Riscos do álcool à saúde aumentam após uma dose por dia, aponta estudo

Blog

Um estudo do governo dos Estados Unidos publicado nesta terça-feira (12) concluiu que os riscos à saúde ligados ao consumo de álcool começam já a partir de uma dose por dia. O relatório virou alvo de controvérsia depois de provocar reação da indústria de bebidas alcoólicas.Segundo os pesquisadores, com uma dose diária já há aumento no risco de morte prematura por doença ou lesão diretamente atribuída ao álcool, embora o patamar ainda seja baixo: 1 em cada 1.000 pessoas. Esse risco, porém, salta para 1 em 25 entre aqueles que consomem duas doses por dia — um nível que durante muito tempo foi considerado seguro para homens, de acordo com o estudo publicado no Journal of Studies on Alcohol and Drugs.O Alcohol Intake and Health Study (Estudo sobre Consumo de Álcool e Saúde) foi um dos dois relatórios encomendados durante o governo Biden para embasar a atualização das diretrizes alimentares dos EUA.O segundo relatório, elaborado por um painel indicado pelas Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos (NASEM, na sigla em inglês), chegou a conclusões bem diferentes. O documento sugeriu que o consumo moderado — de até duas doses por dia para homens e uma para mulheres — seria mais saudável do que não beber, embora também tenha apontado associação entre ingestão moderada de álcool e maior risco de câncer de mama. Alguns integrantes desse painel tinham vínculos financeiros com a indústria do álcool.A conclusão do segundo relatório foi mais palatável para o setor, que classificou o Alcohol Intake and Health Study como ideologicamente orientado e cientificamente falho, além de afirmar que vinha manifestando essas preocupações a autoridades do governo havia anos.Leia tambémFacebook e Instagram caíram? Redes da Meta ficam fora do ar para milhares de usuáriosComo os números do Downdetector se baseiam em ​relatos enviados pelos usuários, o número real de ​usuários ⁠afetados pode variarEntrada da SpaceX na bolsa transformará 4.400 funcionários da empresa em milionáriosMuitos acumularam ações ao longo dos anos como parte da remuneração e mantiveram suas participações apesar dos riscos e incertezasQuando o governo Trump publicou as novas diretrizes alimentares, em janeiro, recomendou que os americanos bebessem menos para preservar a saúde, mas retirou qualquer referência a limites diários — uma mudança em relação às versões anteriores.“As novas diretrizes dizem que beber menos é melhor para a saúde, mas não explicam o que significa beber menos”, disse Priscilla Martinez-Matyszczyk, uma das autoras do novo estudo e diretora científica adjunta do grupo de pesquisa sobre álcool do instituto sem fins lucrativos Public Health Institute. “Este artigo faz isso e afirma que o melhor para a saúde é não ultrapassar uma dose por dia, e que beber acima disso traz riscos relevantes.”Uma dose-padrão é definida como 355 ml de cerveja comum, 150 ml de vinho ou 45 ml de destilado.Em editorial que acompanha o estudo, Robert M. Vincent, ex-integrante do governo que encomendou a pesquisa, disse acreditar que foi demitido porque o relatório produziu evidências “contrárias a interesses comerciais”. Vincent perdeu o cargo de administrador associado para políticas de prevenção e tratamento do álcool na Administração de Serviços de Saúde Mental e Abuso de Substâncias durante um corte de pessoal no ano passado.“Isso ia custar dinheiro para a indústria do álcool”, afirmou Vincent. “Eles não gostaram da mudança de duas para uma dose para homens, nem da menção ao câncer.”Segundo ele, no fim, as conclusões acabaram deixadas de lado e a divulgação do estudo foi travada. Diante disso, os autores decidiram publicar uma versão da pesquisa de forma independente em uma revista científica revisada por pares.Um porta-voz do Departamento de Saúde e Serviços Humanos não respondeu a pedido de comentário sobre a declaração de Vincent a respeito de sua demissão, mas disse que “qualquer caracterização de que o estudo foi engavetado é imprecisa”.O novo estudo, baseado exclusivamente em dados de saúde dos EUA, avaliou a relação entre o consumo médio de álcool e o risco de doença ou morte por causas diretamente atribuídas à bebida.Mulheres que consumiam uma dose por dia apresentavam maior probabilidade de morrer de câncer de fígado ou de mama do que aquelas que não bebiam. Já com uma dose diária, homens e mulheres também tinham risco maior de morrer de cirrose, câncer de boca e esôfago, além de lesões, segundo o trabalho. Os riscos aumentavam à medida que o consumo subia.Consumir mais de uma dose por ocasião esteve associado a riscos progressivamente maiores de câncer de mama, doença cardiovascular e lesões.O relatório também apontou que uma dose por dia estava ligada a menor risco de diabetes entre mulheres e menor risco de AVC entre homens e mulheres. Mas episódios ocasionais de consumo excessivo anulavam esse possível efeito protetor contra AVC.Uma das razões para os dois estudos terem chegado a conclusões tão diferentes é que o novo trabalho analisou mortes por causas diretamente atribuíveis ao álcool, enquanto o relatório da NASEM, encomendado pelo Congresso, observou taxas gerais de mortalidade entre bebedores moderados, incluindo mortes sem relação causal com o álcool.Críticos do relatório da NASEM dizem que pessoas que bebem moderadamente costumam ter outros hábitos saudáveis que também contribuem para a longevidade. Além disso, o grupo de bebedores moderados incluía muitas pessoas que consumiam menos de duas doses por dia. Esses dois fatores podem fazer com que os efeitos do consumo moderado pareçam menos relevantes do que realmente são.Ned Calonge, epidemiologista da Universidade do Colorado Anschutz Medical Campus e líder do estudo da NASEM, disse que mantém as conclusões do painel.“A pesquisa sobre álcool é complexa, e não me surpreende que métodos diferentes produzam resultados diferentes”, afirmou Calonge, acrescentando que estudos de modelagem como o Alcohol Intake and Health Study, que usam dados para estimar o risco ao longo da vida de doenças e mortes causadas pelo álcool, também estão sujeitos a vieses.Ao mesmo tempo, ele acrescentou: “Não acredito que ninguém deva começar a beber por razões de saúde”.c.2026 The New York Times CompanyThe post Riscos do álcool à saúde aumentam após uma dose por dia, aponta estudo appeared first on InfoMoney.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *