A crise provocada pelos juros altos e crédito mais restrito entrou pela porteira adentro do agronegócio. O setor liderou o número de recuperações judiciais (RJ) no primeiro semestre totalizando 1.263 CNPJs em dificuldades, sendo 111 novas entradas registradas só no segundo trimestre, 9,6% a mais que o anterior. Nos primeiros seis meses, o cenário de deterioração continuou e houve um crescimento 21,4% nos casos, somando 66% de alta em 12 meses. Esse é de longe o pior desempenho relativo e absoluto do período, de acordo com Monitor RGF-Bizdoc.O relatório ressalta que não se trata de uma crise de produção agrícola, uma vez que a safra segue robusta, mas sim de uma crise financeira. A combinação entre capital de giro intensivo, juros elevados, oscilações dos preços internacionais das commodities e eventos climáticos reduziu a capacidade de muitos produtores honrarem seus compromissos financeiros, mesmo diante de boas colheitas.Segundo a consultoria, as recuperações judiciais como um todo continuam em níveis historicamente muito elevados no Brasil, mas a crise do agronegócio ganhou uma nova configuração em 2026, concentrando a maior deterioração financeira entre os principais setores da economia.Cenário geralO levantamento mostrou ainda que o país encerrou o primeiro semestre com 6.341 empresas em recuperação judicial no chamado recorte restrito da pesquisa, formado pelas empresas de maior relevância econômica. O estoque permanece no maior nível da série histórica, com crescimento de 6,2% em relação ao fim de 2025 e alta acumulada de 21,2% em 12 meses. Apesar disso, junho registrou a primeira redução mensal relevante desde o início da série, com queda líquida de 172 empresas em recuperação judicial, sinalizando uma possível desaceleração, mas ainda insuficiente para indicar reversão da tendência, de acordo com a consultoria RGF.Essa redução observada em junho, segundo a empresa, deve ser interpretada com cautela, porque os dados de um único mês não caracterizam mudança estrutural e a economia ainda convive com um ambiente mais hostil, com crédito restritivo, no qual muitas empresas continuam pagando mais juros do que conseguem gerar de caixa.Leia tambémCorte da Selic faz Brasil cair uma posição e leva país ao 2º maior juro real do mundoBrasil tem juro real de 9,33% com Selic em 14%; ranking considera as 40 maiores economias do mundo e é liderado pela RússiaBC corta Selic em 0,25 ponto, a 14% ao ano, e deixa próximos passos em abertoFoi a quarta queda seguida da taxa, em uma decisão em linha com o esperado pelo mercadoEvolução setorialEmbora o agronegócio apresente a pior evolução relativa, o comércio continua concentrando o maior número absoluto de empresas em recuperação judicial. São 1.649 companhias, alta de 22% na variação de 12 meses. O setor é seguido pela indústria de transformação, com 1.455 empresas, enquanto a construção soma 1.102 processos.Outro segmento que chama atenção é o de transporte e logística, que registrou crescimento de 24% em 12 meses, refletindo os impactos do aumento do custo financeiro, da pressão sobre combustíveis e da desaceleração econômica.Na indústria de transformação, o estudo aponta que a combinação entre margens mais estreitas e financiamento caro continua sendo o principal fator por trás do aumento das recuperações judiciais, especialmente em segmentos como confecções, usinas de açúcar e fabricantes de embalagens.Dados de RJs por setor:Fonte: Monitor RGF-BizdocLeia Mais: Passivo na Justiça agrava crise e desafia empresas em recuperação judicialCrise chega aos pequenosAlém do cenário setorial, o levantamento identifica uma transformação importante no perfil das empresas em dificuldades financeiras. Enquanto grandes grupos passaram a recorrer com maior frequência às recuperações extrajudiciais, micro e pequenas empresas também passaram a utilizar cada vez mais a recuperação judicial, fenômeno impulsionado pelo encarecimento do crédito e pela compressão das margens de lucro.Mesmo assim, proporcionalmente, as grandes empresas continuam sendo as mais vulneráveis. A incidência de recuperações judiciais chega a 17,4 empresas por mil entre companhias de muito grande porte, contra apenas 0,07 por mil entre microempresas. A diferença ocorre porque pequenas empresas frequentemente encerram as atividades sem recorrer ao processo judicial, enquanto grandes corporações utilizam a recuperação para reorganizar dívidas complexas.Para os responsáveis pelo estudo, a principal explicação para o elevado número de recuperações continua sendo o custo do dinheiro. Embora o Banco Central tenha iniciado o ciclo de redução da taxa Selic, o relatório calcula que o juro real permanece próximo de 9% ao ano, um dos mais altos do mundo. Nesse ambiente, empresas fortemente endividadas seguem comprometendo parcela significativa do caixa apenas com despesas financeiras.Outro fator destacado é que os efeitos positivos da queda dos juros costumam demorar entre 12 e 18 meses para aparecer nas estatísticas de insolvência. Por isso, a expectativa é que o número de recuperações judiciais permaneça elevado durante o restante de 2026, ainda que o ritmo de crescimento seja menor do que o observado nos últimos anos.Falências voltam a crescerO levantamento mostra ainda uma retomada das falências. Depois de permanecer praticamente estável ao longo de 2025, o estoque de empresas falidas voltou a subir e chegou a 2.798 casos ao final de junho, aumento de 66 ocorrências no ano, sendo 38 apenas no segundo trimestre.Segundo a Monitor RGF-Bizdoc, esse movimento ocorre em paralelo a uma mudança relevante na jurisprudência. Em fevereiro deste ano, o Superior Tribunal de Justiça reconheceu a possibilidade de a Fazenda Pública requerer a falência de empresas quando a execução fiscal se mostrar ineficaz, ampliando os instrumentos de cobrança de grandes devedores tributários.The post O agro quebra mais que qualquer outro setor — e não é por causa da safra appeared first on InfoMoney.
