O caso da morte súbita do fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos, acendeu um alerta sobre a cardiomiopatia hipertrófica, doença cardíaca geralmente associada a fatores genéticos, em que o músculo do coração se torna anormalmente espesso. O atestado de óbito do influenciador aponta a condição como causa da morte. Nas redes sociais, Gabriel dizia que usava hormônios, e a perícia apreendeu medicamentos no apartamento onde ele foi encontrado, possivelmente anabolizantes, segundo o registro policial.A cardiomiopatia hipertrófica faz com que o músculo cardíaco fique mais rígido, dificultando o relaxamento do órgão e o bombeamento de sangue. Em alguns casos, a doença pode aumentar o risco de arritmias e morte súbita, especialmente quando há esforço físico intenso sem acompanhamento especializado. A Secretaria da Segurança Pública informou que a polícia ainda investiga o caso e aguarda os laudos do Instituto Médico Legal para esclarecer a morte.Gabriel foi encontrado morto no sábado por um amigo no apartamento em que morava, na Mooca, Zona Leste de São Paulo, após dias sem contato com familiares e amigos. Segundo o boletim de ocorrência obtido pela TV Globo, o amigo foi ao imóvel depois de ser procurado por parentes preocupados com o desaparecimento do jovem desde a noite de quinta-feira. Ao chegar ao prédio, ele foi informado por funcionários do condomínio de que o fisiculturista estava dentro do apartamento. Como as luzes estavam acesas, mas ninguém respondia, a porta foi arrombada com ajuda dos funcionários. Gabriel foi encontrado já sem vida na cozinha, caído de bruços. De acordo com o registro, ele tinha o rosto avermelhado, com presença de sangue, mas não havia sinais aparentes de violência no imóvel.A Polícia Militar foi acionada pelo próprio amigo, que ligou para o 190. O caso foi registrado no 42º Distrito Policial, no Parque São Lucas, como morte suspeita, inicialmente tratada como morte súbita sem causa aparente. A perícia esteve no local e apreendeu diversos medicamentos. Ainda segundo o boletim, o imóvel estava limpo e organizado, sem indícios de luta ou crime.Em depoimento, o amigo afirmou que conhecia Gabriel havia cerca de quatro anos e que os dois trabalhavam juntos. O último contato presencial entre eles ocorreu na noite de quinta-feira, quando se encontraram por menos de 30 minutos em uma academia na Mooca. A mãe do fisiculturista, a empresária Clarisse Ganley Christophe, que mora no Rio de Janeiro, também prestou depoimento. Ela disse que havia falado com o filho pela última vez na mesma noite de quinta-feira e que ele estava bem, sem relatar problemas de saúde ou sintomas. Segundo ela, o jovem não tinha histórico de doenças cardíacas conhecido.Exercício exige avaliação individualSegundo a Associação Americana da Cardiomiopatia Hipertrófica, há muita confusão sobre a prática de exercícios por pessoas com a condição. A entidade afirma que orientações extremas, como “não fazer nada físico” ou “fazer o que quiser”, tendem a estar equivocadas, e que a melhor recomendação costuma ficar no meio do caminho.Especialistas apontam que exercícios leves podem ser seguros para a maioria dos pacientes, dependendo dos sintomas. Caminhadas, por exemplo, costumam ser indicadas. Já atividades intensas, esportes de contato e esforços pesados podem ser desaconselhados para pessoas com sintomas ou maior risco cardíaco.Leia tambémDurigan: Solução para BRB terá empréstimo do FGC com fiança de sindicato de bancosMinistro disse que a União se comprometeu a flexibilizar critérios do plano de ajuste fiscal do DF, que atualmente limita operações de crédito do ente a R$ 900 milhõesA orientação central é que pacientes com a doença sejam avaliados por especialistas, que consideram fatores como histórico familiar, espessura da parede do ventrículo esquerdo, grau de obstrução, presença de arritmias, resposta do coração ao esforço e quantidade de tecido cicatricial no músculo cardíaco.“Historicamente, você ouvia essas histórias de jovens atletas morrendo subitamente com cardiomiopatia hipertrófica não diagnosticada”, afirmou o cardiologista Maran Thamilarasan. “A ideia era que deveríamos restringir significativamente a atividade. Esse foi o dogma por muitos anos. Mas agora reconhecemos que cada indivíduo é diferente e que é muito importante manter algum nível de atividade física, tanto para o bem-estar mental quanto para o condicionamento físico.”De acordo com o médico, a avaliação de risco é essencial antes de iniciar ou intensificar uma rotina de exercícios, sobretudo em casos de prática competitiva ou de alta intensidade. “É certamente possível que, com uma boa análise detalhada, alguém com cardiomiopatia hipertrófica possa se envolver em exercícios de nível competitivo”, disse Thamilarasan. “Uma consulta com um cardiologista do esporte é frequentemente recomendada nessas situações.”As atividades geralmente recomendadas para pessoas com a condição incluem caminhada, bicicleta, hidroginástica e natação com salva-vidas, desde que a avaliação médica não indique risco de desmaio. “Quase todas as pessoas com cardiomiopatia hipertrófica podem se envolver nesse tipo de atividade para manter o condicionamento cardiovascular”, afirmou o cardiologista. “Se você tem baixos marcadores de risco, então pode ser possível se envolver em um nível mais alto de atividade.”Sinais de alertaEspecialistas reforçam que não há recomendação única para todos os pacientes. Pessoas com maior risco de arritmias ou obstrução significativa podem precisar restringir exercícios de alta intensidade, como levantamento de peso pesado ou treinos intervalados intensos. Nesses casos, atividades de menor impacto, como alongamento, ioga, pilates e caminhada leve, podem ser alternativas.A recomendação é interromper imediatamente o exercício diante de sintomas como dor no peito, tontura, palpitações, falta de ar desproporcional ao esforço ou sensação de desmaio.“Preste atenção a qualquer coisa que faça você se sentir mais sem fôlego do que deveria para aquele nível de atividade”, afirmou Thamilarasan. “Não force. Você precisa estar atento aos sinais de alerta.”Natural do Rio de Janeiro, Gabriel Ganley ganhou notoriedade nas redes sociais ao compartilhar vídeos de treino, rotina alimentar e preparação física. Ele acumulava cerca de 1,7 milhão de seguidores no Instagram e quase 400 mil inscritos no YouTube.Inicialmente, ficou conhecido por defender o fisiculturismo natural, sem uso de anabolizantes. As primeiras competições que disputou, entre 2023 e 2024, seguiram esse modelo. No ano passado, porém, revelou aos seguidores que havia começado a usar anabolizantes e passou a abordar o tema nas redes.Antes da musculação, Gabriel também teve destaque como jogador competitivo de Pokémon TCG, chegando a figurar entre os melhores da América Latina e a disputar um torneio mundial nos Estados Unidos.A morte do fisiculturista gerou comoção nas redes sociais. Amigos, fãs e nomes do fisiculturismo publicaram homenagens ao longo do sábado. Em nota, a Integralmédica, marca de suplementos que patrocinava Gabriel, afirmou que o atleta “inspirava milhares de jovens” com conteúdos sobre disciplina e treino, e destacou o carinho que ele demonstrava com seguidores e admiradores.The post Caso Gabriel Ganley: o que transformou condição genética “comum” em gatilho fatal appeared first on InfoMoney.
