A sucessão de suspeitas e conflitos que atingiu o Supremo Tribunal Federal (STF) pode transformar o desgaste da Corte em um problema para a eleição presidencial de 2026. A avaliação é da revista britânica The Economist, que publicou nesta quinta-feira (10) uma análise sobre os desdobramentos do caso Banco Master.O artigo concentra sua preocupação na perda de confiança em uma instituição que ganhou protagonismo nos últimos anos ao enfrentar casos de corrupção e os ataques ao resultado das eleições de 2022. Para a revista, esse capital institucional está sendo colocado em risco pela atuação de integrantes do próprio tribunal.“A maior perdedora seria a democracia brasileira. Os brasileiros estão cansados dos escândalos de corrupção que mancham a classe política a cada poucos anos. Eles costumavam confiar em sua mais alta corte, que enviou dezenas de políticos para a prisão por corrupção. Agora, essa confiança está se desgastando”, afirma.A publicação diz que ministros antes associados à defesa da democracia passaram a ocupar o “centro de um escândalo de corrupção feio e em constante expansão”. O artigo trata principalmente das condutas de Alexandre de Moraes e André Mendonça.Leia tambémFachin assume inquérito que apura atuação de Eduardo Bolsonaro nos EUAMudança é efeito da retirada de Moraes da condução do inquérito das fake news e não altera condenação do ex-deputadoMendonça, o ministro “terrivelmente evangélico” do STF que molda a eleição no BrasilO ministro tornou-se um herói para muitos na direita brasileira e vem demonstrando cada vez mais sua influência na CorteCaso Master muda foco das críticas a MoraesA revista parte da atuação de Moraes nos processos relacionados a Jair Bolsonaro para explicar como o ministro acumulou poder dentro do Supremo.Embora destaque a responsabilização do ex-presidente pela tentativa de golpe após as eleições de 2022, a The Economist avalia que Moraes tomou “várias decisões questionáveis” durante esse período. O inquérito das fake news é citado como outro exemplo de medidas que já provocavam dúvidas sobre os limites de sua atuação.Segundo o artigo, essas críticas ficaram em segundo plano enquanto Bolsonaro representava uma ameaça mais imediata às instituições. As investigações sobre o Banco Master, na avaliação da publicação, mudaram esse cenário.Registros obtidos pela Polícia Federal passaram a indicar contatos entre Moraes e Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco. A revista considera especialmente problemática a existência de uma relação entre um ministro do Supremo e o banqueiro investigado.“É decepcionante que um poderoso ministro do STF tenha qualquer tipo de vínculo com o maior fraudador do Brasil”, afirma.A reação de Moraes às revelações também é alvo do texto. A revista cita a proposta apresentada pelo presidente do STF, Edson Fachin, de criação de um código de ética para os ministros, com regras sobre a divulgação de rendimentos externos. Segundo a publicação, Moraes ridicularizou a iniciativa.Disputa passa a envolver MendonçaO conflito ganhou outra dimensão quando as informações sobre Moraes passaram a ser tratadas por André Mendonça, relator de processos relacionados ao Master.Em 3 de setembro, Moraes pediu que a atuação do colega fosse investigada por possíveis irregularidades, incluindo abuso de autoridade e motivação política.A The Economist considera que parte das objeções de Moraes pode ter fundamento, especialmente diante das decisões posteriores de Mendonça. O ministro determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e adotou medidas contra a produção de relatórios de inteligência sobre integrantes da Corte.A revista também recupera um episódio de 2020, quando Mendonça era ministro da Justiça de Bolsonaro. Naquele período, a pasta supervisionou a produção de um dossiê sobre policiais e acadêmicos considerados adversários do então governo.A sequência de decisões envolvendo os dois ministros, segundo o artigo, deslocou a crise para dentro do próprio Supremo e criou dúvidas sobre a forma como a investigação do Master vem sendo conduzida.Efeito pode chegar à investigação e à campanhaA preocupação da The Economist também passa pelas consequências jurídicas do conflito. Questionamentos sobre a atuação de Mendonça e Moraes poderiam ser usados para contestar a validade de atos da investigação do Banco Master.“Os equívocos processuais de Mendonça e as tentativas descaradas de Moraes de se proteger também poderiam fornecer justificativa jurídica para encerrar toda a investigação sobre o Banco Master”, afirma a revista.Um eventual enfraquecimento da apuração alcançaria políticos relacionados a Vorcaro. O artigo cita Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência e principal nome da direita na eleição deste ano.A publicação lembra que Flávio havia negado conhecer o ex-banqueiro. Posteriormente, áudios revelaram conversas nas quais o senador aparece pedindo milhões de dólares a Vorcaro.O conflito também oferece combustível político para aliados de Jair Bolsonaro no Congresso. Segundo a revista, esse grupo pretende retomar após as eleições iniciativas para afastar ministros do Supremo e conceder perdão ao ex-presidente.Para a The Economist, o problema institucional se torna mais relevante justamente porque ocorre durante a campanha presidencial. A revista avalia que a deterioração da imagem do Supremo pode alimentar a desconfiança de eleitores em relação às instituições encarregadas de garantir o funcionamento do processo democrático.“Essa é a tragédia do Brasil: a corrupção no coração de suas instituições pode minar a confiança na democracia mais do que Jair Bolsonaro jamais fez”, conclui o artigo.The post The Economist vê risco à democracia em desgaste do STF após caso Master appeared first on InfoMoney.
