Na costa de Omã, durante o fim de semana, 16 petroleiros se agruparam para transferir milhões de barris de petróleo que haviam ficado retidos no Golfo Pérsico. Há um mês, aquela área estava completamente vazia.Eles fazem parte de um número crescente de navios-tanque que estão desligando seus transponders (equipamentos de identificação e rastreamento) para aumentar o fluxo de petróleo através do Estreito de Ormuz, transformando-o de um mero filete em uma corrente mais consistente. Enquanto os dados convencionais de rastreamento de embarcações mostram pouca mudança nos embarques, executivos seniores do setor marítimo, compradores asiáticos de petróleo e imagens de satélite revelam uma realidade diferente: Ormuz está muito menos bloqueado, com travessias mais constantes e volumes maiores.Leia também“Nada é tão ruim que não possa piorar”: como Ormuz tem distorcido mercado de petróleoRisco de bloqueio no Estreito de Ormuz sustenta prêmio no petróleo e favorece petroleiras, enquanto mercado ainda aposta em normalização rápida da oferta, que pode não acontecerO aumento do número de navios de produtores do Golfo que “desaparecem” dos sistemas de rastreamento para atravessar sem serem detectados pelo Irã está no centro dessa elevação dos fluxos. Isso coincide com um período em que os Estados Unidos vêm ajudando embarcações a navegar pela hidrovia. Os volumes recentes reforçam os sinais de que o mercado de petróleo está conseguindo direcionar oferta suficiente aos compradores e evitar uma disparada dos preços, mesmo com a guerra envolvendo o Irã provocando a maior interrupção de fornecimento da história do mercado petrolífero. Na quarta-feira, o presidente Donald Trump afirmou que “milhões de barris” foram retirados da região.Produtores do Oriente Médio vêm utilizando navios sob seu controle para transportar petróleo para fora de Ormuz, evitando as taxas astronômicas cobradas pelo pequeno número de armadores dispostos a atravessar a área. Depois de sair do estreito, o petróleo é transferido para outros petroleiros, que levam a carga para compradores na Ásia e em outras regiões.“Estamos observando um aumento dessa tendência”, afirmou Larry Johnson, chefe de fretes da comercializadora de commodities Mercuria Energy Group. “São principalmente, ou exclusivamente, embarcações estatais que estão conseguindo passar”, disse ele, acrescentando que esses navios “parecem ter canais de comunicação e meios para garantir passagem segura de alguma forma”.Pelo menos algumas das embarcações que cruzaram a região fizeram isso na escuridão, com as luzes de bordo desligadas, segundo pessoas com conhecimento das travessias. As tripulações também receberam instruções para não usar o rádio, disse uma das fontes.Aumento no volume de petróleo transportadoAtualmente, cerca de 2 milhões de barris por dia de petróleo e derivados estão saindo do Golfo, de acordo com a Rapidan Energy Group. Esse volume está muito abaixo do normal, mas é significativamente superior ao observado no início do conflito. Esses fluxos, somados à queda das compras chinesas, ao aumento das exportações dos Estados Unidos e a alternativas como oleodutos que cruzam centenas de quilômetros pelo Oriente Médio, ajudaram a reduzir os preços do petróleo em quase 30% em relação ao pico registrado no auge da guerra.As transferências realizadas no fim de semana na costa de Omã foram identificadas por imagens de satélite do sistema Copernicus, da União Europeia. A TankerTrackers.com Inc., que monitora embarcações por meio de imagens de satélite, informou ter identificado 12 navios transportando petróleo de países árabes do Oriente Médio não pertencentes ao Irã realizando transferências fora de Ormuz somente em 6 de junho.“Esse é petróleo vindo dos vizinhos árabes do Irã”, afirmou a TankerTrackers.com. “Mais uma razão pela qual o petróleo não está custando US$ 200 por barril neste momento.”Na terça-feira, o secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, afirmou em uma conferência que o tráfego de petroleiros está “aumentando de forma muito significativa”. Na quarta-feira, Trump também comentou os fluxos que estão saindo da região, acrescentando que eles têm ajudado a conter os preços.