“Imposto da memória”: como fabricante de chips pode mudar a forma de precificar a IA

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O resultado explosivo da Micron no trimestre não foi só mais um balanço acima do esperado. Foi um ponto de inflexão na forma como Wall Street pode passar a precificar o mercado de memória — e talvez até todo o setor de semicondutores — nos próximos anos.Os pessimistas já vinham ganhando espaço ao longo da semana.As ações de empresas de chips na Coreia do Sul oscilaram, enquanto cresciam nos fundos e nas mesas de operação os rumores de que a demanda por inteligência artificial poderia estar perto do pico. Depois de uma arrancada quase sem pausa, o setor de tecnologia começava a dar sinais de lotação — como um teatro cheio em que alguém aponta, discretamente, para a porta de saída.Aí, depois do fechamento do mercado na terça-feira, veio o balanço da Micron — e o público voltou correndo para dentro.Leia tambémMicron dispara após resultados e contratos bilionários redefinirem setor de memóriaA Micron é uma das principais fornecedoras de memória para servidores que utilizam chips de IA da Nvidia, e se beneficia diretamente da expansão desse mercadoPerdas de megacaps de tecnologia compensam ganhos da Micron e Nasdaq caiA Apple caía 4,8%, enquanto a Nvidia, a Microsoft e a Alphabet registravam quedas entre 1,5% e 2,7%A companhia reportou receita de US$ 41,5 bilhões, margem bruta de 84,9% e lucro por ação de US$ 25,11. Tudo muito acima do que Wall Street projetava: o consenso era de US$ 35,9 bilhões em receita e US$ 20,86 por ação. Mas o que mais chamou atenção foi o guidance. A Micron disse esperar US$ 50 bilhões em receita no próximo trimestre, cerca de US$ 6,5 bilhões acima do que os analistas estimavam, em US$ 43,6 bilhões. A ação, que fechou a terça a US$ 1.048,51, disparou no after market e puxou junto nomes como Nvidia, AMD e boa parte do setor de semicondutores.“Os investidores de tecnologia vão respirar aliviados e ficar em um humor bem mais positivo”, escreveu Dan Ives, da Wedbush Securities, em nota a clientes. No estilo sempre empolgado que o caracteriza, ele chamou o resultado de “trimestre de largar o microfone”.Só que, para alguns analistas, o balanço pode significar bem mais do que isso. No meio da teleconferência e das notas publicadas depois do resultado, apareceu algo que pode mudar a forma como o mercado enxerga os chips de memória — e talvez toda a tese de infraestrutura para IA — por muitos anos.A máquina que engoliu o data centerPara entender o que a Micron mostrou na terça à noite, é preciso olhar para o que aconteceu com o mercado de memória nos últimos dois anos.Os chips de memória — como DRAM e NAND, usados para armazenar e transferir dados em computadores e servidores — sempre foram o pedaço mais cíclico e volátil da indústria de semicondutores. O roteiro era conhecido: preços sobem, fabricantes investem demais, a oferta cresce, os preços despencam, os investimentos recuam e o ciclo começa de novo. Durante muito tempo, investir em empresas desse segmento parecia menos apostar em tecnologia e mais tentar adivinhar o clima.A inteligência artificial não quebrou esse ciclo, mas mudou bastante a dinâmica.A explosão dos grandes modelos de linguagem e da infraestrutura de IA criou um tipo de demanda por memória muito diferente do que existia antes. A HBM (High-Bandwidth Memory) — memória avançada que fica acoplada a aceleradores de IA, como os chips Blackwell da Nvidia — não pode ser produzida rapidamente só com mais dinheiro. A construção de fábricas leva anos, o processo é extremamente complexo e a oferta de mão de obra é limitada.O resultado é que a demanda por memória hoje roda bem à frente da oferta — e a Micron diz que esse desequilíbrio deve continuar além de 2027. Na terça, a empresa reforçou essa visão e afirmou que ainda não há uma linha clara de quando a oferta vai conseguir alcançar a demanda.“A empresa diz que, à medida que o mercado de IA cresce, a intensidade de memória também aumenta e a memória se torna um componente estratégico — e essa mudança ainda está no começo”, escreveu o analista da Jefferies em Tóquio, Masahiro Nakanomyo, em nota a clientes institucionais.Os números corroboram essa leitura. A receita com DRAM somou US$ 31,3 bilhões, alta de 67% na comparação trimestral, respondendo por 76% das vendas totais da companhia. Os preços médios da DRAM subiram cerca de 60% no trimestre, enquanto a receita da área central de data centers — a mais ligada à infraestrutura de IA — mais do que dobrou na comparação trimestral, para US$ 11,5 bilhões, salto de 653% em relação ao ano anterior.