A industrialização da construção civil no Brasil já deixou de ser uma promessa distante e esbarra, agora, menos em capacidade produtiva do setor e mais em entraves regulatórios, burocráticos e de coordenação entre os diferentes níveis de governo. Essa foi a principal mensagem do painel “Industrialização e produtividade na construção”, realizado nesta quinta-feira (26) no Summit ABRAINC 2026, com mediação de Luiz França, presidente da ABRAINC, e participação de Eduardo Fischer, diretor-presidente da MRV (MRVE3), do ministro das Cidades, Vladimir Lima, e de Yorki Estefan, presidente do SindusCon-SP.Ao abrir o diagnóstico do setor, Fischer disse que a construção habitacional vive hoje um estágio de maturidade e sofisticação muito superior ao de uma década atrás, mas enfrenta gargalos que impedem um salto mais forte de escala. “A capacidade instalada para se produzir habitação de interesse social no Brasil nunca esteve tão alta e sofisticada”, afirmou. Para ele, o principal ponto de trava está na falta de padronização entre municípios, o que limita o avanço dos sistemas industrializados e reduz a eficiência dos investimentos. “Imagina o senhor se BYD tivesse que fazer um carro diferente a cada cidade do Brasil”, questionou Fischer. Segundo o executivo da MRV, a adoção de modelos mais padronizados poderia gerar uma queda relevante de custos. “A padronização tende a nos trazer algo em torno entre 15% e 20% de redução de custo direto em processo”, disse. Fischer argumentou que, sem regras mais uniformes para tipologias e aprovações urbanísticas, a industrialização avança de forma mais lenta do que poderia, mesmo com o ganho trazido pela reforma tributária ao permitir crédito em processos industrializados. “Sem a padronização, o surgimento desse processo industrializado parece muito lento. Talvez nem surja no seu potencial pleno, porque não é padrão. A questão da padronização é fundamentalíssima”, afirmou.Na avaliação de Fischer, o efeito desse movimento poderia ir além da produtividade das empresas e alcançar o próprio desenho das políticas habitacionais. “O Minha Casa Minha Vida já é o maior programa habitacional do mundo e ele pode colocar o Brasil na vanguarda de produção de unidades habitacionais sociais no mundo, se a gente conseguir fazer esse movimento”, disse.Do lado do governo, Vladimir Lima, ministro das Cidades, reforçou que a agenda de industrialização depende também de formação profissional e de articulação institucional para sair do discurso e virar prática. “Quando pensamos a industrialização, ela requer um profissional capacitado”, afirmou. Segundo Lima, o ministério já dispõe de instrumentos para apoiar essa transição e pode incorporar o tema às discussões em curso com o setor. “A gente já tem todo o sistema para fazer esses cursos virarem realidade e a gente pode, sim, estimular essa parceria”, disse.O ministro também sinalizou disposição para manter ajustes no Minha Casa, Minha Vida conforme as mudanças de cenário, especialmente em custos e financiamento.Ao responder a um apelo público do empresário Ronaldo Cury, diretor de Relações com Investidores da Cury Construtora, por novos ajustes no programa, Vladimir Lima disse que o modelo precisa ser tratado como uma política dinâmica. E completou: “A gente sempre esteve disposto a dialogar.”Para Lima, não há restrição estrutural de funding para o programa. “Não vai faltar recurso”, disse, ao citar fontes como FGTS, Fundo Social e SBPE. Segundo o ministro, o foco agora é destravar execução, ampliar contratações e alinhar União, estados e municípios para que a oferta acompanhe a demanda.Já Yorki Estefan levou ao debate exemplos concretos de como a regulação local ainda impede ganhos de produtividade na ponta. Para o presidente do SindusCon-SP, a industrialização já não é apenas uma agenda de modernização, mas uma necessidade de sobrevivência num setor pressionado por escassez e envelhecimento da mão de obra. “A empresa que não for competitiva, ela vai simplesmente sair do mercado”, afirmou.Leia mais: Mercado imobiliário desiste de queda da Selic e vê crédito travado por mais tempoEstefan citou restrições para operação de gruas e transporte de cargas em São Paulo como exemplos de normas urbanas que dificultam a adoção mais ampla de soluções industrializadas. “É como se você mandasse um empresário correr, mas ele está com as pernas e os braços amarrados”, disse. Na visão dele, o avanço depende de um esforço conjunto entre setor privado e poder público, com revisão de regras que hoje tornam o processo mais caro, lento e menos eficiente.The post Fischer, da MRV, pede padronização na construção civil ao Ministro das Cidades appeared first on InfoMoney.
