Cerca de 25% do dinheiro estrangeiro que havia entrado na Bolsa brasileira desde o início do ano já foi embora em menos de um mês. Entre 15 de abril e 12 de maio, mais de R$ 17 bilhões deixaram o mercado acionário local, em um movimento quase ininterrupto: foram 16 dias de saídas em 18 pregões. Os números, compilados pelo JPMorgan em relatório de 15 de maio, ajudam a dimensionar a mudança súbita de humor em relação ao Brasil. Depois de um início de ano marcado por forte entrada de capital – R$ 70 bilhões até meados de abril – , a tese pró-Brasil perdeu fôlego na esteira de fatores globais, reprecificação de juros e um novo componente de risco político doméstico. “Mesmo com o EWZ [ETF, ou fundo do índice, que replica a Bolsa brasileira em Nova York] acumulando queda de 4,1% desde o início da guerra, os eventos políticos dos últimos dias não configuram uma oportunidade de entrada”, escrevam Emy Shayo Cherman e Cinthya Mizuguchi, estrategistas do banco. Para o JPMorgan, os investidores precisariam da abertura do Estreito de Ormuz, da queda dos preços do petróleo e de uma redução na oferta de títulos do Tesouro para voltarem a comprar.Segundo o JPMorgan, as razões por trás da correção recente são “mais externas do que internas” — mas a política pode ditar o ritmo daqui para frente. O banco analisou os últimos dez anos e mapeou períodos em que os estrangeiros retiraram mais de R$ 10 bilhões da Bolsa em janelas móveis de 15 dias. Foram 12 grandes saídas, duas delas ligadas ao início da pandemia de Covid-19 — estas, as mais profundas e prolongadas. Nos demais casos, os episódios de retirada intensa foram relativamente curtos e, em muitos casos, seguidos de estabilização ou reversão do fluxo. Por esse prisma, o movimento atual poderia estar próximo do fim. Leia tambémIbovespa Hoje Ao Vivo: Bolsa cai forte com exterior e testa os 176 mil pontosBolsas dos EUA recuam com retração das ações de tecnologia e repercussão de encontro de Trump e Xi JinpingA grande questão em relação a outros momentos está no ponto de partida. O relatório chama atenção para o tamanho incomum da entrada prévia de recursos: os R$ 70 bilhões de ingresso até 15 de abril criaram uma espécie de “colchão” que pode permitir saídas maiores do que o padrão histórico sem necessariamente esvaziar a posição estrangeira no país. Assim, há espaço para mais realização, se o cenário externo continuar hostil.O que levou à saída? A forte saída de capital ocorre por uma combinação de fatores, conforme destaca o JPMorgan: Rotação setorial global – Após o anúncio de cessar-fogo, investidores reduziram exposição a commodities e voltaram a privilegiar tecnologia. Em um mercado como o brasileiro, ainda muito concentrado em empresas ligadas a petróleo, mineração e materiais, essa troca de ciclo global pesa diretamente. Saída também de emergentes – Dos US$ 77 bilhões que haviam entrado em mercados emergentes até a eclosão da guerra, quase 10% já foram resgatados. Ainda assim, a correção em Brasil é bem mais intensa: por aqui, 25% do fluxo acumulado foi devolvido.Fed mais “duro” – Com inflação ainda pressionada e mercado de trabalho resiliente, o Federal Reserve e outros BCs soaram mais duros, aponta o JPMorgan. Os juros dos Treasuries dispararam após o cessar-fogo, num movimento típico de “anti-beta”: menos apetite por risco, menos gosto por emergentes voláteis. Câmbio assimétrico – O real, que chegou a R$ 4,90 por dólar, acumulando alta de 10% no ano, passou a ser visto como “assimétrico para o lado forte” – isto é, com mais risco de desvalorização do que de nova apreciação, na leitura dos estrangeiros. BC mais cauteloso – O Copom cortando juros menos do que o esperado e a perspectiva de seguir com doses de 0,25 ponto percentual até o fim do ano, com risco não desprezível de pausa, ajudam a reprecificar ativos locais. Esse conjunto, argumenta o banco, explica grande parte do desconforto com Brasil mesmo antes de a