Calor e guerra impõem à Europa uma das piores quebras de safra em décadas

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(Bloomberg) — A Europa caminha para sofrer uma das quedas mais acentuadas de sua produção de grãos já registradas, à medida que condições climáticas extremas e tensões geopolíticas se combinam para aumentar a pressão sobre os agricultores.Temperaturas escaldantes atingiram os rendimentos do trigo e devem reduzir a safra de milho da região ao menor nível em 19 anos, enquanto os campos de girassol e a produção pecuária também sofreram. Ao mesmo tempo, o conflito no Oriente Médio elevou os custos de combustível e fertilizantes, reduzindo o plantio em todo o continente no início deste ano.Como resultado, a produção total de grãos da União Europeia pode encolher mais de 9% neste ano, segundo o grupo setorial Coceral. Isso representaria a maior queda anual em mais de duas décadas, com base nos dados históricos da União Europeia. Só a onda de calor de junho deve custar aos agricultores europeus de grãos cerca de € 2 bilhões (US$ 2,3 bilhões) em perda de receita, segundo o think tank britânico Energy and Climate Intelligence Unit.Os problemas dos agricultores europeus devem repercutir nos mercados globais de grãos, justamente no momento em que a oferta se aperta nos Estados Unidos e na Austrália, enquanto a escalada das tensões no Mar Negro pressiona as exportações da Rússia e da Ucrânia. A retomada das hostilidades no Golfo Pérsico pode manter os custos de insumos agrícolas elevados por mais tempo, enquanto o desenvolvimento de um fenômeno El Niño ameaça intensificar o estresse das lavouras até 2027.Leia tambémOnda de calor na Europa reduz a projeção da safra de grãosEstimativa foi reduzida para 286,6 milhões de toneladas nos 27 países da UE e no Reino Unido, 9 milhões de toneladas a menos que a projeção anterior“Tudo isso vai se somando”, disse José Serrano, agricultor de grãos de 72 anos de Almería, no sul da Espanha. “Este ano foi particularmente duro para o setor agrícola. As pessoas e os políticos esquecem que é preciso trigo para fazer pão, e é preciso pecuária para produzir leite.”As exportações de trigo da União Europeia tiveram um começo lento desde o início da temporada, em julho, com os embarques caindo 46% nos primeiros 19 dias do mês, segundo dados oficiais. O trigo negociado em Paris subiu cerca de 20% neste mês, enquanto o milho avançou 10%.A UE precisa de milho para a ração animal que sustenta seu enorme setor pecuário. Embora uma oferta mais apertada possa levar a alguma substituição de milho por trigo e cevada, safras menores devem impulsionar a demanda por importações. O Departamento de Agricultura dos EUA prevê o maior volume de importações da UE em quatro anos, depois de reduzir suas estimativas de produção neste mês.“Haverá pressão sobre a balança comercial”, disse Charles Hart, analista sênior de commodities do Rabobank. “Haverá mais importações e menos exportações.”Isso abre oportunidades para exportadores como o Brasil, que caminha para uma safra recorde de milho. A Ucrânia também é uma importante fornecedora de milho para a Europa, embora os ataques russos à sua infraestrutura estejam ameaçando as exportações.As estimativas da Coceral para as safras da UE foram divulgadas em 10 de julho. A Comissão Europeia, que reúne dados de seus 27 países-membros, deve divulgar suas próprias previsões até o fim do mês.Aqui estão os destaques das colheitas deste ano nas principais regiões produtoras:França: desastre no milhoO principal produtor agrícola da Europa esteve no epicentro de três ondas de calor desde o fim de maio. Isso causou estragos na safra de milho da França, derrubando as estimativas de produção para o continente.A produção deve cair para o menor nível desde 1990, depois que o calor prejudicou a floração em um estágio crucial do desenvolvimento da planta, segundo a consultoria Expana. O Ministério da Agricultura da França estima perdas no milho de até um terço da safra.O índice mais recente de saúde da vegetação derivado de satélite — um indicador da saúde das lavouras — permaneceu no menor nível já registrado para esta época do ano em dados que remontam a 1987, informou o USDA na terça-feira.Por outro lado, a qualidade do trigo parece muito boa, embora a safra deva ser cerca de 8% menor do que a do ano passado, disse a Argus no início desta semana. Segundo a consultoria, o teor mais elevado de proteína deve aumentar o apelo do produto para países importadores.Alemanha e Polônia: menos trigoTemperaturas escaldantes atingiram a safra de trigo na Alemanha, o segundo maior produtor do bloco, amadurecendo o grão cedo demais e resultando em grãos menores e menor rendimento. Como consequência, a produção de trigo de inverno no país deve cair 12% neste ano, informou o grupo agrícola DRV na semana passada.Da mesma forma, os rendimentos do trigo na Polônia, terceiro maior produtor de grãos da Europa, devem cair até um quinto em relação aos níveis recordes do ano passado, embora ainda devam ficar em linha com a média de longo prazo, segundo a Infograin, consultoria de mercado sediada em Varsóvia. As colheitas no sul do país apontam para altos níveis de proteína, acrescentou.Mar Negro: na contramão da tendênciaO quadro é diferente nas margens europeias do Mar Negro. A Romênia, quarto maior produtor de grãos da Europa, está a caminho de ter o “melhor ano da história” para trigo, cevada e colza, depois que as chuvas dos últimos três meses ajudaram a manter os solos úmidos, disse Cezar Gheorghe, da consultoria de grãos Agricolumn. A safra de trigo da Bulgária pode ser recorde, segundo a corretora Agricore.Ainda assim, a qualidade do trigo não é tão boa, com grande parte do grão apresentando menor teor de proteína, o que significa que uma parcela maior da safra será destinada à alimentação animal. Os níveis de proteína do trigo são vistos, em geral, mais baixos porque muitos agricultores reduziram o uso de fertilizantes nitrogenados, segundo o Fórum de Agricultores e Processadores Profissionais, que representa os produtores.© 2026 Bloomberg L.P.The post Calor e guerra impõem à Europa uma das piores quebras de safra em décadas appeared first on InfoMoney.

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