Por Hannah LangNOVA YORK, 8 Jul (Reuters) – O setor de criptomoedas está começando a se preparar para a ameaça da computação quântica, já que avanços recentes alimentam preocupações de que a tecnologia possa, em breve, ser capaz de quebrar a criptografia que protege transações e carteiras digitais.Os computadores quânticos podem resolver problemas matemáticos complexos muito mais rapidamente do que os sofisticados computadores atuais. Assim, eles poderiam ser usados para decifrar métodos convencionais de criptografia de informações digitais.Isso representa um problema para o mercado global de criptomoedas, avaliado em US$2 trilhões, que se baseia em blockchains protegidas por criptografia tradicional e já possui um histórico de grandes ataques cibernéticos.Embora a tecnologia ainda seja em grande parte experimental, as preocupações do setor de criptomoedas aumentaram desde março, quando uma pesquisa do Google, da Alphabet, sugeriu que os computadores quânticos podem ser capazes de quebrar essa criptografia mais cedo do que se esperava anteriormente, segundo executivos e analistas.O Google afirmou que computadores quânticos capazes de quebrar a criptografia poderiam surgir até 2029, enquanto antes se estimava que isso levaria pelo menos uma década.Pesquisas recentes do Citigroup e de outras instituições também concluíram que a computação quântica, juntamente com avanços na inteligência artificial, reduziu o prazo em que as criptomoedas se tornarão amplamente vulneráveis a hackers.Reconhecendo os riscos que a tecnologia representa para os setores público e privado, o presidente dos EUA, Donald Trump, emitiu no mês passado decretos para fortalecer a capacidade quântica dos EUA.Algumas empresas de criptomoedas e desenvolvedores de blockchain já estão elaborando planos para atualizar suas redes com criptografia resistente à computação quântica, um esforço que pode levar anos e exigir mudanças radicais na infraestrutura que sustenta os ativos digitais.“É a ameaça mais direta e existencial às criptomoedas e às redes de criptomoedas”, disse Chris Tam, chefe de inovação quântica da BTQ Technologies, empresa especializada em segurança quântica.Leia tambémDe meteoritos a relógios inteligentes, milionários da IA mudam conceito de luxoMarcas de moda em dificuldades buscam no boom dos milionários da tecnologia uma tábua de salvação, enquanto enfrentam uma fraqueza persistente na China e o mal-estar dos consumidores em todo o mundoCRIPTOGRAFIA COM DÉCADAS DE EXISTÊNCIAA maioria das blockchains depende de criptografia de curva elíptica com décadas de existência para gerar as chaves públicas e privadas e as assinaturas digitais usadas para verificar a propriedade de ativos criptográficos e autorizar transações.As chaves públicas são derivadas matematicamente das chaves privadas e, em muitas redes de blockchain, tornam-se visíveis ao público assim que os ativos criptográficos são utilizados em uma transação ou transferidos.Embora computadores convencionais não consigam, de forma viável, derivar uma chave privada a partir de uma chave pública, um computador quântico suficientemente potente poderia potencialmente fazer isso, permitindo que hackers falsifiquem assinaturas digitais e autorizem transações fraudulentas.Esse é um risco particularmente grave para redes públicas de criptomoedas, nas quais as transações, ao contrário dos pagamentos tradicionais, são irreversíveis.