O Santander divulgou um relatório sobre as empresas da B3 que estão em uma posição altamente vantajosa, chamada pelos analistas como “fase de colheita”, principalmente num momento em que o mercado global está mais cauteloso, com tensões geopolíticas e aperto monetário.Essas companhias mencionadas pelo Santander já superaram seus ciclos mais pesados de Capex (Investimento em Bens de Capital) e agora colhem os frutos em forma de expansão de margens e forte retorno operacional.“A análise é especialmente relevante no ambiente atual, onde taxas globais mais altas e um maior escrutínio sobre teses de crescimento intensivas em capital estão tornando os investidores mais seletivos em relação a capex, expansão de margem e geração de fluxo de caixa livre”, diz o relatório.Ao todo, a instituição financeira listou 14 empresas brasileiras de capital aberto que se enquadram nessa transição positiva, as dividindo pelo nível de clareza e de previsibilidade de seus retornos futuros.Para organizar essa dinâmica, a carteira do banco foi desenhada para funcionar como um mapa estrutural do comportamento corporativo, auxiliando na identificação de companhias em estágios de eficiência.Leia tambémIbovespa Hoje Ao Vivo: Bolsa sobe com CPI dos EUA e guerra em focoBolsas dos EUA avançam após deflação ser registrada em junho nos EUA “No geral, a carteira deve ser interpretada como um mapa do ciclo de capital, e não apenas como uma lista de empresas com capex em queda, ajudando a identificar onde as empresas da América Latina podem estar entrando em uma fase mais favorável de disciplina de capital e alavancagem operacional”, explicam os analistas do banco.No grupo 1, estão os casos mais claros de empresas que já concluíram os principais investimentos e começaram a capturar os benefícios operacionais, que é formado por Embraer (EMBJ3), Smart Fit (SMFT3), Lojas Renner (LREN3), TIM (TIMS3) e Telefônica Brasil (VIVT3). Já no 2, o retorno dos investimentos também já é perceptível, embora a trajetória futura das margens seja menos linear; nele aparecem Cogna (COGN3), Yduqs (YDUQ3) e Ânima (ANIM3). Já o terceiro grupo reúne empresas que reduziram a intensidade dos investimentos, mas cujo retorno ainda está em processo de maturação, caso de Hypera (HYPE3), Rede D’Or (RDOR3) e Klabin (KLBN11). Por fim, o grupo 4 contempla companhias que continuam investindo, mas já exibem sinais concretos de retorno operacional e potencial para uma futura expansão da geração de caixa, como Multiplan (MULT3), 3tentos (TTEN3) e Rumo (RAIL3).Os “Colhedores”O primeiro grupo mapeado pelo Santander traz os casos mais emblemáticos e bem-sucedidos do mercado. Nele, estão empresas em que a relação entre investimento e receita já diminuiu estruturalmente, as vendas continuam em ritmo de expansão e as margens de lucro já apresentaram crescimento consistente.Uma das primeiras empresas listadas que entram nesse grupo é a TIM (TIMS3). A companhia, segundo os analistas, está em transição para uma fase de maior eficiência de capital à medida que o setor brasileiro de telecomunicações supera o estágio mais exigente do ciclo de investimentos de 4G para 5G. O relatório explica que a TIM operava com maior intensidade de capital enquanto fortalecia sua rede e se reposicionava de um negócio voltado para o segmento de baixo custo e pré-pago para uma presença mais forte no pós-pago e em segmentos de maior valor. Com a parte mais pesada superada, o crescimento de receita e a alavancagem operacional devem ser impulsionados por um cenário de consolidação e concorrência muito mais racional no país.Já a Smart Fit (SMFT3) representa um dos exemplos mais claros de uma empresa que mudou de patamar. Os analistas do Santander lembram que o ciclo de investimentos pesados da rede de academias começou anos antes da pandemia, focado em uma expansão física altamente agressiva por toda a América Latina, mas com a pandemia de Covid-19, houve o fechamento temporário das unidades derrubou as receitas e distorceu drasticamente a relação entre o capital que já havia sido investido e o faturamento das academias. O ciclo de Capex alto para retomar as obras pausadas se estendeu até meados de 2023. Leia tambémAções da IBM despencam mais de 20% após vendas frustrantes; “falhamos”, diz CEOO baque nas vendas de hardware da IBM ameaça prejudicar seus esforços para se reinventar como uma empresa de software de alto crescimento A consolidação da colheita veio forte no biênio de 2024-2025, quando a companhia passou a combinar o ritmo de aberturas com o forte amadurecimento das filiais existentes e o ganho de escala de novas iniciativas, como o TotalPass.Seguindo essa mesma linha de eficiência, a dinâmica