“Não vemos nenhuma rachadura na demanda por IA, seja em chips, hardware ou software”, escreveu Ives. “Isso nos dá sinal verde para seguir posicionados nos principais vencedores de tecnologia até o fim do ano.” Em outras palavras: que bolha de IA?Os contratos que mudaram o jogoMas os números, por si só, quase ficaram em segundo plano diante de um anúncio estrutural feito pela empresa.A Micron revelou que já assinou 16 Strategic Customer Agreements (SCAs) com clientes que vão de quatro grandes hyperscalers a empresas médias de tecnologia e nove fornecedores menores do setor automotivo. Não são memorandos vagos ou cartas de intenção. São contratos de cinco anos, no modelo take-or-pay, válidos de 2026 a 2030, com compromissos obrigatórios de volume e regras rígidas de preço. Se o cliente desistir, não recebe o dinheiro de volta: a Micron já levantou US$ 18 bilhões em depósitos e US$ 4 bilhões em cartas de crédito, totalizando US$ 22 bilhões em garantias financeiras.Esses contratos têm um teto e um piso. O teto acompanha os preços atuais de mercado — mais ou menos os níveis da DRAM no segundo trimestre-calendário de 2026. Já o piso foi fixado em um patamar que, segundo a empresa, geraria margens brutas acima do melhor resultado que a Micron já teve em qualquer ciclo anterior da indústria — um pico histórico na faixa de pouco mais de 60%.Ou seja: no pior cenário previsto nesses contratos, a rentabilidade ainda seria melhor do que o melhor momento da companhia em ciclos passados.“O teto histórico virou o novo piso”, resumiu Brian Chin, analista da Stifel.Para Wall Street, isso se aproximou de uma mudança de regime. Historicamente, empresas de memória negociaram com múltiplos baixos justamente porque os lucros eram imprevisíveis. Os SCAs introduzem, pela primeira vez em grande escala, um piso contratual para os resultados de vários anos. O velho modelo de boom e bust que definiu o setor por décadas talvez não tenha desaparecido, mas certamente mudou.Chin classificou o movimento como uma “evidência concreta de mudança de paradigma” que “pode suavizar as quedas que marcaram os ciclos anteriores”.O “imposto da memória”Nem todo mundo, porém, comprou a tese sem ponderações.Vivek Arya, principal analista de semicondutores do Bank of America, manteve recomendação de compra e elevou o preço-alvo da ação para US$ 1.550, o maior entre os grandes bancos. Mas ele trouxe um conceito importante: o “imposto da memória”.Hoje, segundo Arya, a memória responde por cerca de 35% dos investimentos em infraestrutura de IA. Com a alta dos preços, a Micron e suas rivais viraram uma espécie de pedágio da IA — abocanhando uma fatia cada vez maior de cada dólar gasto por gigantes como Microsoft, Google, Amazon e Meta na expansão de data centers.Esse movimento, no entanto, tem limite. Se o pedágio sobe demais, o motorista desacelera ou procura outro caminho. Em setores mais sensíveis a preço, como celulares e automóveis, uma disparada no custo da memória pode afetar decisões de compra, reduzir demanda e, lá na frente, levar a um novo excesso de oferta.“Preços elevados de memória podem funcionar como um ‘imposto’ sobre o crescimento do capex dos clientes de data center”, escreveu Arya, “e também levar à destruição de demanda em mercados sensíveis a preço, como celular e automóveis”.Os tetos de preço nos contratos existem, em parte, porque os maiores clientes da Micron reagiram. Garantir fornecimento pelos preços atuais, por cinco anos, com limite para novas altas, é uma decisão racional para hyperscalers que também estão sob pressão de custos. O analista Joseph Moore, do Morgan Stanley, observou isso de forma direta ao dizer que algumas divulgações da empresa “alimentaram a percepção de que a Micron está limitando os preços”.Ainda assim, os otimistas argumentam que margens brutas perto de 90% e um piso estrutural acima dos picos dos ciclos anteriores tornam esse cenário “limitado” extremamente lucrativo pelos