A possível aquisição da Medley pela EMS deve inaugurar uma “nova fase” para a fabricante de genéricos, segundo a diretora-geral da companhia, Lucia Rossato. Em conversa exclusiva no InfoMoney Entrevista, a executiva afirmou que a empresa vive um dos momentos mais importantes de sua trajetória de 30 anos e que a separação da Sanofi foi desenhada para dar mais agilidade, velocidade e capacidade de expansão à Medley. “A marca Medley está na sua melhor forma, mais forte do que nunca”, disse.A compra da Medley pela EMS ainda depende de aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Enquanto isso, as operações seguem independentes. Hoje, a líder EMS tem mais de 20% do mercado brasileiro de genéricos, enquanto a Medley ocupa a terceira posição, com cerca de 10% de participação – mas a empresa adquirida tem planos mais ambiciosos.“Os próximos 30 anos podem ser ainda mais promissores para a Medley, inclusive indo além de genéricos”, afirmou. A executiva destacou que a empresa encerrou 2025 com o maior crescimento de sua história, acima de 20%, e manteve expansão de 23% no primeiro trimestre deste ano, mesmo em meio ao processo de transição.Confira, a seguir, os principais trechos da conversa.InfoMoney: Em que pé está o acordo da Medley com a EMS?Lucia Rossato: A intenção de compra da Medley pelo grupo EMS segue pendente de aprovação do Cade. Enquanto isso, Medley e EMS continuam operando de forma completamente independente. Esse processo de transição começou em dezembro de 2024, quando anunciamos ao mercado a intenção de separar a Medley da Sanofi, numa estrutura stand alone. Esse é o marco da nossa independência: mais agilidade, mais crescimento, ampliação de portfólio. Ao mesmo tempo, tínhamos uma prioridade absoluta: não perder a mão do negócio em meio à transição. Conseguimos crescer, manter o time engajado e seguir entregando resultados.InfoMoney: A marca Medley corre risco de sumir das prateleiras com a entrada da EMS?Lucia Rossato: Não. A marca Medley está na sua melhor forma, mais forte do que nunca. Nosso propósito é democratizar o acesso a genéricos de Norte a Sul do país, e isso tende a se fortalecer. A expectativa é entrar numa fase de ainda mais investimento, mais tecnologia, mais portfólio. Estamos muito animados com os próximos 30 anos: a ideia é acelerar crescimento e ganhar mais dinamismo, velocidade e ambidestria – executar e transformar ao mesmo tempo.InfoMoney: Esse movimento também está ligado à necessidade de mais capital e investimentos em um setor naturalmente caro, como o farmacêutico, que exige alta tecnologia?Lucia Rossato: Sem dúvida. A Sanofi hoje está focada em biotecnologia, vacinas e medicamentos inovadores. A Medley é uma empresa de genéricos no Brasil, com uma lógica de negócio totalmente distinta. No varejo farmacêutico, com mais de 90 mil farmácias, você precisa de eficiência operacional extrema, velocidade, uma logística muito complexa. Há também a transformação da própria farmácia: o avanço do e-commerce, a jornada híbrida do consumidor, o papel da farmácia como hub de saúde – vacinação, testes rápidos, serviços de atenção primária. Para acompanhar tudo isso, a Medley precisa de mais agilidade e dinamismo. A independência é uma resposta a essa necessidade.InfoMoney: Você mencionou logística. Quando pensamos no encarecimento dos medicamentos, quais são hoje os principais drivers? IFAs (ingrediente farmacêutico ativo) importados, logística, outro fator?Lucia Rossato: É um conjunto de fatores. A cadeia de IFAs é global. O Brasil já produziu internamente uma fatia relevante e hoje importa a maior parte, então custo de insumo pesa, sim. Mas não é só isso. Logística é um fator muito relevante. O Brasil é um continente, e transportar medicamentos exige transportadoras homologadas, estruturas específicas, controle de temperatura. Vou dar um exemplo: visitei clientes em Manaus. Quando o rio seca, o acesso a medicamentos em áreas ribeirinhas pode atrasar até 20 dias. Hoje você tem tecnologia, até drones, mas tudo isso tem custo. Por isso a gente trabalha muito próximo de distribuidores e operadores logísticos, com planejamento e flexibilidade para eventos climáticos, enchentes, crises de transporte, variação de combustível. É uma engrenagem delicada, que busca eficiência sem comprometer o acesso.InfoMoney: A alta nos preços dos combustíveis, como o diesel, que vimos com a guerra no Irã, impacta diretamente os custos da Medley?Lucia Rossato: Impacta, sim. Temos fábrica em Campinas e dois grandes centros de distribuição – Extrema (MG) e Guarulhos (SP) – justamente pensados para otimizar logística. Mas variações de combustível, greves de transporte e crises geopolíticas afetam nossos contratos com