista e logística mais eficiente para atender o Sul e o Sudeste do Brasil. “A gente consegue reduzir até 60% de custos em alguns casos, mas a média fica entre 28% e 35%.”Para quais negócios o Paraguai faz sentido?Priscila Campos, fundadora e CEO da consultoria Grupo International, pondera que há uma leitura simplificada do modelo. “O Paraguai não é offshore. Os benefícios existem, mas são condicionados a regras claras e a uma operação real no país”A mudança para o Paraguai tende a funcionar melhor para empresas industriais, especialmente aquelas com produção padronizada e forte pressão por preço. Setores como têxtil, autopeças e bens de consumo concentram boa parte das operações maquiladoras, refletindo a busca por competitividade frente a produtos importados, sobretudo asiáticos.“A operação no Paraguai costuma absorver o trabalho fabril – corte, costura, montagem. Já o Brasil fica com as funções estratégicas, como marca, design e comercial”, diz Suelen.Um dos conceitos centrais desse modelo é o de transformação produtiva. Para acessar os benefícios da Maquila, não basta transferir a empresa para o Paraguai ou apenas importar e revender produtos. É necessário que o bem passe por algum processo industrial no país, gerando valor local. Na prática, isso significa ter que realizar etapas como corte, montagem, costura, acabamento ou industrialização em solo paraguaio. O produto precisa sair diferente do que entrou. Operações apenas comerciais ou logísticas não são suficientes para enquadramento no regime – e sem se enquadrar na Maquila, o negócio é submetido à taxação normal do país, de 10% sobre o Lucro e IVA de 10%. Campos concorda que o modelo de negócio de indústria é o principal beneficiado pela Maquila. “Para serviço, geralmente a mudança não faz sentido, porque você não consegue gerar o volume de custo necessário para acessar os benefícios tributários paraguaios”.Isso porque, para que o projeto seja viável dentro do regime paraguaio, é necessário deslocar uma parte relevante dos custos ao país. “Para ter benefícios fiscais, você precisa ter custo lá: cerca de 40% da estrutura do negócio, isto é, do seu custo total, precisa estar no Paraguai. Podem entrar nessa conta o custo da folha de pagamento, aluguel, operação fabril, serviços contratados no país”, afirma Campos.Os desafios da mudança“A Lei de Maquila não é simples. Você precisa de um plano de negócios, passar por aprovação do governo, e isso tem custo”, afirma Campos. O processo pode levar cerca de 90 dias até a empresa estar apta a operar – o que significa três meses sem operação.Há também exigências práticas que impactam o dia a dia da empresa, especialmente na relação com o sistema financeiro local. “O relacionamento bancário no Paraguai ainda é muito presencial. Você precisa estar lá para resolver as coisas”, diz Campos. Por isso, a escolha do representante local faz diferença no processo. “Quando você tem um paraguaio domiciliado como representante, você consegue acessar mais rápido crédito e produtos financeiros.”Além disso, existe uma limitação em relação à mão de obra qualificada – voltada à tecnologia da informação, por exemplo – que é bem mais escassa, o que também prejudica o setor de serviços ou indústrias mais tecnológicas.Outro ponto a se considerar é a economia dolarizada do Paraguai. “Como a moeda paraguaia, o Guarani, não é forte, a compra de maquinário e estrutura é feita em dólar. Isso precisa ser considerado quando você está saindo do Brasil, com o seu caixa inteiro em reais”, pontua.Também é importante considerar que os produtos fabricados no Paraguai entram no Brasil como importação, o que exige planejamento tributário e logístico.Leia mais: Política fiscal do Brasil vira trunfo para o Paraguai, na visão do próprio ParaguaiExemplo bem sucedido: transferência de parte do negócio para o ParaguaiUma indústria brasileira de confecção, com mais de 15 anos de atuação, decidiu redesenhar sua operação após perder espaço para produtos asiáticos mais baratos – 40% mais baratos em algumas linhas. A Frontexa, que desenhou e implementou a transferência do negócio para o Paraguai, anonimizou os dados da empresa, para preservá-la.Antes da mudança, com toda a operação e 150 funcionários no Brasil, a empresa produzia 1,05 milhão de peças e faturava cerca de R$ 42 milhões por ano. Por aqui a empresa operada sob o regime de lucro real – que impõe Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) de 15% sobre o lucro, mais um excedente de 5% quando o lucro ultrapassa R$ 20 mil no mês, e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) de 9%, além do ICMS. “Nos últimos anos, sua rentabilidade vinha sendo pressionada por diversos fatores, como custos trabalhistas mais elevados, encargos sobre a folha, altos preços de energia elétrica e a complexidade tributária. Isso sem falar, claro, na concorrência direta com importados asiáticos, que vinham tomando cada vez mais de seu espaço de mercado no país, devido a principalmente seus custos mais competitivos”, conta Suelen