A Bolsa brasileira voltou a sofrer com a retirada de capital estrangeiro e registrou, em maio, o pior fluxo mensal desde 2022, segundo relatório do JPMorgan. De acordo com o banco, os investidores externos sacaram R$ 14,9 bilhões do mercado secundário no mês, movimento que continuou em junho, com saída adicional de US$ 1,8 bilhão até o dia 8.O banco destaca que, desde 15 de abril, houve resgates em praticamente todos os pregões, com exceção de apenas três sessões — uma sequência negativa rara, vista antes de forma mais marcante apenas em 2008. Desde meados de abril, as retiradas já equivalem a cerca de 50% de toda a entrada líquida observada no ano.Ainda assim, o saldo acumulado de 2026 segue positivo. Até o início de junho, o fluxo estrangeiro para ações brasileiras somava R$ 34,2 bilhões, ou US$ 6,6 bilhões, o segundo melhor desempenho da série histórica para o período, segundo o JPMorgan. A reversão recente, porém, levanta dúvidas sobre a sustentabilidade desse resultado.Na avaliação do banco, a piora no fluxo reflete uma combinação de fatores externos e domésticos. No cenário global, o fim da fraqueza do dólar e a alta dos rendimentos dos Treasuries reduziram o apetite por ativos de risco. Ao mesmo tempo, o retorno da chamada “trade de IA e tecnologia” voltou a concentrar recursos em mercados mais expostos ao setor, como Estados Unidos, Coreia do Sul e Taiwan, em detrimento de bolsas ligadas a commodities e mais dependentes do ciclo externo, como a brasileira.No front doméstico, o JPMorgan vê um ambiente menos favorável para os ativos locais diante da perspectiva de um ciclo de cortes de juros mais limitado e da manutenção de taxas elevadas por mais tempo. Leia tambémApós ânimo com acordo EUA-Irã próximo, Ibovespa voltará a subir de vez?Analistas têm cautela, uma vez que há outros fatores que não estão animando mercado domésticoO banco também cita o avanço do calendário eleitoral como um fator de cautela. Segundo o relatório, pesquisas recentes mostrando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva à frente de Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno funcionam como obstáculo adicional para uma recuperação mais consistente dos preços dos ativos.O diagnóstico do banco é que, por ora, tem sido difícil encontrar um catalisador claro para uma retomada do mercado brasileiro. Entre os poucos possíveis alívios, o JPMorgan menciona o eventual aumento do apetite global por risco com o fim da guerra no Irã e uma possível rodada de estímulos na China, que poderia beneficiar segmentos emergentes fora do universo de tecnologia. Ainda assim, a instituição pondera que, historicamente, o Brasil costuma ter desempenho mais fraco em períodos eleitorais — padrão observado nas últimas seis eleições.No mercado local de fundos, o comportamento dos investidores seguiu desigual. A indústria de fundos como um todo captou R$ 10,3 bilhões em maio, revertendo a saída registrada no mês anterior. O principal motor dessa recuperação foram os fundos de renda fixa, que tiveram ingresso líquido de R$ 10 bilhões no mês e acumulam captação de R$ 120,3 bilhões no ano.Já os fundos dedicados a ações continuam sob pressão. Em maio, o segmento registrou resgate de R$ 150 milhões, levando a saída acumulada em 2026 para R$ 5,6 bilhões. A alocação em ações dentro do patrimônio total da indústria caiu para 7,95%, nível praticamente estável desde o segundo semestre de 2025, mas ainda bem abaixo da média histórica de 11%.Leia tambémIbovespa Hoje Ao Vivo: Bolsa oscila com IPCA, guerra e SpaceX em focoBolsas dos EUA operam mistas com esperanças de acordo com o Irã e em dia de IPO da SpaceX Os multimercados também mostraram fraqueza. Em maio, esses fundos tiveram saída líquida de R$ 6,4 bilhões, aprofundando a tendência de resgates iniciada em fevereiro. Mesmo assim, no acumulado do ano, o saldo ainda permanece positivo em R$ 1,4 bilhão.Para o JPMorgan, o pano de fundo continua desafiador para a Bolsa brasileira. Embora as ações negociem a múltiplos considerados baratos e o posicionamento dos investidores esteja leve, o banco avalia que esses fatores, sozinhos, não têm sido suficientes para reverter a deterioração recente dos fluxos. A leitura é de que, sem melhora relevante do ambiente global ou mudança na percepção sobre o cenário político doméstico, o mercado brasileiro deve seguir enfrentando dificuldade para atrair capital de forma mais consistente.The post Fluxo estrangeiro negativo domina B3 – e JPMorgan vê pouco alívio no curto prazo appeared first on InfoMoney.