recente da Embraer (EMBJ3) reflete exatamente essa passagem de bastão: o fim de um ciclo de engenharia de longo prazo dando lugar à eficiência de capital, de acordo com os analistas.Eles explicam que, sendo a Embraer uma fabricante aeronáutica, o ciclo de Capex tende a ser muito mais longo do que o tradicional. Ela passou por quase uma década de aportes bilionários para desenvolver novas famílias de aeronaves comerciais e de defesa, como os novos E-Jets E2 e o cargueiro militar C-390. Agora, o ganho de escala na entrega dessas aeronaves com melhores preços passa a inflar o faturamento sem demandar novas e pesadas saídas de caixa para pesquisa e desenvolvimento.Por sua vez, a Telefônica (VIVT3) também colhe os frutos de uma transição de tecnologia menos exigente em termos de infraestrutura. Conforme o relatório, a companhia aproveitou a sinergia de sua rede de fibra ótica já existente para ancorar a chegada do 5G com alta disciplina de investimentos. Os analistas ainda destacam que sem a previsão de um novo salto tecnológico de grande porte (como o 6G) antes da próxima década, a operadora reduziu a intensidade de seus investimentos e passou a focar na distribuição de dividendos e na captura de margens mais robustas resultantes da consolidação do mercado móvel nacional.Paralelamente, a Lojas Renner (LREN3) concluiu grandes investimentos estruturais em tecnologia e logística que haviam sido planejados no final da década passada. O principal marco desse ciclo foi o desenvolvimento do gigantesco centro de distribuição de Cabreúva, em São Paulo, cujo cronograma de obras acabou atrasado e encarecido pelos efeitos da pandemia de Covid-19 entre 2020 e 2022. O Santander afirma que, com essa estrutura finalmente operacionalizada, a varejista de moda reduziu drasticamente sua necessidade de investimentos em expansão de capacidade física, voltando a focar na rentabilidade das lojas existentes e na eficiência de estoques.“Uma queda na intensidade do capex só é atraente se vier acompanhada de evidências de que o negócio continua crescendo e extraindo valor dos investimentos anteriores. Da mesma forma, um capex elevado pode ser atraente quando a empresa já apresenta crescimento de receita ou ganhos de margem, e quando a normalização do capex é visível adiante”, destaca o estudo.Grupo “quase lá”O segundo grupo identificado pelo Santander reúne as grandes marcas do setor de educação privada na bolsa brasileira: Cogna (COGN3), Yduqs (YDUQ3) e Ânima (ANIM3). Segundo o documento, o segmento de mercado já passou por um ciclo profundo de investimentos físicos no passado e, posteriormente, enfrentou uma rodada pesada de aportes voltados para a digitalização de suas plataformas de ensino.Os analistas afirmam que a intensidade desses investimentos já diminuiu de forma estrutural, com as despesas de capital concentradas em tecnologia e desenvolvimento de sistemas.“O setor de educação já passou por um ciclo significativo de investimentos nos últimos anos, impulsionado inicialmente por expansão e, posteriormente, pela digitalização. Como resultado, a intensidade do capex diminuiu estruturalmente nos últimos anos, com os aportes agora mais focados em tecnologia do que em crescimento de capacidade física. Ao mesmo tempo, as empresas mudaram o foco para a geração de caixa e disciplina de capital, levando a uma alocação de recursos mais seletiva”, diz o relatório.Os analistas do Santander afirmam que essa transição está se refletindo gradualmente nas margens de lucro, impulsionada pela racionalização de custos e melhor utilização das estruturas já consolidadas pelas companhias. Leia tambémFIIs de até R$ 30 bilhões: qual tipo de fundo o Santander vê espaço para crescer?Os fundos imobiliários híbridos devem assumir um papel cada vez mais protagonista na indústria de FIIs nos próximos anosPorém, eles destacam que a trajetória da rentabilidade futura dessas empresas de educação é menos linear, uma vez que elas ainda lidam com processos de normalização interna, eventuais necessidades de reinvestimento e bases de comparação passadas mais desafiadoras.Colheita com retornos em fase de maturação ou distorcidosO relatório do Santander aponta três gigantes brasileiras que já reduziram sensivelmente suas necessidades de novos recursos, embora os números de rentabilidade final continuem se acomodando ou temporariamente camuflados por fatores setoriais específicos, como integrações de fusões e aquisições (M&A) e ciclos globais de commodities.O primeiro exemplo do Santander é a Hypera (HYPE3), que passou por um longo cronograma de expansão fabril que exigiu aportes pesados nos últimos anos para ampliar sua capacidade produtiva. O ano