Spreads recuam e resgates esfriam: é hora de voltar ao crédito privado?

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Depois de abrirem entre março e abril, os spreads do crédito privado voltaram a recuar e os resgates em fundos perderam força em junho, num movimento que reacende uma dúvida frequente entre investidores pessoa física. Com a Selic ainda acima de 14% ao ano sustentando retornos nominais altos, mas com prêmios de novo apertados, a pergunta que fica é se vale a pena entrar agora na classe e, sobretudo, como montar a alocação sem correr riscos desnecessários.O spread médio das debêntures atreladas ao CDI opera relativamente estável em junho, em CDI+1,36%, depois de uma compressão de 21 pontos-base em maio, observa o BTG Pactual em relatório. Nas debêntures incentivadas, ligadas ao IPCA e mais presentes na carteira da pessoa física, o prêmio do índice de infraestrutura recuou para 33 pontos-base sobre a NTN-B em 22 de junho, revertendo parte da abertura que havia chegado a um pico de 51 pontos-base em meados de maio.O alívio também aparece nos resgates. Amostra de cerca de 1.100 fundos de crédito acompanhada pelo banco soma saques de R$ 85 bilhões no ano, mas o ritmo vem caindo, de R$ 31 bilhões em abril para R$ 4,6 bilhões na parcial de junho. Com o fechamento dos spreads, esses fundos voltaram a render acima do referencial, com retorno de 114% do CDI em maio, o que tende a arrefecer a saída de recursos.Leia também: Tesouro Direto: taxa amplia queda após IPCA-15 abaixo do esperadoPor que taxa segue atrativaO atrativo da classe está no carrego. Com a taxa básica acima de 14% há 15 meses, os papéis privados entregam retornos nominais elevados. A mesma taxa, porém, pesa sobre os emissores, porque eleva o custo de rolar dívida. Pela conta da Tivio Capital, uma emissão a CDI mais 2% hoje equivale a um custo nominal entre 17% e 18% ao ano.“É preciso ter uma margem muito boa para ganhar dinheiro pagando uma dívida que chega a quase 20% ao ano”, diz Sami Karlik, head de crédito privado e estruturado da Tivio. A leitura é compartilhada por Alexandre Fernandes, gestor de crédito da Paramis Avantgarde, para quem suportar esse nível de juro por muitos meses é “um desafio complexo para a maioria das empresas”.Apesar do alerta, os gestores não esperam novos eventos de crédito capazes de contaminar o mercado, como ocorreu com a Americanas em 2023 e, mais recentemente, com nomes como Raízen e GPA. A avaliação é de que as empresas que mostram fragilidade agora já vinham sinalizando necessidade de capital ou de alongamento de dívida.Leia também: BC: chance de estouro do teto da meta de inflação em 2026 é de 79%Prêmio baixo pede mais seletividadeA acomodação dos spreads tem um efeito menos óbvio para quem está começando, porque prêmio baixo significa menos margem de erro. A média esconde uma dispersão grande, já que papéis de empresas defensivas operam em níveis muito comprimidos enquanto setores cíclicos, como varejo e parte da saúde, seguem mais pressionados.Olhando para frente, nem Karlik nem Fernandes apostam em ganho expressivo com o fechamento de spread, e enxergam o retorno vindo principalmente do carrego das carteiras. Esse diagnóstico explica a decisão da Tivio de encurtar prazos e sair de papéis longos mal remunerados. “Um papel de sete anos a CDI abaixo de 1% não faz sentido”, afirma Karlik. A cautela aparece também no caixa, com a gestora operando entre 25% e 30% das carteiras em liquidez, acima da média histórica.Onde os gestores enxergam oportunidadeCom o mercado primário ainda travado, o foco migrou para o secundário. A Tivio tem privilegiado crédito bancário de instituições sólidas, papéis high grade mais defensivos de setores com receita previsível, como saneamento e energia, e vem ampliando posições em FIDCs.A Paramis enxerga mais valor nos estruturados, com operações de CRI que pagam CDI mais 4% com garantias robustas, além de teses mais sofisticadas, como um FIDC que compra dívidas inadimplidas do agronegócio. Já no ASA, a leitura é mais construtiva para os ativos atrelados ao IPCA, com destaque para as debêntures de infraestrutura e os fundos de infraestrutura, ajudados pelas NTN-Bs em patamar elevado e pela isenção fiscal. Como o investidor brasileiro tende a se concentrar no pós-fixado, a volatilidade dos papéis de inflação costuma surpreender quem não está acostumado.Como diversificarA escolha do papel certo importa, mas a forma de distribuir o risco também. Em estudo recente, a XP defende que diversificar uma carteira de crédito não se resume a somar emissores, porque uma carteira pode ter vinte nomes e ainda carregar metade do patrimônio em um único setor.O raciocínio da casa parte de três camadas. A primeira é o indexador, com a recomendação de combinar CDI, IPCA e prefixado em vez de concentrar tudo em um só. A segunda é o peso por nome, em que o mercado costuma trabalhar com um limite de 3% a 5% por emissor, e a conta de severidade da XP, calibrada por eventos recentes, aponta para algo próximo de 4%. A terceira é o teto por setor, já que empresas de um mesmo segmento tendem a sofrer juntas quando o ambiente piora. Vale a pena entrar agora?A resposta dos gestores é condicional. Como acompanhar papel por papel requer muita especialização, a XP recomenda exposição via fundos de crédito. Para Karlik, o momento é atrativo desde que o investidor esteja em uma gestora que acompanhe os papéis de perto. Fernandes prega disciplina e defende comprar uma tese de longo prazo sem se prender à oscilação diária, já que considera mais difícil entregar retorno consistente acima do CDI com o juro nesse patamar. “Com o CDI a 14%, é prudente entregar um prêmio menor, para errar menos”, afirma o gestor da Paramis.The post Spreads recuam e resgates esfriam: é hora de voltar ao crédito privado? appeared first on InfoMoney.

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