Na sessão da véspera, o dólar fechou a última terça-feira com alta ante o real, refletindo o temor de novas sanções dos Estados Unidos ao Brasil, que foram concretizadas depois do fechamento do mercado. O dólar à vista encerrou a véspera com alta de 0,84%, aos R$ 5,1304. Com o mercado à vista já fechado, o Departamento de Estado dos EUA anunciou que o visto da embaixadora Maria Luiza Viotti, chefe da missão brasileira nos EUA, foi cancelado, em meio a tensões diplomáticas entre os dois países. Já o Ibovespa fechou estável. Para André Matos, CEO da MA7 Capital, o comportamento do câmbio foi o sinal mais relevante do mercado. Segundo ele, quando o real se descola do movimento observado em outras moedas emergentes e desenvolvidas, os investidores costumam interpretar isso como um aumento do chamado “risco próprio” do país.“O ativo mais revelador de ontem não foi a Bolsa, foi o câmbio”, afirma Matos. Na avaliação do executivo, a revogação do visto da embaixadora brasileira representa uma mudança de patamar na crise bilateral, uma vez que o conflito deixa de estar restrito ao campo comercial e passa a atingir as relações institucionais entre os dois países.Apesar disso, o especialista pondera que a estabilidade do Ibovespa na sessão passada impede que toda a movimentação dos ativos seja atribuída ao episódio diplomático. Segundo ele, o índice acionário teve influência de fatores específicos, como a queda das ações da Petrobras (PETR3;PETR4) acompanhando a baixa do petróleo no mercado internacional e a cautela dos investidores antes da decisão de juros do Copom e da temporada de balanços.Ainda assim, Matos avalia que o principal fator para o fortalecimento do dólar é a incerteza em torno dos próximos passos da relação entre Brasília e Washington, sendo que novas medidas podem vir. “Existe espaço para novas medidas enquanto o impasse do aval ao novo embaixador americano não se resolver, e é justamente essa incerteza que sustenta o prêmio de risco no câmbio”, afirma.Leia tambémIbovespa Hoje Ao Vivo: Bolsa reduz alta, mas se mantém no positivo com exteriorBolsas dos EUA operam mistas após dados de emprego abaixo do esperado Lula diz que revogação de visto da embaixadora do Brasil nos EUA foi “irresponsável”Planalto já havia afirmado que revogação de vistos se deu por decisão “ideológica” da gestão TrumpNa mesma linha, Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, considera que a revogação do visto elevou a tensão diplomática, mas ainda produz impacto econômico limitado. Para ele, a valorização do dólar reflete a piora da percepção de risco sobre o Brasil, enquanto o desempenho mais contido da Bolsa se explica pelo efeito positivo da desvalorização cambial para empresas exportadoras.“O Ibovespa ficou perto da estabilidade porque parte das empresas exportadoras pode se beneficiar de um real mais fraco, enquanto ações domésticas tendem a sentir mais os efeitos da incerteza e de uma eventual pressão sobre os juros”, diz.Segundo Araújo, o comportamento de Wall Street no mesmo período reforça essa interpretação. As bolsas americanas seguiram influenciadas principalmente por fatores internos dos Estados Unidos, como os resultados corporativos e o cenário para a economia local, sem impacto relevante da questão diplomática envolvendo o Brasil.Ele ressalta que os reflexos sobre os ativos brasileiros dependerão da natureza das próximas medidas adotadas pelos dois países. Na sua avaliação, sanções direcionadas a autoridades ou novas restrições diplomáticas tenderiam a gerar mais ruído político do que consequências econômicas efetivas. Já eventuais barreiras comerciais, tarifas adicionais ou restrições financeiras teriam potencial para afetar de forma mais direta o mercado.“Nesse cenário, poderíamos ver nova alta do dólar, abertura da curva de juros e pressão sobre a Bolsa, principalmente em empresas mais dependentes do mercado doméstico ou das relações comerciais com os Estados Unidos”, afirma.Para Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco, o mercado ainda enxerga o episódio como uma escalada diplomática e não como uma ruptura econômica entre os dois países. Segundo ele, a valorização do dólar reflete a busca dos investidores por proteção diante do aumento das incertezas, enquanto a composição do Ibovespa ajudou a limitar perdas mais expressivas na renda variável.“O impacto foi parcialmente compensado por exportadoras, que tendem a se beneficiar de um real mais fraco”, destaca.Friggi também acredita que o cenário pode mudar caso as tensões avancem para medidas econômicas concretas. Em sua visão, ações direcionadas contra indivíduos específicos têm impacto limitado nos mercados, mas restrições comerciais ou sanções financeiras poderiam provocar uma reação muito mais intensa dos investidores.No campo político, o executivo avalia que ainda é cedo para medir eventuais efeitos sobre a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo ele, parte do eleitorado pode interpretar a disputa como uma pressão externa sobre o Brasil, mas a percepção pode mudar caso a crise produza consequências econômicas mais visíveis.“O favorecimento ou não de Lula nas pesquisas dependerá muito mais dos efeitos concretos do conflito do que da revogação do visto isoladamente”, afirma.The post Câmbio acende alerta após escalada diplomática Brasil X EUA, mas efeito vai durar? appeared first on InfoMoney.
