Reino Unido ainda faz as contas do Brexit, 10 anos depois

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LONDRES — Pouco antes do referendo histórico sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, há 10 anos, o governo da época fez um alerta duro. Um voto pela saída do bloco causaria “um choque imediato e profundo” na economia. Por margem apertada, os britânicos decidiram sair mesmo assim.Os alertas econômicos estavam errados — mas apenas no timing.Economistas afirmam que o Brexit prejudicou a economia britânica, e os custos foram se acumulando ao longo da última década, superando com folga quaisquer benefícios. Mais visivelmente, o Brexit também desencadeou uma onda de instabilidade política: o país deve ter em breve seu sétimo primeiro-ministro desde o plebiscito de 23 de junho de 2016, depois de Keir Starmer anunciar sua renúncia na segunda-feira.Leia tambémGianni Infantino: o homem que está “Trumpificando” a FifaRelacionamento entre presidente da entidade máxima do futebol e líder americano se aprofundou nos anos anteriores à Copa do MundoAnálise: O trilhão de dólares de Elon Musk não é real — e esse é justamente o pontoA fortuna do megaempresário deve ser vista menos como dinheiro disponível e mais como uma aposta do mercado no sucesso futuro de suas empresasA turbulência alimentou um sentimento de arrependimento. Em uma pesquisa recente, quase metade dos britânicos disse que o Brexit saiu pior do que o esperado, uma alta acentuada em relação a cinco anos atrás. Outro levantamento mostrou que pouco mais da metade apoiaria a volta à União Europeia.É difícil medir com precisão o custo do Brexit, diante de outros choques sofridos pela economia britânica desde o referendo, como a pandemia de covid-19, as tarifas do presidente Donald Trump e as guerras na Ucrânia e no Irã. Eis o que mostram relatórios recentes sobre o impacto econômico da saída do bloco.A economia ficou menor do que poderia ter sidoEm 2016, o governo britânico partia do princípio de que um voto pela saída significaria uma ruptura imediata dos laços comerciais do país com os outros 27 membros da União Europeia. Na prática, houve anos de negociação. O Reino Unido só deixou oficialmente o bloco no fim de janeiro de 2020 e, ainda assim, passou por um período de transição de 11 meses. Isso embaralhou os efeitos econômicos, porque as regras de comércio só mudaram de fato em 2021 — quatro anos e meio depois da votação.A pandemia, a crise energética e outros choques tornaram difícil para os economistas separar o efeito específico do Brexit sobre a economia. Ainda assim, muitos tentaram. Um estudo bastante citado, liderado por Nicholas Bloom, professor de Stanford, estimou que o Brexit reduziu o PIB do Reino Unido em até 8%, “com o impacto se acumulando gradualmente ao longo do tempo”.Embora outros economistas contestem a metodologia desse trabalho, há um consenso mais amplo de que a economia britânica hoje é de 4% a 6% menor do que seria se o país tivesse permanecido na União Europeia — uma perda relevante de produção. Isso significa menos arrecadação tributária para bancar gastos públicos e uma melhora mais lenta no padrão de vida da população.O Office for Budget Responsibility, órgão independente que monitora as contas públicas do Reino Unido, estima que o Brexit reduzirá a produtividade de longo prazo do país em 4% — um problema relevante para uma economia que já vinha perdendo fôlego desde a crise financeira global.Novos acordos comerciais não compensaram as perdasA maior parte do custo econômico veio do aumento do atrito comercial com um mercado de 450 milhões de pessoas logo ao lado do Reino Unido.O acordo comercial firmado em 2021 manteve as tarifas majoritariamente em zero, mas elevou outras barreiras ao comércio ao introduzir mais papelada, fiscalização de fronteira e novas regras. Segundo o Centre for European Reform (CER), grupo de pesquisa, o Brexit reduziu as exportações britânicas de bens e serviços para a União Europeia em cerca de 12% e as importações vindas do bloco em cerca de 16%.As exportações agrícolas e de alimentos foram especialmente atingidas, com queda próxima de 30%, segundo o CER. Em alguns casos, como o dos produtores de frutos do mar, as inspeções extras nas fronteiras tornaram as exportações inviáveis. Muitas pequenas empresas, em especial, reduziram os esforços para conquistar clientes europeus por causa do aumento de tempo e de custo.O comércio de serviços do Reino Unido teve desempenho melhor. Mas a maioria dos economistas atribui isso à pandemia, que elevou a demanda por serviços — especialmente os prestados online. Prestadores de