A corrida pela inteligência artificial domina praticamente todas as conversas sobre o futuro do trabalho. Empresas investem em novas ferramentas, treinam equipes, criam áreas especializadas e aceleram projetos de automação. Nunca se falou tanto em IA.Paradoxalmente, porém, a principal vantagem competitiva das organizações pode depender de uma capacidade muito mais antiga: aprender.Quando diferentes pesquisas recentes são analisadas em conjunto, elas apontam para uma mesma direção. O desafio deixou de ser simplesmente adotar inteligência artificial e passou a ser desenvolver pessoas capazes de aprender continuamente, adaptar-se às mudanças e transformar conhecimento em decisões melhores.Em outras palavras, a tecnologia evolui rapidamente. E, diante disso, a capacidade humana de acompanhar esse ritmo tornou-se o verdadeiro diferencial competitivo.Leia também: Salário, cargo e status já não bastam. Descubra o novo trio que atrai profissionaisA IA virou prioridade dos CEOsO movimento começa pela alta liderança.Pesquisa da EY-Parthenon com 50 CEOs brasileiros mostra que 72% pretendem ampliar os investimentos em inteligência artificial, enquanto os demais manterão os aportes atuais. Além disso, 84% acreditam que a qualificação da força de trabalho em IA será determinante para definir os líderes de mercado do futuro.Na avaliação de Leandro Berbert, sócio de Estratégia e Transações da EY-Parthenon, a tecnologia já deixou de ocupar um papel periférico nas empresas.A própria pesquisa mostra que os CEOs esperam ampliar contratações para funções ligadas à inteligência artificial, requalificar profissionais e redesenhar cargos para integrar capacidades humanas e IA.A redução de postos de trabalho aparece entre as prioridades menos citadas: apenas 4% mencionaram diminuir contratações em determinadas funções.“A IA está migrando de iniciativas pontuais para aplicações que impactam diretamente a tomada de decisão, produtividade, experiência do cliente e geração de receita”, afirma Leandro Berbert, sócio de Estratégia e Transações da EY-Parthenon. “Tudo indica que será um tema que ganhará ainda mais espaço”, prossegue.Leia também: Você tem direito a 30 dias de férias. Então por que continua cansado?Fluência em IA virou o novo básicoA tecnologia também começa a mudar a forma como profissionais são avaliados.Levantamento da Dio mostra que a chamada “fluência em IA” já passou a integrar os critérios considerados nos processos seletivos, indicando que o domínio dessas ferramentas tende a se tornar uma competência básica para diferentes carreiras. O estudo analisou movimentações de contratação em 135 empresas brasileiras e reuniu percepções de mais de 18 mil pessoas entre recrutadores, especialistas e educadores.O recado é claro: saber utilizar inteligência artificial deixou de representar vantagem competitiva por si só. O diferencial passa a ser a capacidade de aprender continuamente à medida que as ferramentas evoluem.“Mostrar ‘fluência’ em IA já faz parte do básico”, diz Iglá Generoso, CEO da Dio. “Assim como aconteceu com a informática ou o inglês, essa competência dificilmente será o fator decisivo em uma contratação, mas a sua ausência tende a fechar portas.” Leia também: Os CFOs nunca mudaram tanto de emprego. E isso revela uma transformação silenciosaDesafio é converter IA em capacidade coletivaA adoção da inteligência artificial cresce rapidamente. Levantamento do Google mostra que 68% das ocupações analisadas já utilizam o Gemini no dia a dia. Mesmo assim, em metade dessas profissões a ferramenta participa de apenas cerca de 20% das atividades, enquanto somente 3% utilizam IA em mais de 75% das tarefas.Isso indica que, ao menos por enquanto, a IA funciona principalmente como ferramenta de apoio para pesquisa, escrita, planejamento, criatividade e análise de informações.O desafio maior aparece quando se observa a organização como um todo.Segundo levantamento da Page Executive sobre remuneração e talento executivo na América Latina, 83% dos executivos afirmam que a IA aumentou sua produtividade individual, mas apenas 68% percebem ganhos de produtividade no nível organizacional. Na qualidade do trabalho, 80% observam melhorias no âmbito individual, ante 61% quando avaliam o impacto para a organização.Na avaliação de Humberto Wahrhaftig, senior partner e líder da Page Executive no Brasil, essa diferença revela que muitas empresas ainda não conseguiram transformar o uso individual da tecnologia em capacidade coletiva.Leia também: O RH já paga a academia. Agora precisa convencer as pessoas a treinarAprender tornou-se uma competência estratégicaEssa conclusão aparece também em outros levantamentos.Segundo dados do relatório State of Organizations 2026, da McKinsey, 72% dos líderes afirmam que suas organizações não conseguem executar os planos que aprovam, sugerindo que o principal desafio deixou de ser formular estratégias e passou a ser fazer com que elas sejam compreendidas e executadas pelas equipes.Estudos do Stanford Digital Economy Lab e do MIT reforçam o diagnóstico ao mostrar que parte das dificuldades na adoção da IA está menos relacionada à tecnologia e mais à gestão da mudança, ao redesenho de processos e ao desenvolvimento de competências.Entre as organizações pesquisadas, 77% dos desafios estão ligados à gestão da mudança, qualidade dos dados e revisão de processos, enquanto 95% dos projetos-piloto de IA generativa ainda não produzem impacto financeiro mensurável.Leia também: Líderes exaustos? Pesquisa revela novo foco de crise no mercado de trabalhoO diferencial continuará sendo humanoDurante décadas, vantagem competitiva significava ter mais capital, mais tecnologia ou maior escala.Hoje, esses fatores continuam importantes. Mas a inteligência artificial está se tornando rapidamente acessível a empresas de diferentes portes, reduzindo parte dessa vantagem.O que permanece difícil de copiar é a capacidade de aprender mais rápido do que o ambiente muda.Nesse cenário, a empresa do futuro provavelmente não será aquela que possuir a inteligência artificial mais sofisticada.Será aquela que conseguir transformar aprendizado contínuo em parte da cultura da organização, fazendo com que pessoas evoluam na mesma velocidade das ferramentas que utilizam.Leia também: Na era da IA, empresas já treinam para funções que ainda não existemThe post A empresa do futuro será menos definida pela IA do que pela capacidade de aprender appeared first on InfoMoney.
