Bolsa barata, mas ruídos altos: é hora de comprar Brasil após queda de 25 mil pontos?

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“Sell in may” apenas ou o movimento é mais estrutural? O Ibovespa caiu 7,22% em reais e 8,6% em dólares em maio, registrando a maior queda mensal no mês passado desde fevereiro de 2023, quando caiu 7,49% em reais.Cabe ressaltar que, desde o dia 14 de abril, quando chegou perto dos 200 mil pontos (mais precisamente, 199.354 pontos), o que seria um novo patamar histórico, o Ibovespa caiu cerca de 13% até o fechamento da última sexta-feira (ou 173.787 pontos), último dia do mês passado, ou mais de 25 mil pontos neste período.Boa parte dessa queda ocorre em meio a uma debandada dos estrangeiros, que acumula saídas de cerca de R$ 14,2 bilhões até o último dia 28. Conforme destaca o BB Investimentos, o desempenho da bolsa brasileira nos primeiros meses de 2026 chamou a atenção dos investidores globais, com o Ibovespa chegando a figurar entre os mercados de melhor desempenho em dólares no período, acumulando valorização superior a 25%. Esse movimento refletiu a combinação de valuation descontado em relação a pares internacionais, diferencial de juros ainda elevado e um ambiente favorável para as empresas de energia. Contudo, ao longo de abril, houve uma inflexão relevante nesse quadro, com mudança significativa na dinâmica de fluxos de capitais e no apetite a risco pelos ativos domésticos.Para a equipe de análise, o fluxo estrangeiro observado no início do ano teve caráter predominantemente tático, aproveitando distorções de preço e vetores conjunturais favoráveis, mais do que uma realocação estrutural para o mercado brasileiro. “À medida que parte desses fatores passou a perder força e novos elementos de risco ganharam protagonismo, sobretudo a partir do agravamento dos conflitos no Oriente Médio, o comportamento dos investidores também se ajustou, contribuindo para um ambiente de maior cautela”, avalia. Leia tambémIbovespa Hoje Ao Vivo: Bolsa cai e tenta manter os 172 mil pontosBolsas dos EUA operam de forma mista, enquanto petróleo tem nova alta O cenário global permanece como eixo central dessa mudança de percepção. O prolongamento dos conflitos no Oriente Médio reforçou a pressão sobre os preços de energia, com impactos mais persistentes sobre a inflação global. Esse contexto elevou o grau de incerteza em torno da condução da política monetária nas principais economias, levando a revisões nas expectativas de cortes de juros e a uma reprecificação dos ativos financeiros, com fortalecimento do dólar e aumento da aversão ao risco.No Brasil, destaca o BB Investimentos, esse movimento se traduziu em ajustes relevantes na curva de juros, especialmente nos vértices médios e longos, cuja abertura chegou superou os 20 pontos-base em 30 dias, refletindo uma trajetória de flexibilização monetária mais incerta do que a anteriormente esperada. “A combinação entre choques inflacionários externos, ambiente global mais restritivo e revisão das expectativas para a Selic contribuiu para a manutenção de prêmios de risco elevados, reduzindo o suporte conjuntural que chegou a levar a bolsa de 160 mil para 199 mil pontos”, avalia.Além disso, houve uma forte rotação do capital estrangeiro para ações de inteligência artificial, o que favoreceu mais os emergentes de mercados asiáticos (com forte exposição à IA) e menos o Brasil.Valores atrativos, mas é para entrar agora?Olhando mais à frente, analistas e estrategistas de mercado têm destacado que os múltiplos da Bolsa brasileira estão atrativos, mas estão cautelosos olhando para o curto prazo das ações. Em recorrentes relatórios de estratégia, o JPMorgan tem reforçado a visão de que “pode ser muito cedo” para entrar na Bolsa brasileira e projetando alta volatilidade para os papéis domésticos, principalmente de olho no cenário eleitoral.Os analistas do BB Investimentos também adotaram uma postura mais cautelosa em relação ao desempenho da bolsa brasileira nos próximos meses, citando o ambiente macro mais desafiador e mudança relevante na dinâmica de fluxo de capital estrangeiro.Indo mais além, o UBS cortou a recomendação das ações brasileiras de “atrativas” para “neutra” , citando uma mudança no perfil de risco versus retorno, acrescentando que a visão mais ampla para mercados emergentes continua construtiva.Para os estrategistas do banco suíço, “três fatores adversos convergentes agora alteram, em nossa visão, o equilíbrio de risco-retorno: o aumento da incerteza política relacionada às eleições, um ciclo de afrouxamento monetário do BC mais curto e menos intenso, e a aceleração do afrouxamento fiscal no período pré-eleitoral”, pontuou. “Embora os fundamentos permaneçam resilientes, essas dinâmicas devem manter o equilíbrio entre risco e retorno até a eleição de outubro.”Bons fundamentos, mas vale comprar agora?Contudo, apesar do rebaixamento, o UBS ressalta que os fundamentos para o Brasil continuam positivos.