serviços já consolidados no país, como consultorias e escritórios de advocacia, acabaram se beneficiando.O Brexit deu ao Reino Unido liberdade para negociar seus próprios acordos comerciais, substituindo tratados antes definidos pela União Europeia. Mas, embora o país tenha assinado desde então 39 acordos cobrindo 72 países, isso não compensou a perda de comércio com o bloco europeu.Apesar dos custos e obstáculos adicionais, a Europa continua sendo, com folga, o maior parceiro comercial do Reino Unido, respondendo por mais de 40% do comércio do país — apenas ligeiramente abaixo do nível anterior ao referendo. Em suas projeções regulares, o Office for Budget Responsibility simplesmente assume que novos acordos com países de fora da União Europeia “não terão impacto material”.Empresas ainda sentem os efeitosUm dos primeiros e maiores efeitos econômicos do Brexit foi o congelamento do investimento empresarial, à medida que as companhias recuaram diante da incerteza provocada pelas longas negociações comerciais e pela instabilidade política.Mais tarde, o investimento voltou a crescer, mas em ritmo menor do que poderia ter sido, dizem economistas. O National Institute of Economic and Social Research, think tank independente, afirmou recentemente que a incerteza gerada pelo Brexit reduziu o investimento empresarial de longo prazo em cerca de 4%.Alguém saiu ganhando? “As profissões e setores que se beneficiam são consultores, advogados e provavelmente despachantes aduaneiros”, disse Anton Spisak, pesquisador sênior do Centre for European Reform. No conjunto, porém, o Brexit teve um “efeito muito negativo” sobre a economia, afirmou.Um dos maiores impactos foi sobre a migração. Em vez de reduzir a imigração, como defendiam muitos apoiadores do Brexit, houve uma forte entrada de pessoas de países fora da União Europeia. Elas enfrentam exigências diferentes de visto e trazem perfis profissionais distintos, remodelando o mercado de trabalho.Setores como hotelaria, processamento de alimentos, saúde e assistência social passaram a enfrentar custos extras e disrupções depois de perder sua base tradicional de trabalhadores.“Estamos apenas começando a entender como essa mudança profunda nos padrões de imigração do Reino Unido pós-Brexit vai se desenrolar”, disse Sarah Hall, geógrafa econômica da Universidade de Cambridge e diretora-adjunta da U.K. in a Changing Europe, um think tank.Londres segue como centro financeiro europeuEm 2016, o setor financeiro se opôs com força ao Brexit, que ameaçava o papel de Londres como porta de entrada para a Europa. Uma década depois, a cidade manteve sua posição como maior centro financeiro do continente.Nenhuma outra cidade europeia se consolidou como destino preferencial do setor, disse Hall. Ainda assim, Londres perdeu partes relevantes de seus negócios, como uma fatia das negociações de ações para Amsterdã e parte da gestão de ativos para Dublin.Foi “como um pneu esvaziando devagar”, disse Hall. Em vez de uma mudança abrupta, houve “uma série de transferências e agora, cada vez mais, novas vagas que simplesmente deixam de ser abertas em Londres”.E os próximos 10 anos?Com a economia britânica pressionada por inflação persistente, dívida elevada e custo maior de financiamento, a ideia de reverter parte dos efeitos do Brexit ficou mais atraente. O favorito para se tornar o próximo primeiro-ministro, Andy Burnham, classificou o Brexit como “prejudicial”.No ano passado, o governo Starmer realizou uma cúpula com líderes europeus para “resetar” a relação. Mas, mais de um ano depois, o avanço tem sido lento. Outra cúpula, marcada para o mês que vem, foi adiada pelos europeus após a renúncia de Starmer.Embora queira uma relação mais próxima com a União Europeia, o Partido Trabalhista descartou o retorno ao mercado único e à união aduaneira, além de rejeitar a volta da livre circulação de pessoas. Analistas também afirmam que há pouco interesse em Bruxelas em renegociar de forma profunda com o Reino Unido.“Muita coisa pode mudar na próxima década”, disse Spisak, do Centre for European Reform. Mas ele não espera mudanças relevantes nos próximos dois ou três anos, antes da próxima eleição geral.Assim, os custos devem continuar se acumulando — e o maior deles talvez seja justamente o mais difícil de medir, disse Spisak.“O custo mais importante do Brexit é o custo de oportunidade”, afirmou. “Ou seja, tudo o que deixou de acontecer por causa do Brexit.”c.2026 The New York Times CompanyThe post Reino Unido ainda faz as contas do Brexit, 10 anos depois appeared first on InfoMoney.

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