Raizer.No Brasil, foi realizado um estudo de eficiência tributária para identificar oportunidades legais de redução de carga fiscal dentro da própria operação nacional. A análise envolveu a revisão da estrutura operacional, análise tributária da operação brasileira, identificação de ineficiências fiscais, reorganização estratégica das atividades mantidas no Brasil e mapeamento de oportunidades de recuperação tributária. “O estudo resultou em uma redução aproximada de 10% da carga tributária da operação brasileira, além da identificação de créditos tributários relevantes decorrentes de tributos recolhidos a maior, possibilitando compensações futuras dentro dos limites legais”, explicou Raizer.Após a reorganização da estrutura da companhia, o Brasil passou a concentrar atividades estratégicas e de gestão, enquanto a produção de maior escala foi transferida para o Paraguai – corte, costura, acabamento e embalagem, caracterizando a transformação produtiva exigida pela legislação, sob o Regime de Maquila. A empresa também internalizou a produção, passando a operar com 95 funcionários no Brasil e 85 no Paraguai.O custo médio por peça caiu de R$ 38,60 para R$ 29,85 – uma redução de cerca de 22,7%. A produção anual subiu para 1,2 milhão de unidades e o faturamento avançou para R$ 49 milhões. Lei de MaquilaA Lei de Maquila, criada em 1997 e regulamentada em 2000, estabelece um regime de incentivo à produção voltada à exportação no Paraguai.O modelo permite importar máquinas, insumos e matéria-prima com isenção de impostos, desde que esses itens sejam utilizados em processos produtivos no país e o produto final seja exportado. Em troca, a empresa paga um tributo único de 1% sobre o valor agregado da operação.Para aderir ao regime, é necessário apresentar um ‘programa de maquila’ ao governo, com detalhamento da operação, estrutura de custos e projeções. A aprovação é obrigatória.A legislação também exige presença real no país e a chamada transformação produtiva, ou seja, a realização de etapas industriais que gerem valor local. Na prática, isso significa que a operação precisa ter substância econômica no Paraguai, com estrutura, equipe e custos alocados no país.Leia mais: Aliado de Trump, como o Paraguai decolou na economia e virou ímã para investidoresEmbora não esteja explicitamente previsto na lei, especialistas apontam que projetos costumam exigir que uma parcela relevante da estrutura de custos – muitas vezes em torno de 40% – esteja no Paraguai, como forma de demonstrar operação real e viabilizar a aprovação.O regime passou por atualização recente, com ampliação para incluir atividades de serviços e tecnologia, além de novos incentivos fiscais voltados à atração de investimentos.Em paralelo, o Paraguai tem avançado também na agenda migratória para investidores. O país lançou o chamado Paraguay Investor Pass, que permite acesso direto à residência permanente para estrangeiros que realizem aportes a partir de US$ 150 mil em projetos produtivos ou turísticos, ou US$ 200 mil em imóveis e mercado financeiro.A medida elimina a etapa anterior de residência temporária e busca acelerar a entrada de empresários no país, reduzindo barreiras jurídicas e burocráticas.“O Paraguai está removendo uma trava importante para quem quer investir com mais previsibilidade. Quando a residência permanente sai logo no começo, o empresário ganha mais segurança jurídica para decidir sobre operação, patrimônio e até planejamento fiscal”, afirma Raizer.Segundo a especialista, a mudança pode antecipar decisões de investimento. “Para muitos empresários, o atrativo não é só migratório. É a combinação entre ambiente mais competitivo para negócios e um processo mais direto para se estabelecer no país.”Dados oficiais citados pela Frontexa indicam que o Paraguai concedeu cerca de 47 mil residências em 2025, sendo aproximadamente 30 mil para brasileiros. A expectativa é de até 100 mil novas concessões em 2026, com cerca de 70 mil ligadas a brasileiros.A tendência de brasileiros no ParaguaiExiste hoje um movimento mais amplo de brasileiros em direção ao Paraguai. No campo empresarial, grandes companhias como a Lupo e a Riachuelo já estruturaram ou ampliaram operações no país, aproveitando o regime para produção voltada à exportação.No campo das pessoas físicas, o país também abriga uma das maiores comunidades brasileiras no exterior. Estimativas indicam que entre 300 mil e 350 mil brasileiros vivem atualmente no Paraguai, com crescimento recente impulsionado não apenas pelo agronegócio, mas também por empreendedores e profissionais urbanos. Segundo a BBC, 2025 foi um ano recorde de pedidos de residência de brasileiros no Paraguai, com 23.526 solicitações, uma alta de quase 38% em relação a 2024, de acordo com dados da Direção Nacional de Migrações Paraguaia. Em 2022 o número de pedidos foi de 12.409.The post Vale a pena levar o seu negócio para o Paraguai? Veja prós e contras da mudança appeared first on InfoMoney.

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