“Nosso rebaixamento reflete uma mudança no cenário macroeconômico e político, e não uma deterioração dos fundamentos corporativos. As avaliações permanecem razoáveis, com o índice P/L para os próximos 12 meses próximo ao meio de sua faixa de 10 anos, e os lucros superaram os preços nos últimos meses. A variação trimestral do lucro por ação (LPA) para os próximos doze meses no Brasil está entre as mais altas nos mercados emergentes (excluindo a Coreia), sustentada pela exposição a commodities e por um índice com baixa exposição ao setor de tecnologia”, avalia.Mais além do ruído macroeconômico e político de curto prazo, o Brasil se destaca como líder estrutural em vários aspectos. O país oferece aos investidores globais exposição a minerais críticos, terras raras e infraestrutura — setores em alta demanda à medida que o mundo transita para novos sistemas energéticos, complementa o banco.Leia também: Dólar virou o maior risco para o Brasil, diz Bank of AmericaNeste cenário, os principais catalisadores a serem observados são o resultado das eleições e a trajetória do ciclo de afrouxamento monetário do Banco Central do Brasil.“Uma clara vantagem para um candidato favorável ao mercado ou perspectivas renovadas para um afrouxamento monetário mais profundo poderiam nos levar a reavaliar nossa perspectiva. O aumento do ruído político, um banco central mais cauteloso e a aceleração do afrouxamento fiscal pré-eleitoral criam um ambiente de risco que sustenta uma visão neutra para as ações brasileiras neste momento”, aponta.Já a XP Investimentos, em relatório de estratégia, avalia que, em meio à queda recente, chegou a hora de comprar Brasil. “Embora expliquemos por que as ações brasileiras têm sofrido e quais desafios enxergamos do lado dos fundamentos, nosso indicador técnico/sentimento voltou para território de compra”, avaliam Fernando Ferreira, Raphael Figueredo, Caio Souza e Antonio Mello, que assinam o relatório.A última vez em que esse indicador atingiu o nível de pessimismo extremo foi em janeiro de 2025, o que se mostrou uma ótima oportunidade de compra, afirmam os estrategistas. O indicador também chegou a 100 (extremo otimismo) no fim de fevereiro, quando o EWZ (ETF de ações brasileiras) estava cerca de 10% acima dos níveis atuais, avaliam. A casa manteve o valor justo do Ibovespa em 205 mil pontos, ou alta de 18%. “A Bolsa brasileira vinha passando por uma correção, que acreditamos estar próxima do fim, dado o quadro técnico de ‘sobrevenda’”, avaliam.O Morgan Stanley também avalia que o risco-retorno do Brasil está inclinado para o lado positivo, mantendo recomendação overweight (equivalente a compra) em América Latina, com base em três pilares principais: valuation atrativo, resiliência dos lucros e impacto favorável do petróleo.O banco ressalta que a pausa do mercado desde abril foi causada por: juros mais altos (globais), piora na qualidade dos resultados, incerteza política e posição “cheia” de investidores estrangeiros. Contudo, alguns desses fatores já estão melhorando, especialmente posicionamento.Contudo, a mesma instituições financeira apontou, após reuniões em Londres e na União Europeia em geral, que os investidores “gringos” continuam a ver o Brasil como relativamente bem posicionado em comparação com outros mercados emergentes, mas o otimismo diminuiu nos últimos dois meses em meio a um cenário global e doméstico mais incerto.Leia tambémVale é única “sobrevivente” das ações mais indicadas de maio em mês difícil na BolsaA Vale nadou contra a maré e entregou ganhos mesmo diante da forte queda no Ibovespa, enquanto Petrobras liderou quedas; entenda motivosOs investidores continuam a caracterizar a corrida presidencial de 2026 como amplamente equilibrada (“50/50”), com pouco espaço para um terceiro candidato viável, enquanto esperam que a volatilidade relacionada às eleições se torne um fator mais relevante para o mercado a partir de agosto. Em relação à política monetária, a maioria dos investidores ainda espera que o Banco Central do Brasil (BC) continue a afrouxar gradualmente a política monetária durante o período eleitoral, apesar das pressões inflacionárias de curto prazo decorrentes de choques de commodities relacionados ao Oriente Médio.“Os debates sobre a taxa terminal para 2027 continuam, com nossa recomendação de afrouxamento monetário mais profundo impulsionada pelas expectativas de crescimento mais fraco e deterioração das condições financeiras das famílias. Os investidores também discutiram a possibilidade de respostas políticas mais heterodoxas à crescente inflação de alimentos em 2026, embora haja pouca expectativa de que o governo adote subsídios alimentares generalizados. No geral, os investidores continuam a favorecer as taxas de juros e o real”, avalia.The post Bolsa barata, mas ruídos altos: é hora de comprar Brasil após queda de 25 mil pontos? appeared first on InfoMoney.

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