de 2026 deve marcar o estágio final desse ciclo de obras, com um declínio expressivo do Capex previsto para 2027. Os analistas reforçam que conforme essas novas estruturas amadurecerem, a empresa farmacêutica tende a capturar eficiências operacionais relevantes e diluição de custos fixos, sustentando uma melhora robusta nas margens e na geração de fluxo de caixa livre.Leia tambémConcorrência de GLP-1 derruba RD Saúde, mas analistas enxergam entrada atrativaErosão de preços nos similares de semaglutida gera cautela de curto prazo, mas expansão de volumes e demanda inelástica sustentam tese de crescimento estrutural da varejistaJá a Rede D’Or (RDOR3) teve sua dinâmica recente de investimentos bastante impulsionada tanto pela expansão orgânica de leitos quanto por fusões e aquisições de hospitais, o que costuma distorcer os dados financeiros de curto prazo, segundo os analistas. Eles reforçam, porém, que o pico dessa intensidade de capital ficou para trás. O ciclo de investimentos não está totalmente encerrado: a rede hospitalar realiza cada vez mais a transição para uma fase de extração de valor, sustentada pelo amadurecimento dos hospitais novos e estabilização das taxas de ocupação médica.A Klabin (KLBN11), por sua vez, reduziu suas estimativas de investimento em aproximadamente 15% em termos anuais em 2025. O relatório indica que esse posicionamento reflete uma postura corporativa voltada para a desalavancagem financeira após a entrega de projetos industriais de grande escala. O Santander afirma que o mercado ainda aguarda provas mais conclusivas sobre o retorno estrutural gerado por esses investimentos monumentais, mas que a fabricante de papel e celulose já opera com menor necessidade de capital incremental em relação ao seu passado recente.Para esse grupo, o banco de investimentos pontua que as pressões de curto prazo não devem mascarar a virada de chave operacional que está por vir. A tese é de que o mercado frequentemente demora a precificar a desalavancagem dessas companhias, o que abre oportunidades de valorização para os investidores que se anteciparem ao fim definitivo dos ciclos de obras e integrações.Quem planta para colher depoisO banco também destacou um grupo de companhias que ainda mantém investimentos elevados, mas que já começa a mostrar sinais de que esses desembolsos podem gerar crescimento, expansão de margens e maior geração de caixa nos próximos anos. Nesse grupo estão Multiplan (MULT3), 3tentos (TTEN3) e Rumo (RAIL3).Para os estrategistas, esses casos são particularmente interessantes porque combinam duas características: investimentos ainda relevantes e evidências de que o retorno sobre esse capital já começa a aparecer nos resultados operacionais. A expectativa é que, à medida que os projetos amadureçam e a necessidade de novos aportes diminua, essas companhias entrem em uma fase mais robusta de geração de caixa livre.A Multiplan (MULT3) é vista como uma empresa que está saindo do pico de investimentos após um ciclo de revitalização e expansão de diversos shoppings do portfólio. Entre 2023 e 2025, a companhia elevou os gastos para ampliar ativos como MorumbiShopping, ParkShoppingBarigüi e DiamondMall, além de tocar novos projetos. Segundo o Santander, os benefícios dessas iniciativas já começam a aparecer por meio de maiores receitas de aluguel, vendas dos lojistas e ocupação resiliente, enquanto o nível de investimentos tende a se normalizar nos próximos anos.No caso da 3tentos (TTEN3), a tese está ligada à ampliação de capacidade e ao crescimento da plataforma integrada de agronegócio. O banco destaca que a companhia aumentou significativamente seus investimentos nos últimos anos para sustentar sua expansão em um mercado ainda com amplo potencial de crescimento. A expectativa é que, daqui para frente, as receitas continuem avançando em ritmo forte mesmo com uma redução gradual da intensidade de capital, abrindo espaço para ganhos de alavancagem operacional e geração de caixa.Já a Rumo (RAIL3) é apontada como um dos exemplos mais claros de companhia que ainda está investindo para colher adiante. A operadora ferroviária vem realizando pesados aportes na expansão da malha logística, incluindo projetos como a extensão da Ferrovia Estadual de Mato Grosso (LRV), o que mantém o capex em patamares elevados. Para o Santander, porém, o caminho de retorno é bem visível: conforme os projetos forem concluídos, a empresa deverá ganhar capacidade de transporte, aumentar volumes e expandir o Ebitda, enquanto a relação entre investimentos e receitas tende a diminuir.The post As empresas da B3 que investiram bem no passado – e estão colhendo frutos hoje appeared first on InfoMoney.
