Mais um fator de aversão a risco para o mercado brasileiro? Enquanto os mercados internacionais começaram a sessão desta terça-feira (2) em compasso de espera, os investidores domésticos monitoravam nesta manhã novas tensões comerciais envolvendo Brasil e EUA. O mercado brasileiro amanheceu com a notícia de que o governo americano propôs a aplicação de tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, no âmbito de uma investigação sobre práticas comerciais consideradas desleais, embora com exceções relevantes como aeronaves, café e alguns insumos, que compõem 73 páginas.“A medida ainda passará por consulta pública e negociação, mas eleva a incerteza para exportadores brasileiros e pode pressionar câmbio, percepção de risco e visibilidade de setores ligados ao comércio exterior”, avalia a Ágora Investimentos. Contudo, o mercado brasileiro não sofreu – pelo menos não de forma imediata – com a medida. Às 10h08 (horário de Brasília), o Ibovespa registrava alta de 0,61%, a 173.245 pontos, enquanto o dólar tinha leve queda, de 0,18%, a R$ 5,01. Para Rachel de Sá, estrategista da XP Investimentos, o anúncio, num primeiro momento, parecia ter potencial para pressionar os mercados. Ao olhar mais atentamente o conteúdo, porém, a avaliação passou a ser de impacto limitado no curto prazo, levando em conta justamente as exceções. “Por isso, a leitura, por ora, é de que o episódio não é motivo para pânico e tende a fazer pouco preço no dia”, avalia.Riscos e fluxo estrangeiroPara Fábio Murad, Sócio e Fundador da Ipê Avaliações, contudo, a proposta deve ser lida como risco macroeconômico real, não apenas como ruído político. “Mesmo com exceções relevantes, o mercado tende a reagir ao sinal de tensão institucional e comercial entre os dois países, porque isso afeta percepção de risco, fluxo estrangeiro, câmbio e prêmio exigido para investir no Brasil”, avalia.O especialista aponta que, para o investidor internacional, o problema não está apenas na tarifa em si, mas na possibilidade de o Brasil passar a ser visto como um mercado com maior incerteza regulatória e diplomática, o que pode gerar uma postura mais seletiva em relação à Bolsa, aos fundos, aos ETFs e aos ativos de longo prazo. André Matos, CEO da MA7 Negócios, destaca que a notícia não pode ser tratada como simples ruído político, mas também não justifica pânico, levando também em conta a grande lista de exceções entre os setores sujeitos à tarifação. Leia tambémGoverno vê margem para negociação após EUA ameaçarem tarifa de 25% ao BrasilItamaraty e MDIC mantiveram conversas com representantes de Trump antes da divulgação de relatório que classificou práticas brasileiras como desleaisTrump assina proclamação que altera tarifas sobre importação de aço, alumínio e cobreOs ajustes entrarão em vigor para mercadorias importadas ou retiradas de armazéns alfandegados a partir de 8 de junho“Sobre a possibilidade de afastar o investidor estrangeiro, sim, há risco, mas indireto. O capital externo não é diretamente atingido pela tarifa, mas é sensível ao prêmio de risco país e à percepção de deterioração da relação bilateral”, aponta, destacando que qualquer ruído adicional pode desacelerar o fluxo ao mercado de ações para o país, que já sofreu uma forte saída em maio. Assim, complementa, o mercado deve tratar a tarifa como risco macroeconômico real, mas dimensionado. Cassio Viana de Jesus, diretor de investimentos e novos negócios da Pilar Capital, reforça que a decisão anunciada não é uma tarifa em vigor, mas uma proposta formal do USTR, concluindo investigação aberta em julho de 2025 sob a Seção 301. As medidas só entrariam em vigor até 15 de julho, com audiência no dia 6. Há, portanto, janela de negociação.Além disso, é importante desassociá-la do tarifaço de 2025: a base atual são supostas “práticas irracionais” do Brasil em soberania regulatória sobre plataformas digitais (incluindo o Pix), comércio digital, ordens judiciais a redes sociais americanas, propriedade intelectual, etanol e desmatamento. “Ou seja, é tarifa usada como instrumento de pressão política e regulatória — não resposta a desequilíbrio comercial, até porque, na corrente bilateral, é o Brasil que importa mais do que exporta dos EUA”, aponta.As isenções também esvaziam o efeito macro, com o dano concentrando em manufaturados e bens de capital de menor peso na pauta micro/setorial, não sistêmico. “Sobre inflação, vale desfazer um equívoco: a tarifa é paga pelo importador americano, recaindo sobre o consumidor dos EUA, não sobre o IPCA. Para o Brasil, o canal inflacionário relevante é indireto, via câmbio”, avalia. De qualquer forma, no fluxo tático, a proposta de tarifas pode impactar o fluxo estrangeiro para o Brasil. Já no investimento estrutural, o efeito é menor, a princípio.“O investidor de portfólio reage rápido a risco institucional e imprevisibilidade regulatória, podendo reduzir exposição, pressionar o dólar e abrir a curva de juros. Mas parte relevante do Ibovespa é estruturalmente menos exposta: dominado por Vale (VALE3) e Petrobras (PETR4) (commodities isentas e precificadas globalmente) e bancos (negócio doméstico), como se viu na absorção dos choques de 2025 sem ruptura”, aponta.Assim, o efeito real não é êxodo de capital, mas elevação do prêmio de risco na margem e limitação do teto de valorização. “O que pesa de verdade nos fluxos segue sendo a trajetória fiscal doméstica, o Fed e o ciclo de commodities; a tarifa é ruído aditivo sobre essa base”, reforça o especialista. Para Leonel Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercados da Stonex, não necessariamente teremos novidades imediatas sobre o tema. “É possível que o governo Trump demore a anunciar medidas efetivas contra o Brasil ou até mesmo deixe esse prazo transcorrer antes de uma decisão. Nesse meio-tempo, a incerteza tende a permanecer”, pondera. The post EUA ameaçam Brasil com novas tarifas, mas Ibovespa sobe e dólar cai: o que explica? appeared first on InfoMoney.