transportadoras. Numa indústria altamente regulada, contratar fornecedores e operadores logísticos com rigor é tão crítico quanto vender bem. O custo é sensível e a ruptura de medicamento é inaceitável: 80% do nosso portfólio são medicamentos de prescrição, que ficam atrás do balcão, usados em cenários de necessidade real. Ruptura frustra o consumidor, o farmacêutico e toda a cadeia.InfoMoney: Sobre genéricos: 2025 foi um ano recorde para o segmento. Como está a Medley nesse contexto? E vocês pretendem ir além dos genéricos?Lucia Rossato: A Medley teve, no ano passado, o maior crescimento da sua história: mais de 20%. No primeiro trimestre deste ano, já crescemos 23%. É um resultado que nos orgulha, especialmente num momento de transição. Continuamos com foco em genéricos, essa é nossa vocação principal. Mas o portfólio vai além: já atuamos com medicamentos similares e temos grande potencial para avançar em canais como hospitais e mercado institucional. A marca Medley é muito forte: são 30 anos no Brasil, 9 anos como Top of Mind, entre as 50 marcas mais valiosas no ranking InfoMoney. Apesar desse avanço, o Brasil ainda não é um mercado maduro em genéricos. Quando comparamos com EUA e Europa, há muito espaço para democratizar acesso, especialmente fora do eixo Sudeste. Fazer o produto chegar com eficiência ao Norte, Nordeste, interior, é um desafio logístico e de capilaridade.InfoMoney: Todo mundo fala da queda de patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic. A Medley vai entrar na “guerra” das canetas emagrecedoras?Lucia Rossato: Essa é “a” pergunta do momento. As canetas são um marco de inovação da indústria, sem dúvida. Mas, no curto prazo, não está nos planos da Medley lançar um peptídeo desse tipo. Do ponto de vista regulatório, o genérico nasce quando a patente de referência cai. Ele precisa ser equivalente, e há grandes diferenças entre genéricos sintéticos – foco da Medley hoje, produzidos em Campinas – e produtos biológicos/peptídicos. Os ciclos são longos: para colocar um genérico no mercado, do desenvolvimento à aprovação da Anvisa, estamos falando de cerca de 30 meses. Pode ser uma possibilidade no futuro? Pode, porque temos área de P&D e desenvolvimento de negócios olhando o horizonte de 3, 5, 10 anos. Mas, neste momento, não há plano concreto para lançar uma caneta emagrecedora própria.InfoMoney: E as redes sociais? Ajudam ou atrapalham a indústria farmacêutica?Lucia Rossato: Eu diria que ajudam, desde que haja equilíbrio e responsabilidade. É uma indústria muito regulada, então precisamos de times de comunicação e marketing altamente qualificados para falar com o consumidor. Hoje encontramos um bom equilíbrio entre canais tradicionais e digitais. Mantemos uma comunicação muito forte com profissionais de saúde – médicos, farmacêuticos – e, ao mesmo tempo, com o consumidor final, em diferentes idades, classes sociais e regiões. Também fazemos uma execução regional de marca: a forma de comunicar a Medley na festa de São João no Nordeste é diferente do Sudeste, por exemplo. Mas tudo dentro das RDCs da Anvisa, que são claras sobre o que pode e o que não pode, principalmente em medicamentos de prescrição.InfoMoney: Você pode dar um exemplo prático do que é proibido para a indústria nas redes?Lucia Rossato: Um ponto central: cerca de 80% do nosso portfólio é de medicamentos tarjados, de prescrição. Por regra, não podemos fazer comunicação desses produtos diretamente ao consumidor. A comunicação é voltada a profissionais de saúde – médicos, farmacêuticos, dentistas. Outro exemplo: nem toda plataforma de e-commerce pode vender medicamentos isentos de prescrição. Há discussões regulatórias em curso, como a venda em supermercados. A Medley acompanha e se prepara para qualquer desfecho, mas sempre dentro de limites muito claros. No fim, estamos falando de remédio, que precisa ser usado conforme a bula e sob supervisão adequada.InfoMoney: Quais são os principais desafios da Medley para 2026?Lucia Rossato: Hoje temos cerca de 10% de participação no mercado total de genéricos, na terceira posição. O futuro é muito promissor, mas o grande desafio imediato é manter a velocidade do negócio em meio à transição. Uma combinação de negócios desse porte gera inquietude em funcionários e clientes. Muitas respostas ainda dependem do Cade. Desde que anunciamos a intenção de independência, em dezembro de 2024, já se passaram mais de 500 dias. Fizemos uma transição muito bem-sucedida, com crescimento forte e baixo turnover – abaixo da média do mercado. Para 2026, continuar esse equilíbrio é chave.The post Medley vê “nova fase” com possível compra pela EMS e mira crescer além dos genéricos appeared first on InfoMoney.