política entrar de vez no radar. Cenário político esquenta e reprecifica ativosO banco também destaca o o impacto nos mercados de reportagem ligando o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao ex-dono do banco Master, Daniel Vorcaro, o que levou a uma forte reação dos mercados na última quarta-feira (13). Para os estrategistas, este fato começa a redesenhar probabilidades no mercado de apostas e pode alterar a dinâmica da corrida presidencial. O banco cita dados da plataforma Polymarkets, que indicam que as chances de vitória de Flávio Bolsonaro caíram de 43% para 33% após as manchetes, enquanto as probabilidades de Lula subiram de 38% para 43%. A expectativa do JPMorgan é que Flavio permaneça em segundo lugar nas sondagens, mas com maior distância para Lula em relação às pesquisas divulgadas até agora, que mostravam empate técnico no segundo turno. Uma outra hipótese seria a possibilidade de substituição de candidatura. Flavio pode ser trocado até 15 de agosto, prazo oficial para registro no TSE. Leia tambémPRIO mira remuneração “turbinada” a acionistas em 2027, mas por que BBI tem cautela?Retorno aos acionistas poderá chegar a US$ 2,2 bilhões e US$ 2,78 bilhões em 2027Embora a avaliação do banco seja de que, por ora, ele permanece no páreo, o noticiário segue adverso desde 13 de maio, alimentando especulações em redes sociais sobre nomes alternativos, incluindo Michelle Bolsonaro. Outros pré-candidatos também se movimentaram: Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais, reagiu rapidamente nas redes com críticas a Flavio e viu suas chances em Polymarkets subirem 3 pontos, para 8,5%. Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás, cobrou explicações do senador e defendeu a necessidade de unir o centro-direita para derrotar Lula. Ainda assim, é hoje o nome com menores probabilidades na plataforma, com apenas 1,3%. Renan Santos, de um partido recém-criado (Missão) e sem histórico de cargos eletivos, aparece com 7,2% nas apostas. A experiência histórica não anima quem busca gatilhos positivos no curto prazo: em todas as seis eleições presidenciais deste século, lembra o JPMorgan, o mercado brasileiro registrou um desempenho abaixo – tanto em termos absolutos quanto relativos – nos seis meses que antecedem a votação. O alívio tende a vir somente em outubro, com o fim da incerteza, na forma de um “relief rally”, ou rali do alívio. Estratégia: ficar à margem, mas de olho nas oportunidadesDiante desse quadro, a recomendação do banco é “ficar à margem” Apesar da queda recente do EWZ, o JPMorgan entende que não há, ainda, sinal claro de ponto de entrada. Para que o estrangeiro volte a comprar Brasil com convicção, os estrategistas julgam necessário um tripé de melhora externa: i) reabertura do Estreito de Ormuz, reduzindo o prêmio de risco geopolítico; ii) queda nos preços do petróleo, aliviando pressões inflacionárias e iii) reversão parcial da alta dos Treasuries, devolvendo atratividade relativa a ativos de risco. Para o investidor estrangeiro, o risco de queda continua “maior” enquanto o real estiver forte, reduzindo o colchão cambial de proteção. Sabe quanto precisa investir para viver de renda? Calcule agora com a Planilha Viva de RendaAinda assim, o banco alerta para um ponto que tende a ganhar relevância se o pessimismo persistir: valuation. O múltiplo preço/lucro (P/L) de 12 meses à frente do mercado brasileiro está em 8,7 vezes – 17% abaixo do nível pré-guerra e 13% inferior à média histórica. Nesse ambiente, começam a surgir oportunidades em: ações de qualidade no setor financeiro, que já aparecem descontadas em relação a seus fundamentos; exportadoras, que podem se beneficiar caso o real finalmente ceda em meio à volatilidade eleitoral e energia, onde o banco considera “cedo demais” para desmontar posições. The post Estrangeiros já tiraram R$ 17 bi da Bolsa e JPMorgan alerta: “não é hora de voltar” appeared first on InfoMoney.
