Nenhum mercado emergente tem tanto peso relativo em portfólios de fundos de ações quanto o Brasil. É o que mostra o levantamento trimestral do UBS sobre posicionamento de investidores institucionais, que acompanha cerca de 220 fundos ativos globais e de emergentes, com patrimônio somado de aproximadamente US$ 1,6 trilhão, além de ETFs com mais de US$ 500 bilhões sob gestão.Na medição mais recente, com data de corte em 30 de junho, a posição dos fundos de emergentes em ações brasileiras superava em cerca de quatro pontos percentuais o peso do país no índice MSCI Emerging Markets. É a maior diferença positiva entre todos os mercados cobertos pelo banco e um patamar próximo da máxima dos últimos cinco anos. Índia e México aparecem depois, com sobrepeso perto de dois pontos, enquanto Coreia do Sul e Taiwan concentram as maiores posições abaixo do índice.Essa concentração ficou evidenciada ainda no começo do ano. A fatia da Bolsa brasileira em mãos estrangeiras, medida como proporção do valor de mercado, superou 62% no primeiro trimestre, o nível mais alto da série do banco iniciada em 2017. Mesmo após o recuo das últimas leituras, para perto de 58%, o patamar segue acima da média histórica do período.Para efeito de comparação, na China a participação estrangeira gira em torno de 3,5% do valor de mercado. A diferença tem explicações estruturais, entre elas o tamanho e a maturidade da base de investidores locais em cada país, mas ajuda a dimensionar o quanto a Bolsa brasileira depende do humor do investidor internacional.O Brasil ganhou espaço nas carteiras enquanto outros mercados começaram a perder. Entre abril e junho, o país registrou o terceiro maior aumento de peso relativo entre os mercados listados pelo banco, atrás apenas da China e de demais países da América Latina. O avanço brasileiro no período foi de 0,82 ponto percentual. No acumulado do ano, o Brasil aparece entre os três maiores aumentos, ao lado de China e África do Sul.Reversão costuma ser velozMas então os primeiros sinais de reversão começaram a aparecer. No segundo trimestre, o Brasil teve saída líquida de US$ 3,9 bilhões, revertendo o saldo positivo dos trimestres anteriores. Medida em proporção ao tamanho do mercado, foi a segunda maior retirada entre os emergentes no período, atrás apenas da Coreia do Sul, que sozinha respondeu por 72% de toda a saída da categoria. Em julho o fluxo voltou ao terreno positivo, com entrada de US$ 0,6 bilhão, antes da piora observada em agosto.Este mês já traz oito quedas seguidas, com retiradas de R$ 12 bilhões da B3. Nesta sexta, o índice Ibovespa volta a negociar em território negativo, a cerca de 169.400 pontos.O histórico mostra com que velocidade essas posições se desfazem. Entre o segundo e o terceiro trimestre de 2024, o sobrepeso do Brasil caiu de 4,7% para 2,4%, uma redução de mais da metade em três meses. Movimentos parecidos apareceram em outros mercados neste ano, com a Coreia do Sul perdendo 2,72 pontos percentuais de peso relativo no segundo trimestre, redução que o UBS associa à concentração crescente do mercado e ao rebalanceamento de posições ligadas a inteligência artificial.Pessimismo toma contaOs indicadores de intenção medidos no Brasil apontavam para menor apetite antes mesmo da queda de agosto. Pesquisa do Itaú BBA com 99 investidores institucionais, realizada no fim de junho, mostra que a parcela que espera entrada de capital estrangeiro nos próximos seis meses caiu de 91% para 59%. A disposição de aumentar exposição a ações brasileiras recuou de 50% para 32%, enquanto o caixa dos fundos long-only subiu para 7,6%, o nível mais alto da série apresentada pelo banco, e a exposição dos multimercados à Bolsa caiu para 10,2%.Na mesma pesquisa, a parcela de investidores com visão positiva para a Bolsa brasileira caiu de 77,6% para 50,5%, com a nota média de otimismo recuando de 7,09 para 6,10, a menor desde fevereiro de 2025. A política doméstica lidera com folga a lista de fatores que devem mover o mercado, com 74% dos votos.De lá para cá, as evidências se acumularam. O ETF iShares MSCI Brazil, com US$ 8,4 bilhões sob gestão, registrou nesta semana sua maior saída diária desde 2013, enquanto o JPMorgan rebaixou o Brasil de compra para neutro e cortou a projeção do Ibovespa no fim de 2026 de 190 mil para 185 mil pontos.A eleição de outubro concentra as atenções dos investidores, com a política doméstica liderando a lista de fatores que devem mover o mercado na pesquisa do Itaú BBA, seguida das dúvidas sobre a trajetória fiscal e do rumo dos juros globais. Soma-se a isso a expectativa de um ciclo de queda da Selic menos generoso do que se imaginava no começo do ano, além do retorno da atratividade das ações americanas, impulsionadas pelo crescimento dos lucros e pelos investimentos em inteligência artificial.Do outro lado, os atributos que atraíram esse capital continuam no lugar. O Brasil negocia a 10,2 vezes o lucro projetado para os próximos doze meses, abaixo da média de 13,2 vezes da última década e atrás apenas da Coreia do Sul, a 9,2 vezes, entre os mercados comparados no apêndice do relatório.O dividendo projetado reforça o argumento. O rendimento esperado para os próximos doze meses está em 7,0%, contra média histórica de 5,1% e muito acima do que oferecem os demais mercados da amostra, todos abaixo de 4%. O retorno sobre patrimônio projetado, de 22%, também supera a média de dez anos, de 18%.O UBS mantém o Brasil entre os mercados que continua recomendando, ao lado de China e Malásia, com a Coreia do Sul como principal aposta. The post Sangria vai longe? Bolsa brasileira é emergente com maior peso em fundos globais appeared first on InfoMoney.
