A vice-presidente da Argentina, Victoria Villarruel, que também comanda o Senado do país, não teve o menor cuidado diplomático nas redes sociais ao declarar seu apoio à seleção nacional para semifinal da Copa do Mundo contra a Inglaterra nesta tarde, em Atlanta (EUA). No X, ela disse ontem que a equipe de Lionel Messi vai enfrentar “piratas usurpadores”.“Não vou ser politicamente correta nem covarde (“de sangue frio”): contra os ingleses é sempre algo a mais. São as Malvinas, é o Diego, é a última do Leo e é dar um basta nos invasores”, escreveu na rede XP.LEIA MAIS: Semifinais da Copa: veja quais são os jogos, datas e horários até a finalEssas declarações dão o tom de como a Argentina encara um confronto contra os ingleses em qualquer campo, além do futebol. Mas de onde vem a relação de amor/ódio entre os dois povos, que é bem mais acentuada no lado argentino? O InfoMoney lista abaixo alguns fatos históricos que ajudam a explicar.Francis DrakeA referência à pirataria feita por Villarruel repete os insultos feitos pela Espanha contra o capitão inglês Francis Drake, que mais tarde se tornaria corsário a serviço da Rainha Elizabeth I e que ficou conhecido por ter sido o primeiro inglês a realizar uma volta ao mundo, entre 1577-1580. Nesse período, Drake ele atravessou o estreito de Magalhães e devastou os territórios espanhóis das costas ocidentais da América.Invasões britânicasDurante as guerras napoleônicas, quando a Espanha era formalmente aliada da França bonapartista, os britânicos desembarcaram tropas duas vezes — em junho de 1806 e em julho de 1807 — para tomar o que seria a futura capital argentina, Bueno Aires, na época com cerca de 40 mil habitantes. Em ambas as ocasiões, as forças invasoras foram pequenas só conseguiram uma base temporária, sendo derrotadas na sequência. Como lembra uma reportagem do The Times, durante a primeira tentativa o 71º Regimento de Infantaria perdeu suas cores regimentais, que hoje são orgulhosamente exibidas no Convento de Nossa Senhora do Rosário. Os britânicos tiveram cerca de 5.000 homens mortos, feridos e capturados e até hoje as paredes do convento ainda estão marcadas por buracos de bala.Parceiros econômicos e culturaisEssa relação mudou no século seguinte. Após a Argentina conquistar a independência da Espanha nas décadas de 1810 e 1820, a Grã-Bretanha tornou-se não apenas um parceiro comercial crucial, mas também um modelo econômico e cultural. Na época, os bancos britânicos fizeram grandes investimentos em portos, armazéns, serviços públicos e em ferrovias na Argentina. A carne bovina argentina virou uma iguaria constate nos lares dos britânicos, fortalecendo a economia do país sul-americano. Vêm dos ingleses repatriados a introdução de esportes como o polo, o rugby e, claro, do futebol. Vários dos grandes clubes argentinos têm nomes ingleses, como River Plate e o Newell’s Old Boys.Crise e nacionalismoOs efeitos econômicos da 1ª Guerra Mundial e da Grande Depressão foram catastróficos para Argentina na primeira metade do século XX, isso após décadas de abundância. Dependente ao extremo das exportações para o Reino Unido, parte da elite política do país encontrou nos ingleses os bodes expiatórios perfeitos nas décadas de 1940 e 1950. O líder populista Juan Perón, admirador de da Itália de Mussolini e a da Alemanha nazista, passou a defender a posse sobre as Ilhas Malvinas, que haviam sido colonizadas pelos britânicos desde 1833. Em uma ocasião, seus apoiadores chegaram a incendiaram o anglófilo Jockey Club.FutebolHá vários relatos históricos de como os argentinos tentaram ao longo da história diferenciar seu estilo de jogo de posse de bola e dribles do modelo mais estático dos britânicos. Mas a rivalidade no futebol só foi colocada à prova em 1966, quando a Inglaterra sediou a Copa do Mundo. No confronto com a Argentina, o jogador Rattín, que faleceu há poucos dias, foi expulso de campo e levou cerca de oito minutos para sair, dizendo que precisava de um intérprete. Depois, ainda teria desrespeitado símbolos ingleses, como a bandeira e um brasão da rainha. O técnico inglês Alf Ramsey chamou os argentinos de “animais”. Depois disso, um “amistoso” em 1974 foi marcado por violência de ambas as partes.Leia também: Jogo de Inglaterra e Argentina mobiliza esquema reforçado de segurança em AtlantaGuerraEm 1982, com a Argentina governada por uma junta militar, explodiu um conflito militar pela posse das Ilhas Malvinas (chamadas de Falklands pelos ingleses). A ditadura de então esperava apelar ao patriotismo para deter uma onda de insatisfação pela crescente crise econômica atravessada pelo país. Os argentinos tomaram o arquipélago em 2 de abril, mas o Reino Unido enviou uma força-tarefa e retomou a posse definitivamente em 14 de junho. Jornais populares argentinos na época costumavam publicar fotos da primeira-ministra Margareth Thatcher com um tapa-olho de pirata. A guerra deixou um saldo de 649 soldados argentinos, 255 britânicos e 3 civis moradores das ilhas.Leia também: Argentinos não poderão levar bandeiras sobre as Malvinas em jogo contra a InglaterraLa Mano de DiósAs memórias e traumas da guerra entre os dois países ainda estavam frescas quando as duas seleções se enfrentaram pelas quartas-de-final da Copa do Mundo de 1986, no México. Há relatos de brigas entre torcedores tanto fora como dentro do estádio Azteca, mas foi o desempenho do craque Diego Maradona que marcou a disputa. Primeiro, ele marcou um gol com a mão, validado pela arbitragem. Depois, fez aquele que é considerado o maior gol das Copas, driblando varios ingleses, usando apenas a perna esquerda. Questionado sobre o gol irregular, ele respondeu com uma frase célebre, dizendo que o gol havia sido marcado com “la mano de Diós”. Um documentário sobre a partida (“El Partido”) foi lançado em maio passado, mostrando que a guerra tinha sido explorada por Maradona e otros jogadores argentinos, levando a disputa para além do campo. As duas seleções voltaram a se enfrentar nas Copas de 1998 e 2002, com um triunfo para cada lado, intensificando a rivalidade.The post “Pirataria”, invasões, guerra e futebol: a rivalidade de Argentina e Inglaterra appeared first on InfoMoney.