“Nós retiramos, na outra noite, 22 navios — tarde da noite, sem luzes, porque eles não têm radar”, disse ele a jornalistas durante uma cerimônia de assinatura de projeto de lei no Salão Oval. “Temos retirado milhões de barris de petróleo. Todas as noites, retiramos petróleo.”Com a perspectiva de maior oferta, o principal referencial de petróleo do Oriente Médio vem caindo gradualmente em direção aos níveis anteriores à guerra. Antes do bloqueio efetivo de Ormuz, o estreito era responsável pela passagem de cerca de um quinto de toda a oferta mundial de petróleo, em um mercado global superior a 100 milhões de barris por dia.Na quarta-feira, Trump prometeu atacar novamente o Irã e criticou o país por atrasar as negociações sobre um acordo de paz provisório, depois que novos ataques durante a noite aumentaram a pressão sobre uma frágil trégua de dois meses. Trump afirmou que a retaliação ocorreu após o Irã derrubar um helicóptero Apache dos Estados Unidos próximo a Ormuz.Outros sinaisHá outros sinais de que mais petróleo está conseguindo deixar a região. Nos últimos dias, tanto o Kuwait quanto os Emirados Árabes Unidos ofereceram petróleo para venda fora de Ormuz, indicando que barris conseguiram atravessar o ponto de estrangulamento. Imagens de satélite mostram um fluxo constante de navios carregando petróleo em terminais dos Emirados nas últimas semanas.Compradores asiáticos estão, em geral, recebendo mais ofertas de petróleo que conseguiu sair da região e esperam novos embarques nos próximos dias e semanas, segundo operadores do mercado que pediram anonimato.Pelo menos dois superpetroleiros, cada um com capacidade para transportar 2 milhões de barris de petróleo bruto, cruzaram Hormuz no fim do mês passado e começaram a transmitir sinais na costa do Kuwait.Ambos são administrados pela Kuwait Oil Tanker Co., segundo o banco de dados marítimo Equasis, e nenhum deles voltou a transmitir sinais desde então. Um armador que pediu anonimato afirmou também ter sido contratado para transportar petróleo transferido de navios kuwaitianos que atravessaram Ormuz. Outras fontes disseram acreditar que o Kuwait garantiu a travessia de mais de dois navios petroleiros de grande porte.A estatal Kuwait Petroleum Corp. recusou-se a comentar.O aumento dos fluxos do Kuwait segue um padrão semelhante ao observado para o petróleo dos Emirados Árabes Unidos. A Abu Dhabi National Oil Co. vendeu pelo menos 14 milhões de barris de petróleo em uma licitação concluída no fim da semana passada, informou a Bloomberg na segunda-feira. O carregamento dessas cargas deve começar ainda neste mês.A ADNOC está entre as empresas que transportaram petróleo através de Ormuz com os transponders desligados para evitar detecção, informou a Bloomberg no mês passado. Segundo duas pessoas familiarizadas com suas operações, a empresa continuou enviando petróleo através do estreito em ritmo saudável nas últimas semanas. As fontes pediram anonimato porque as informações são privadas.Imagens de satélite também indicam que os navios continuaram carregando petróleo em alguns dos principais terminais do país. Um petroleiro foi observado carregando na Ilha de Zirku em seis dos oito dias para os quais havia imagens disponíveis em maio, segundo dados do Copernicus. Antes da guerra, esse terminal tinha capacidade para carregar mais de 1 milhão de barris por dia de petróleo bruto e condensado, segundo a empresa de inteligência de mercado Kpler.A ADNOC não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.Antes de algumas das travessias mais recentes, cerca de um quarto dos grandes petroleiros não iranianos presos dentro do Golfo Pérsico havia conseguido escapar, mostravam dados de transporte marítimo no fim de maio. Cerca de 90 embarcações ainda permanecem retidas, em comparação com aproximadamente 160 no início de abril, segundo Georgios Sakellariou, analista de fretes da empresa de gestão de frotas Signal Maritime.“O fluxo de travessias sem rastreamento aumentou”, afirmou ele. “Isso fica visível na redução do volume de petróleo retido dentro do Golfo, embora ainda não seja suficiente para retornar aos níveis observados antes da guerra.”The post Petroleiros desligam rastreamento para tentar transportar mais barris por Ormuz appeared first on InfoMoney.
