O varejo quebrou? O que está por trás das RJs de Casas Bahia e Marabraz

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Os recentes pedidos de recuperação judicial (RJ) da Casas Bahia (BHIA3), com dívidas de R$ 17,3 bilhões, e da Marabraz, com um passivo de R$ 140 milhões, acenderam um alerta no mercado. Afinal, o varejo brasileiro está quebrando? Especialistas consultados apontam que não há um colapso generalizado, mas sim uma crise seletiva em parte do varejo, impulsionada por uma combinação de juros altos, restrição de crédito e fragilidades na gestão.Neste cenário, as empresas recorrem à recuperação judicial para declarar incapacidade de pagar dívidas. Com isso, traz os credores à mesa para uma renegociação supervisionada pela Justiça, buscando preservar as operações.Leia também: Varejo opera em duas velocidades: avança no essencial, mas recua nos bens a créditoCrise do varejo é seletiva e não um colapso Os números recentes do setor não descrevem um cenário de falência sistêmica, apontando, ao contrário, avanço no setor. Dados do IBGE apontam que, em junho de 2026, o volume de vendas do comércio varejista cresceu 2,9% na comparação com o mesmo mês do ano anterior. Já a receita nominal avançou 7%.Isso ocorre porque o varejo pode ser classificado em três segmentos diferentes, e somente um deles está mais exposto ao cenário de juros altos e inadimplência recorde.O segmento de giro rápido e baixo valor, que engloba supermercados e farmácias, mantém-se resiliente, conta com demanda pouco elástica e é pouco dependente de crédito. O varejo digital, por sua vez, continua ganhando participação de mercado sem carregar o peso de estoques ou de imóveis dos pontos de venda.O problema está concentrado no varejo de bens duráveis, que opera com lojas físicas, que demandam investimentos, e depende fortemente de vendas parceladas, explica Jéssica Costa, head e sócia da consultoria empresarial Agr Consultores.“É neste varejo que está o ‘estresse’”, diz. “As recuperações judiciais desta semana estão todas no terceiro grupo. Isso não é coincidência, significa que [o problema] é seletivo e a crise não é generalizada no varejo”, pontua.Jorge Ferreira dos Santos Filho, professor do curso de Administração da ESPM, destaca que a crise das RJs no varejo está ligada à dependencia do capital de giro. “O varejo, como um todo, é muito intensivo em necessidade de caixa, porque o giro é muito grande”, afirma o especialista. E, em tempos de aperto econômico e crédito caro, o consumo das famílias muda. “A pessoa não deixa de colocar arroz, feijão e itens da cesta básica e remédio dentro de casa, mas a compra da cama, do eletrodoméstico, pode ser postergada”, afirma Ferreira, o que explica as diferentes exposições do varejo ao cenário atual.Crises acumuladas e alavancagemO varejo chega ao atual cenário de juros altos após passar por uma sucessão de ciclos econômicos que colocam o fôlego do setor à prova.A forte recessão de 2015 e 2016 gerou duas quedas anuais consecutivas nas vendas, e a diferença entre a queda vertiginosa da receita e as estruturas fixas das empresas foi coberta com dívidas, dando origem a boa parte da alavancagem vista hoje nos balanços, segundo Costa. Na fase de recuperação, de 2017 a 2019, o crescimento retomado com a queda da taxa Selic a mínimas históricas foi direcionado para refazer as operações e investir no mercado digital, o que é considerado um erro estratégico ao não priorizar a redução do endividamento. Este cenário foi agravado entre 2020 e 2021, em uma fase classificada como a armadilha do dinheiro barato, quando a Selic atingiu a marca de 2% e acabou financiando expansão de longo prazo em uma janela de juros de curtíssima duração. E, finalmente, no período de 2022 e 2026, a conta das alavancagens chegou: a Selic subiu a 13,75%, oscilou, atingiu um pico de 15% em junho de 2025 e recuou gradualmente para os atuais 14%, o que dividiu a realidade das empresas entre um resultado operacional aceitável e uma despesa financeira crítica. Como a Selic afeta a Casas Bahia e MarabrazÉ neste cenário que operam o Grupo Casas Bahia e a Marabraz. Com a taxa Selic a 14%, o varejo de duráveis vê os juros das próprias dívidas aumentarem e a demanda dos consumidores caindo, vítimas do mesmo cenário de crédito caro. No caso da Casas Bahia, houve uma reestruturação financeira prévia, em 2024, que apenas comprou tempo, avalia Jessica Costa, mas não foi acompanhada na velocidade necessária por uma reestruturação operacional. Já a Marabraz enfrentou problemas de governança e disputas societárias que imobilizaram garantias, inviabilizando o refinanciamento de suas dívidas de forma intransponível. Nesse contexto, os pedidos de recuperação judicial não configuram o fim das atividades das empresas, mas sim uma tentativa de evitar a falência, permitindo que a companhia siga operando, empregando e negociando com o mercado, explica Jorge Ferreira dos Santos Filho, da ESPM. Um estudo da RGF-BIZDOC, que analisa o aumento da recuperação judicial no segmento de comércio varejista, aponta que o número cresceu 20,4% em 12 meses, 6,6% no primeiro semestre e 1,8% no segundo trimestre. Ou seja, apesar da alta anual, o ritmo de entrada em RJ está desacelerando.O que muda para o consumidorA crise financeira de grandes nomes do varejo afeta diretamente a ponta final da cadeia de consumo. O consumidor passa a enfrentar critérios de aprovação de crédito mais rigorosos, prazos de parcelamento encurtados e uma redução de promoções, que pode levar ao fim do “24 vezes sem juros”.“‘24 vezes sem juros’ não é promoção, é produto financeiro bancado por capital de giro. Mas a varejista que estiver sob estresse vai encurtar o prazo, apertar o critério de aprovação e reduzir ou suspender o crediário próprio. Isso pesa desproporcionalmente sobre o consumidor de baixa renda, que muitas vezes compra duráveis exclusivamente pelo crediário da loja e não tem alternativa bancária”, diz Costa.Além disso, os cortes de custos internos das varejistas atingem serviços agregados, como entregas, montagens, assistência técnica e garantias, locais onde o cliente sente o impacto primeiro. O cenário de estresse também respinga na cadeia de suprimentos: fornecedores sob risco reduzem limites e passam a exigir pagamentos antecipados, o que frequentemente resulta em ruptura de estoques e menor variedade nas prateleiras.Mas, e o consumidor, vai ficar sem geladeira? Paula Sauer, professora da FIA Business School, explica que pedidos já pagos têm que ser entregues, garantidos pelo Código de Defesa do Consumidor. A dica é guardar sempre o comprovante de pagamento, número do pedido e notas fiscais da compra. Isso vale para qualquer compra, em qualquer ambiente, seja físico, online ou marketplaces.Crise de imagemParalelamente aos desafios de caixa, as marcas também lidam com a exposição de imagem. Um levantamento recente do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) e da FIA Business School apontou que o porte financeiro de uma empresa explica apenas 4,4% da variação no seu risco reputacional. Os outros 95,6% estão atrelados a eventos específicos, como os próprios processos de recuperação judicial, fraudes ou crises locais mal administradas. O estudo demonstra que a vulnerabilidade no setor é democrática e atinge desde multinacionais bilionárias até redes regionais de menor porte, onde a ocorrência de uma crise específica é o verdadeiro ímã para o abalo de reputação. The post O varejo quebrou? O que está por trás das RJs de Casas Bahia e Marabraz appeared first on InfoMoney.

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