“As criptomoedas, em especial, estão expostas de maneira única porque as blockchains são transparentes e permanentes”, disse Utkarsh Ahuja, sócio-gerente da Moon Pursuit Capital, uma empresa de investimentos em criptomoedas.O Bitcoin, a maior criptomoeda, é considerado particularmente vulnerável porque seu histórico de transações de 17 anos gerou um grande número de chaves públicas visíveis.Aproximadamente 35% da oferta circulante do token poderia estar exposta a um ataque de computação quântica, de acordo com um documento de trabalho não publicado de junho de 2026, elaborado pelo pesquisador independente Ahmed Raza Muhammad Umer. Outra pesquisa do ano passado estimou que esse número poderia chegar a 50%.Basta um único incidente em que um hacker roube e venda uma grande quantidade de um token para que seu preço despenque, disse Cristiano Ventricelli, vice-presidente e analista sênior de ativos digitais da Moody’s Ratings. “Todos sentirão o impacto”, acrescentou.Esse risco já levou algumas pessoas a repensarem seus investimentos em bitcoin. Christopher Wood, o diretor global de estratégia de ações da Jefferies — cujos movimentos são acompanhados de perto –, removeu, em seu boletim informativo de janeiro, uma alocação de 10% em bitcoin de sua carteira modelo devido à ameaça “existencial” de longo prazo representada pela computação quântica.Leia tambémOpenAI lançará seu principal modelo de IA globalmente após prévia limitadaO lançamento desta semana ocorre com o aval da liderança do governo dos Estados Unidos, segundo um porta-voz da OpenAIATUALIZAÇÃO DA BLOCKCHAIN TOMA FORMAÉ certo que Ahuja e outros afirmaram acreditar que ainda levará alguns anos até que a computação quântica consiga quebrar as blockchains, e que o setor será capaz de fazer atualização para novos tipos de criptografia “pós-quântica” resistentes à tecnologia.Muitos executivos do setor de criptomoedas também alertaram que agir prematuramente poderia criar vulnerabilidades, já que a criptografia pós-quântica ainda está em rápida evolução. As assinaturas digitais pós-quânticas são, em geral, muito maiores do que as tradicionais, aumentando os requisitos de armazenamento e largura de banda.Elas poderiam elevar os custos e prejudicar a experiência do usuário, especialmente em blockchains com limites fixos de tamanho de bloco, como o bitcoin, disse Zach Pandl, chefe de pesquisa da gestora de ativos de criptomoedas Grayscale. Ele acrescentou que está confiante de que as blockchains acabarão por resolver essas questões.“Há um desafio de engenharia pela frente, mas já existem soluções de engenharia em discussão”, acrescentou.Esse desafio pode levar anos para ser superado. Um executivo sênior de segurança cibernética de uma grande empresa do setor de criptomoedas disse que espera que sua empresa leve dois anos para se tornar totalmente resistente à computação quântica. Ele e outros descreveram o trabalho potencial como semelhante a uma reformulação no estilo do Y2K, quando mais de US$300 bilhões foram gastos globalmente para corrigir o “bug do milênio”.O problema é especialmente espinhoso para as blockchains, que são em sua maioria descentralizadas, o que significa que são operadas por uma comunidade que talvez não consiga chegar a um consenso sobre o caminho a seguir, disse Tam, da BTQ Technologies.Nenhuma das 20 principais blockchains implementou um algoritmo de assinatura pós-quântica, de acordo com pessoas entrevistadas para esta reportagem.No caso do bitcoin, desenvolvedores e participantes do mercado estão divididos sobre qual solução adotar e quando agir, afirmaram os executivos.A Fundação Ethereum, que apoia a blockchain na qual se baseia o ether — a segunda maior criptomoeda –, afirma ter como meta 2029 para a proteção total contra a computação quântica.“O tipo de cenário catastrófico é que isso aconteça muito antes do que imaginamos”, disse Christopher Smith, presidente-executivo da Quantus, uma blockchain que já utiliza criptografia pós-quântica.A Fundação Algorand, que apoia a blockchain Algorand — cujo token nativo tem uma capitalização de mercado de cerca de US$780 milhões –, está entre as pioneiras. No mês passado, ela publicou um roteiro pós-quântico e planeja começar a oferecer suporte a contas pós-quânticas ainda este ano, disse Bruno Martins, diretor de tecnologia da Fundação Algorand.“Pareceu certo começar a agir agora, porque é uma atitude responsável ter um plano”, acrescentou Martins.(Reportagem de Hannah Lang, em Nova York)The post O risco quântico que começou a assombrar o mercado de criptomoedas appeared first on InfoMoney.