padrões históricos. O BofA avalia que as margens devem atingir o pico em níveis de 80% altos nos próximos trimestres, antes de alguma normalização. “Embora os pessimistas possam focar na moderação dos preços”, escreveu Arya, “vemos evidências consistentes de uma reprecificação estrutural”.O caso para uma mudança de regimeEssa palavra — reprecificação — não aparece à toa em Wall Street.Por muito tempo, ações de empresas de memória negociaram a múltiplos de lucro de um dígito mesmo nos melhores anos, porque o mercado partia da ideia de que os bons tempos não durariam. A lógica era simples: comprar na baixa, vender no pico do ciclo e sair antes do excesso de estoques.O BofA argumenta agora que a Micron deveria passar a negociar entre 12 e 15 vezes lucro, acima da faixa histórica de 8 a 10 vezes. Isso implicaria uma reprecificação relevante da ação, sustentada pela estrutura dos contratos, pela resiliência da demanda por IA e pelo novo perfil de geração de caixa. Pelos cálculos do banco, a Micron hoje negocia com yield de fluxo de caixa livre de cerca de 10%. A projeção é de mais de US$ 100 bilhões em fluxo de caixa livre nos próximos 12 meses, com expansão de margens.O Morgan Stanley também elevou sua projeção. Moore aumentou o preço-alvo para US$ 1.200, de US$ 1.050, e manteve recomendação overweight. Ele elevou sua estimativa de lucro por ação para 2027 em 40%, para US$ 168, e a projeção de fluxo de caixa livre de US$ 104 bilhões para US$ 140 bilhões. “Os fundamentos da DRAM estão em território inexplorado e devem continuar melhorando à medida que data centers e IA mantenham sua trajetória de alta”, escreveu.O efeito em cadeiaOs números da Micron não dizem respeito só à própria empresa. Eles funcionam como uma espécie de raio-X em tempo real da expansão da infraestrutura de IA — feito justamente por uma fornecedora de um dos insumos mais críticos e escassos desse processo.Quando a Micron diz que a demanda por memória deve continuar acima da oferta além de 2027, ela também está falando, indiretamente, sobre a carteira de pedidos da Nvidia, sobre a expansão do Azure, sobre os planos de data centers da Meta e sobre o capex de todos os hyperscalers que apostaram seu futuro na IA.Quando afirma que está acelerando a construção de novas fábricas em Idaho, Nova York, Taiwan e Singapura — com capex de US$ 27 bilhões em 2026 e US$ 45 bilhões em 2027 — ela também está sinalizando perspectivas melhores para empresas como Applied Materials, Lam Research, KLA, ASML e Advantest, além de toda a cadeia de equipamentos para semicondutores.Além dos data centers, a Micron apontou outro vetor de demanda que ainda parece pouco refletido nos preços. A penetração de sistemas de assistência avançada ao motorista (ADAS) de nível 2 ou superior deve passar de 20% dos carros novos em 2026 e chegar a 40% até 2030. Veículos com nível 2+ carregam mais de cinco vezes o conteúdo de memória de um carro médio. E os robôs humanoides carregam 10 vezes a memória de um veículo de nível 2. A empresa falou, inclusive, em um “ciclo de demanda por memória de várias décadas” ligado à robótica a partir do fim desta década.Os riscos seguem no radarClaro que ainda há riscos. Uma recessão que desacelere o gasto corporativo com tecnologia. Um avanço mais rápido dos concorrentes chineses. Um arrefecimento repentino da demanda por treinamento de modelos de IA. Ou uma crise geopolítica que afete a cadeia de suprimentos em Taiwan.Brian Chin, da Stifel, listou vários deles: recessão econômica, expansão exagerada da oferta, projeções otimistas demais para data centers de IA, preços irracionais de novos entrantes e atrasos em tecnologias como HBM4 e a próxima geração de NAND.O mercado de memória já decepcionou antes — de forma rápida e dolorosa. E contratos longos também podem mascarar, por algum tempo, acúmulo de estoques nas margens.Ainda assim, o resultado de terça-feira tornou a tese baixista bem mais difícil de sustentar.Por ora, a correção perdeu força. O “imposto da memória” é real. E o regime de valuation pode estar mudando mais rápido do que o mercado esperava.2026 Fortune Media IP LimitedThe post “Imposto da memória”: como fabricante de chips pode mudar a forma de precificar a IA appeared first on InfoMoney.

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