Nos últimos dois meses, veículos de imprensa esportiva dos Estados Unidos viram suas páginas mudar de perfil. Basquete, beisebol, futebol americano e hóquei cederam espaço a um destaque incomum: o esporte mais popular do mundo.A poucos dias da final, o engajamento do público americano com o futebol e a Copa do Mundo parece ter justificado os investimentos feitos por publishers dos EUA na cobertura do torneio.No The Athletic, braço de jornalismo esportivo do The New York Times, o número de leitores cresceu 40% nas quatro primeiras semanas da competição em relação ao mesmo período da Copa do Catar, em 2022.“Observamos um crescimento muito expressivo na nossa cobertura de futebol, especialmente na América do Norte”, disse a editora-chefe do The Athletic, Laura Williamson, ao InfoMoney. “Temos plena confiança de que o futebol hoje é o segundo esporte da plataforma, atrás apenas do futebol americano e, em alguns períodos, chegando a liderar em audiência.”Leia mais: Espanha x Argentina: quando será a final da Copa do Mundo? Veja data e horárioUma das principais publicações esportivas dos Estados Unidos, com operação relevante também no Reino Unido, o veículo montou uma estrutura robusta para esta edição do torneio: foram 55 jornalistas credenciados — mais que o dobro do enviado ao Catar —, além de analistas e equipes de vídeo e podcast cobrindo todos os jogos da Copa 24 horas por dia.Parte da tração registrada pela imprensa americana pode ser explicada pela aposta da Fifa em um torneio com 48 seleções. O formato se mostrou mais bem-sucedido do que indicavam as projeções iniciais, à medida que países de menor expressão conseguiram manter um nível competitivo diante de seleções tradicionais.“O excelente desempenho de muitas seleções africanas — e também o fato de algumas equipes surpreendentes terem ido bem — ajudou bastante, porque empolgou o público com confrontos diferentes”, afirmou a editora de esportes do Los Angeles Times, Iliana Romero, ao InfoMoney.No caso do LA Times, a Copa do Mundo transformou a audiência de um período tradicionalmente mais morno — o verão no Hemisfério Norte, quando poucas equipes locais estão em atividade — em um mês movimentado. “Tivemos tráfego muito forte e um grande aumento no engajamento dos leitores”, disse Romero, sem abrir números.Os resultados de audiência também foram impulsionados pela campanha empolgante da seleção dos Estados Unidos nas fases iniciais, marcada pela goleada por 4 a 1 sobre o Paraguai na estreia. E, claro, pela concentração de grandes estrelas na Copa de 2026.Messi, principal nome da liga de futebol dos EUA, disputa desde a estreia da Argentina a artilharia histórica dos Mundiais, no que deve ser sua última Copa. Kylian Mbappé, estrela da França, também entrou na briga pelo posto de maior goleador da competição.Cristiano Ronaldo, em sua despedida de Mundiais, além de nomes como Lamine Yamal e Jude Bellingham, ajudaram a transformar esta em uma das edições com maior número de seleções lideradas por protagonistas globais.“Futebol não é um esporte ‘hipster’”A partir do próximo domingo (19), com a final da Copa do Mundo, começa o teste mais importante: medir o impacto de longo prazo do torneio sobre o interesse do público americano pelo futebol.“Acho que o legado desta Copa para nós é justamente mostrar que o futebol não é algo de nicho, um esporte ‘hipster’ assistido apenas por pessoas em bares do Brooklyn às 7h30 da manhã”, afirmou Williamson, do The Athletic.Para ela, o americano quer “assistir ao melhor” — e isso, “por essência, é a Copa do Mundo”. Ao mesmo tempo, a edição de 2026 pode estimular o interesse por competições disputadas entre um Mundial e outro, como a Champions League, onde atuam muitos dos principais craques do planeta.Do lado da liga local, porém, ainda há um caminho a percorrer. Quando os Estados Unidos sediaram a Copa pela primeira vez, em 1994, a Major League Soccer (MLS) estava nascendo. Hoje, embora consolidada, a liga ainda não reúne clubes da primeira prateleira do futebol mundial.“Acredito que o próximo passo seja transformar esse interesse crescente em participação contínua e pensar como estruturar melhor o que já existe no sistema esportivo americano, além de identificar o que precisa mudar ou ser aperfeiçoado”, disse Romero, do LA Times.Hoje, a MLS ainda é muito organizada em torno de mercados locais específicos, ligados às cidades de seus clubes. “É aí que vejo essa transição: pessoas que gastam muito dinheiro para ir a um jogo da Copa do Mundo, mas que também passam a pensar: ‘Quero fazer parte disso’”, disse Williamson.Para o The Athletic, a aproximação do público com a Copa do Mundo masculina também abre espaço para direcionar audiência à edição feminina, que será disputada no Brasil em 2027. Na última semana, lideranças do veículo já iniciaram conversas sobre os aprendizados de 2026 para a cobertura do próximo torneio, no qual a seleção americana deve chegar como uma das favoritas.Maior audiência da históriaHá anos, a Fifa tenta aprofundar a presença do futebol na cultura esportiva dos Estados Unidos, o maior mercado consumidor do mundo. A escolha do país, ao lado de México e Canadá, como sede desta edição foi vista como mais um passo nessa estratégia.Em julho de 2025, a entidade anunciou a abertura de um escritório na Trump Tower, empreendimento do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Nova York. Naquele mesmo ano, em dezembro, Gianni Infantino, presidente da Fifa, entregaria a Trump o inédito “Prêmio da Paz da Fifa” durante o sorteio dos grupos da Copa.A relação deu origem à maior polêmica do torneio até aqui. Trump afirmou ter ligado para Infantino para sugerir a suspensão da punição aplicada ao atacante Folarin Balogun após o jogo contra a Bósnia. A Fifa decidiu não excluir o jogador automaticamente da partida seguinte, mas afirmou que a decisão foi tomada por um órgão independente.A reportagem exclusiva publicada por Adam Crafton e Dan Sheldon, do The Athletic, se tornou a mais lida nos dez anos de história do veículo. O caso provocou reação da seleção belga — adversária seguinte dos EUA, com Balogun em campo — e críticas da Uefa à Fifa.“Tivemos o cuidado intencional de manter o foco nessas questões, mesmo em meio ao futebol brilhante e ao clima geral de festa”, disse Williamson. “E o episódio do cartão vermelho de Balogun foi uma reviravolta extraordinária. Acho que isso também tem implicações para o futebol, ao mostrar que política e futebol não se misturam.”The post Copa sacode a mídia esportiva dos EUA e leva o “soccer” ao centro da cobertura appeared first on InfoMoney.
