Juros altos acendem alerta para onda de inadimplência no Brasil

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O Brasil pode estar se aproximando de uma virada perigosa no ciclo de crédito. Com juros altos por mais tempo, empresas endividadas e famílias com renda comprometida, gestores avaliam que qualquer piora no mercado de trabalho pode abrir espaço para uma onda relevante de inadimplência.O alerta se soma a um quadro externo turbulento, marcado por pressões inflacionárias nos Estados Unidos, incerteza sobre os próximos passos do Federal Reserve, o banco central americano, e dúvidas sobre os impactos da inteligência artificial na produtividade e nos salários.O cenário foi debatido no AfterMarket, do Stock Pickers, com apresentação de Lucas Collazo. Participaram Andrew Reider, da gestora WHG, e Christian Keleti, da Alpha Key, além de Bruno Serra, gestor da estratégia Janeiro, da Itaú Asset, como convidado especial.O ponto de partida da discussão foi a abertura dos juros longos nos Estados Unidos — ou seja, a alta nas taxas dos títulos públicos americanos de prazo mais longo, que servem de referência para ativos no mundo inteiro. Serra reconheceu pressões de curto prazo, como petróleo, tarifas comerciais e restrições à imigração, mas ponderou que o mercado de trabalho americano segue comportado, com salários crescendo abaixo do esperado e produtividade em alta.Ele fez uma pergunta ignorada por todos — e lucrou com o colapso da GafisaMultimodelos: a estratégia da XP para oferecer atendimento sob medida ao clienteA dúvida sobre o efeito da IA na inflação“Será que, de fato, apesar de aumentar alguns custos, a inteligência artificial otimiza a mão de obra? Será que isso não vai ser decisivo para manter a inflação mais baixa?”, questionou Serra. “Eu voltei com uma casinha para a dúvida, talvez focada mais em uma inflação de serviços que eu tenho dificuldade de explicar, porque o salário está tão tranquilo nos Estados Unidos.”O gestor lembrou ainda que serviços e moradia representam cerca de dois terços do índice de inflação americano, e que esses componentes caminham em direção à queda. A parcela de bens industriais — em que a pressão de insumos como memória e eletrônicos é mais visível — corresponde a apenas 20% do total. “Eu trouxe mais dúvidas do que grandes convicções aqui”, admitiu Serra.O futuro do Federal Reserve, o banco central americano, também entrou no debate. Com a perspectiva de troca no comando da instituição, surgiu a dúvida sobre o perfil do sucessor. Se for mais rigoroso no combate à inflação, moedas e ativos de países emergentes tendem a sofrer. Se for mais tolerante, os juros longos podem continuar subindo, criando outro tipo de risco para os mercados globais.O crédito que parou de pedalarA conversa voltou ao Brasil em tom de preocupação. Keleti lembrou que as projeções para os juros domésticos mudaram radicalmente ao longo do ano: o mercado, que antes esperava a taxa básica convergindo para 11% ao ano, agora trabalha com a possibilidade de ela permanecer perto de 13%.Para Serra, o ciclo de crédito no Brasil vive um momento de fragilidade crescente. Desde a pandemia, uma combinação de expansão dos pagamentos digitais via Pix, formalização do mercado de trabalho e concorrência intensa entre bancos e fintechs resultou em uma expansão extraordinária do crédito para pessoas físicas. “Enquanto você está pedalando a bicicleta, tudo bem. O problema é quando a bicicleta para de pedalar”, disse o gestor.Com juros mais altos por mais tempo, empresas com dívidas a refinanciar e famílias com renda comprometida, qualquer desaceleração no emprego pode desencadear uma onda de calotes. “Não acho que é um problema sistêmico. O sistema bancário está capitalizado. Mas vai ter consequências grandes”, avaliou Serra.Veja mais: Gringo vê risco que o brasileiro ignora no ciclo de crédito, diz gestor da IP CapitalE também: BC sem saída? Gestores veem corte menor de juros após choque globalEleições e o risco do perdão fácilKeleti acrescentou uma dimensão política ao risco. Com as eleições se aproximando, programas de renegociação de dívidas — como o Desenrola e os recentes benefícios concedidos ao setor do agronegócio por meio de medidas provisórias — podem criar um problema de comportamento oportunista: devedores que preferem esperar por uma nova rodada de alívio a honrar seus compromissos.“É aquele empresário que sempre acha que vai ter um Refis, então é só não pagar o imposto que fica tranquilo”, disse Keleti, referindo-se ao programa recorrente de refinanciamento de dívidas tributárias com o governo federal.O risco, portanto, não é apenas econômico. É também de sinalização: quando o Estado indica repetidamente que dívidas podem ser renegociadas em condições mais favoráveis, parte dos agentes econômicos passa a contar com isso — e o custo do crédito tende a subir para todos.The post Juros altos acendem alerta para onda de inadimplência no Brasil appeared first on InfoMoney.

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