O que o Brasil pode aprender com a escala 4×3 em Portugal

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O debate sobre jornada de trabalho voltou ao centro das discussões no Brasil em meio às pressões por mudanças na escala 6×1 e ao avanço de modelos mais flexíveis em diferentes países. Entre os experimentos que mais chamam atenção está o de Portugal, onde empresas passaram a testar semanas de quatro dias de trabalho sem redução salarial.A experiência portuguesa ganhou relevância porque ocorre em um país de cultura relativamente próxima da brasileira, distante da realidade frequentemente associada aos países nórdicos. E os resultados iniciais vêm alimentando uma pergunta cada vez mais presente no mundo corporativo: é possível trabalhar menos horas sem derrubar produtividade?Os primeiros números do projeto sugerem que, ao menos para parte das empresas, a resposta pode ser positiva.O laboratório portuguêsO economista português Pedro Gomes, professor da Universidade de Londres, analisou a adoção voluntária da escala 4×3 em 41 empresas portuguesas, que somam mais de mil trabalhadores de diferentes setores e portes.Segundo o levantamento, 52% das empresas afirmaram que pretendem manter integralmente a jornada reduzida, enquanto 23% disseram que continuarão com modelos parcialmente reduzidos. Apenas 19% planejam retornar integralmente à escala tradicional de cinco dias por semana.Os indicadores econômicos também chamaram atenção. Mais de 90% das empresas afirmaram não ter registrado aumento de custos financeiros após a mudança. Além disso, 86% relataram crescimento de receitas em relação ao ano anterior, enquanto apenas 14% registraram queda.O estudo mostra ainda que cerca de 70% das empresas afirmaram ter melhorado processos internos após a adoção da jornada reduzida. Entre as mudanças mais frequentes apareceu a redução do tempo gasto em reuniões.Leia também:Por que salário alto já não basta para manter os melhores talentosO trabalhador cansado da era digitalA discussão ocorre em um momento de desgaste crescente nas relações de trabalho.Uma pesquisa da Resume Now, divulgada pela Fortune, mostrou que 58% dos trabalhadores afirmam que o maior arrependimento da carreira foi permanecer tempo demais em empregos ruins, enquanto apenas 38% dizem se arrepender de ter pedido demissão.O dado ajuda a explicar por que discussões sobre jornada passaram a extrapolar sindicatos e legislação trabalhista. Hoje, elas envolvem saúde mental, retenção de talentos e produtividade sustentável.Leia também:CEOs estão ficando mais velhos — e isso diz muito sobre o novo mundo corporativoO trabalho deixou de ser só salárioA pressão também aparece em pesquisas recentes sobre prioridades profissionais.Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que 20,42% dos trabalhadores apontam crescimento e plano de carreira como principal critério para definir o “emprego ideal”, acima até de salário e benefícios, mencionados por 13,60%. O levantamento também indica que a falta de crescimento profissional lidera os pedidos de demissão, citada por 14,66% dos entrevistados.Já um estudo da Deloitte mostrou que cerca de 90% dos profissionais das gerações millennial e Z consideram propósito, bem-estar e alinhamento cultural fatores decisivos na relação com o trabalho. Outros 52% afirmam viver sob pressão constante relacionada ao custo de vida.Na prática, a relação com o emprego ficou mais complexa. O trabalhador já não avalia apenas remuneração, mas também tempo, equilíbrio, autonomia e qualidade de vida.Leia também:Empresas ainda promovem profissionais errados para liderar, indica estudo globalProdutividade em vez de presençaPedro Gomes argumenta que a redução da jornada força empresas a rever processos improdutivos e pode elevar a produtividade por hora trabalhada. Segundo ele, historicamente, reduções de jornada costumam ser acompanhadas por reorganização operacional e ganhos de eficiência.O pesquisador analisou ainda 250 casos de redução de jornada implementados por legislação ao redor do mundo desde 1910. Conforme o levantamento, a média de crescimento do PIB dos países avaliados passou de 3,2% nos cinco anos anteriores às reformas para 3,9% após as reduções de jornada.Leia também:Executivas abandonam gigantes e impulsionam ascensão das empresas médiasFlexibilidade virou ativo competitivoA valorização do tempo e da autonomia também aparece em outros levantamentos recentes.O estudo State of Data 2026, realizado em parceria com a Bain & Company, mostrou que 71,6% dos profissionais da área de dados buscariam outro emprego caso houvesse retorno obrigatório ao modelo 100% presencial. O mesmo levantamento aponta que, embora remuneração continue sendo prioridade para 83,4% dos entrevistados, a flexibilidade já aparece logo atrás, mencionada por 56,6%.Os números ajudam a explicar por que empresas passaram a tratar modelos híbridos e jornadas alternativas menos como concessão e mais como ferramenta de retenção.Leia também:Liderar à distância: o novo desafio dos gestores na era do trabalho híbridoO desafio brasileiroNo Brasil, porém, o cenário é mais complexo. A economia brasileira possui elevada informalidade, forte presença de setores operacionais e grandes diferenças de produtividade entre empresas. Em áreas como varejo, logística, indústria e serviços presenciais, implementar modelos reduzidos exige reorganização profunda.Ainda assim, Pedro Gomes defende que o país tem condições de reduzir a jornada semanal e abandonar a escala 6×1. Segundo o economista, jornadas menores tendem a reduzir faltas, diminuir rotatividade e ampliar a capacidade de conciliação entre trabalho e vida pessoal — especialmente entre mulheres.Leia também:O novo trabalhador brasileiro: mais qualificado, mais diverso — e mais pressionadoO que está realmente em discussãoNo fundo, a experiência portuguesa revela algo maior: o modelo tradicional de trabalho está sendo reavaliado no mundo inteiro.A era do cartão-ponto industrial começa a enfrentar as exigências de uma economia baseada em criatividade, conhecimento e trabalho digital.E, nesse novo cenário, a pergunta central talvez já não seja quantas horas alguém trabalha. Mas quanto daquele tempo realmente produz valor.Leia também:Profissionais de atacado e varejo têm maiores riscos de burnout, aponta estudoThe post O que o Brasil pode aprender com a escala 4×3 em Portugal appeared first on InfoMoney.

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