O primeiro semestre de 2026 terminou com uma mensagem clara para os investidores globais: as apostas de que o chamado “excepcionalismo americano” estaria perdendo força se mostraram prematuras. Após um início de ano marcado por questionamentos sobre as gigantes de tecnologia, os principais índices de Wall Street voltaram a renovar máximas, reforçando a percepção de que os Estados Unidos seguem ocupando uma posição única na corrida pela inovação e pela inteligência artificial.O S&P 500 renovou máximas históricas pela 23ª vez no ano, cruzando os 7.600 pontos pela primeira vez, e o Nasdaq 100 acompanhou o movimento, fechando junho em terreno recorde com a reavaliação positiva do trade de Inteligência Artificial, acumulando alta de cerca de 20% no ano.No Brasil, a história foi outra: o Ibovespa recuou cerca de 1% no mês, ainda que preserve alta de 6,8% no ano, pressionado pela saída do capital estrangeiro, enquanto o dólar avançou mais de 2% frente ao real, refletindo a moeda americana global ganhando tração.A Genial Investimentos argumenta que o excepcionalismo americano voltou a ganhar força, sustentado pela liderança tecnológica do país, pela concentração de empresas inovadoras e pela capacidade da economia americana de atrair capital global mesmo diante de juros elevados e incertezas geopolíticas. Os estrategistas que assinam o relatório ressaltam que, embora tenham surgido dúvidas ao longo do primeiro trimestre, os fundamentos que impulsionaram a liderança dos EUA permanecem intactos.Leia tambémBlackRock corta recomendação para bolsas emergentes, mas cita “megaforças” no Brasil“Estamos observando uma maior fragmentação global e vemos países como o Brasil sendo capazes de aproveitar seu tamanho e sua relevância”, disse o estrategista-chefe da gestora para a região, Axel ChristensenPara Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital, o debate no início do ano girava em torno da sustentabilidade dos valuations das empresas de tecnologia e da capacidade dessas companhias de transformar investimentos bilionários em retorno aos acionistas.“Há um questionamento sobre a sustentabilidade dos atuais valuations e a capacidade dessas companhias em manter o retorno aos acionistas, dado o nível de capex extremamente elevado, algo sem precedentes no mercado”, afirma.Apesar disso, ele avalia que a tese estrutural permanece válida. “Não há paralelos globais para o atual ecossistema de inovação dos Estados Unidos. O país mantém uma liderança isolada no setor de tecnologia”, diz.Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos Investimentos, segue linha semelhante. Para ele, o forte avanço dos gastos com inteligência artificial e infraestrutura tecnológica levantou dúvidas legítimas entre investidores, mas não alterou o quadro de liderança americana.“Esse excepcionalismo ainda continua válido. Não existe nada parecido sendo feito em lugar nenhum. Nessa corrida tecnológica, os Estados Unidos estão muito à frente dos demais países”, afirma.Tecnologia continua sendo diferencialA avaliação dos especialistas é que a recuperação do Nasdaq e do S&P 500 ocorreu justamente porque os investidores voltaram a enxergar a tecnologia americana como um ativo sem equivalentes relevantes em outras regiões do mundo.A temporada de balanços do segundo trimestre será observada de perto para verificar se os gigantes de tecnologia continuam convertendo os enormes investimentos em inteligência artificial e infraestrutura digital em crescimento de receita e geração de caixa.Leia tambémBlackRock diz que é hora da renda fixa e vê Brasil como uma das estrelasGigante global da gestão cita diz que País oferece um dos maiores retornos do mundo e sugere títulos corrigidos pela inflaçãoSegundo Pletes, esse será o principal teste para o mercado nos próximos meses.“Será fundamental analisar os balanços corporativos para verificar se as empresas estão, de fato, convertendo o alto volume de investimentos em retorno real.”E o Brasil?Já para o Brasil, Pletes destaca que a Bolsa possui uma composição mais concentrada em commodities e utilities, setores tradicionalmente associados à geração de caixa e ao pagamento de dividendos.Por isso, a possibilidade de uma valorização do Ibovespa no segundo semestre estaria mais vinculada a ações defensivas e pagadoras de proventos do que a uma tese de crescimento acelerado semelhante à observada nos EUA.“O Brasil possui um foco mais voltado a commodities e ao setor de utilities, sendo este último um importante gerador de dividendos”, afirma. Boragini compartilha a mesma leitura. Para ele, empresas ligadas a petróleo, minério de ferro e utilities podem continuar sendo as principais beneficiárias de um eventual fluxo positivo para a Bolsa brasileira.“A tese que puxou muito a bolsa americana, que é a tecnologia, infelizmente não nos pega”, resume.Outro fator que preocupa parte do mercado é a possibilidade de o capital internacional voltar a se concentrar ainda mais nos EUA, especialmente caso o mercado de ofertas públicas de ações ganhe tração.Segundo Pletes, existe risco de migração de recursos estrangeiros para novas empresas de tecnologia americanas. Ele cita o forte interesse despertado pela SpaceX como exemplo da capacidade de Wall Street de atrair liquidez global.The post A tese do “excepcionalismo americano” voltou para valer nos mercados? appeared first on InfoMoney.
