O envelhecimento do parque imobiliário brasileiro está criando uma nova frente de expansão para o mercado financeiro: o crédito voltado exclusivamente para condomínios. Pressionados por obras obrigatórias de manutenção, modernização tecnológica, adequações regulatórias e investimentos em sustentabilidade, síndicos e administradoras passaram a buscar alternativas para financiar projetos que antes dependiam exclusivamente de cotas extras dos moradores.A tendência acompanha um movimento mais amplo do mercado imobiliário, marcado pelo avanço do retrofit, assim como a revitalização de edifícios antigos e busca por soluções que aumentem a eficiência operacional e valorizem os imóveis.“O condomínio brasileiro ficou mais complexo. Os prédios envelheceram, as exigências regulatórias aumentaram e os custos das obras cresceram muito. Em muitos casos, a alternativa acaba sendo uma cota extra muito elevada, que pressiona a inadimplência e dificulta a aprovação dos projetos”, afirma Ricardo Chalfin, fundador da Wind Capital, A empresa especializada em crédito para esse segmento já concede financiamentos por meio de Cédulas de Crédito Bancário (CCB), permitindo que condomínios transformem despesas extraordinárias de grande porte em parcelamentos de longo prazo, em alguns casos de até 84 meses. O objetivo é evitar desembolsos imediatos elevados e viabilizar investimentos que frequentemente acabam adiados por falta de recursos.Segundo Chalfin, os financiamentos começam em aproximadamente R$ 100 mil, mas os projetos mais frequentes envolvem valores significativamente superiores. Em obras estruturais, retrofit e modernização predial, as operações podem ultrapassar R$ 1 milhão. A companhia já atendeu mais de 1.200 condomínios e financiou cerca de 780 obras em todo o país. Somente nos primeiros cinco meses deste ano, a empresa originou cerca de R$ 30 milhões em crédito. Desde o início da operação, o volume acumulado alcançou aproximadamente R$ 50 milhões, seja para financiamentos para reformas estruturais, impermeabilização, modernização elétrica, troca de elevadores, implantação de energia solar e digitalização de serviços.Leia também: Ele foi chamado de “o pior analista” do Goldman Sachs e virou bilionário dos imóveisInvestimentos para modernizaçãoA necessidade de investimentos não está restrita aos condomínios mais antigos. Segundo Chalfin, o mercado atende empreendimentos residenciais e comerciais de diferentes portes, incluindo edifícios novos que precisam adaptar sua infraestrutura para novas demandas tecnológicas e ambientais.Entre os projetos que mais crescem estão instalações de energia solar, sistemas de eficiência energética e adequações para carregamento de veículos elétricos. “A adaptação para receber veículos elétricos já é uma realidade em muitos condomínios. Isso exige investimentos não apenas nos carregadores, mas principalmente na infraestrutura elétrica necessária para garantir segurança aos moradores”, explica.Corte de custosOutro segmento que tem demandado crédito é a substituição de portarias físicas por sistemas remotos e digitais. Em muitos edifícios, especialmente nos grandes centros urbanos, os gastos com mão de obra representam uma parcela significativa das despesas mensais. A migração para modelos digitais costuma exigir investimentos iniciais relevantes e, em muitos casos, o pagamento de verbas rescisórias elevadas.Há operações em que os custos trabalhistas ultrapassaram R$ 600 mil apenas para viabilizar a mudança do modelo operacional. Segundo a empresa, os financiamentos também vêm sendo utilizados para cobrir passivos trabalhistas, demissões coletivas e reestruturações administrativas.PlanejamentoCom tantas demandas, o crédito para condomínios passou a ser visto não apenas como uma alternativa emergencial, mas como instrumento de planejamento financeiro. Em vez de acumular recursos durante anos, enquanto a inflação encarece materiais e mão de obra, muitos condomínios optam por realizar a obra imediatamente e diluir os custos ao longo do tempo. Essa lógica vem sendo adotada em projetos de energia solar, troca de elevadores e recuperação estrutural dos edifícios.Mas o especialista alega que a contratação normalmente exige análise financeira do condomínio, aprovação em assembleia e apresentação da documentação contábil e jurídica do empreendimento. Mesmo assim, ele acredita que a demanda deve continuar avançando nos próximos anos.Leia Mais: Aluguel sobe acima da inflação e reforça pressão no mercado residencialMercado pouco exploradoO Brasil reúne hoje milhões de unidades condominiais construídas há décadas, muitas delas exigindo investimentos em manutenção, segurança, acessibilidade e eficiência energética. “O crédito para condomínios ainda é um mercado pouco explorado no Brasil. Mas à medida que os edifícios envelhecem e as necessidades de investimento aumentam, ele tende a se tornar uma ferramenta cada vez mais importante para a preservação e valorização do patrimônio imobiliário”, afirma Chalfin.Algumas cidades brasileiras, como as capitais paulista e carioca, estão apostando em programas como o “Requalifica Centro”, em São Paulo, que dá descontos no IPTU durante as obras e facilita a renegociação de dívidas antigas dos imóveis. Já o “Reviver Centro”, do Rio, tem isenção de IPTU e ITBI, e outros benefícios fiscais para conversão de prédios comerciais em habitação social. Hoje São Paulo e Rio concentram 86% dos retrofits do País. O crescimento das cidades e a falta de terrenos nas áreas centrais tornam as reformas e atualizações uma saída para se ofertar mais moradias com o reaproveitamento de edificações antigas e subutilizadas.Uma pesquisa do banco Santander e da consultoria Bain, por exemplo, indicou que existem 59 empreendimentos do gênero em cinco capitais analisadas: São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Salvador e Fortaleza. O número é considerado ainda uma fração do mercado imobiliário, mas representa um avanço em relação à época anterior aos programas de incentivo, quando a quantidade de retrofits podia ser contada nos dedos.The post Parque imobiliário brasileiro envelhece e impulsiona crédito para condomínios appeared first on InfoMoney.
