Quando Jacob Coxon anunciou sua saída da Anthropic nesta semana, alertando que a empresa e sua rival OpenAI estariam “apostando com nossas vidas” em uma corrida rumo à superinteligência, ele repetiu um argumento que já havia sido apresentado por profissionais mais experientes e influentes diversas vezes desde 2023. O que mudou agora não foi necessariamente a tese em si, mas o alcance da mensagem e o ambiente político em que ela repercutiu. Por algum motivo, a chamada narrativa do “apocalipse da IA” parece hoje encontrar muito mais espaço no debate público.A publicação de Coxon ultrapassou 100 milhões de visualizações em poucos dias. Para efeito de comparação, a mensagem de despedida de Jan Leike da OpenAI, em maio de 2024, quando afirmou que a cultura de segurança havia perdido espaço para o lançamento de produtos, alcançou cerca de 6,1 milhões de visualizações. Já a saída de Mrinank Sharma da equipe de segurança da Anthropic, em fevereiro de 2026, acompanhada do alerta de que “o mundo está em perigo”, gerou aproximadamente 1 milhão de visualizações e 5 mil compartilhamentos nas primeiras 48 horas.Antes deles, Geoffrey Hinton, conhecido como um dos “pais da inteligência artificial” e vencedor do Prêmio Nobel, deixou o Google em maio de 2023 para poder falar livremente sobre os riscos da tecnologia. Na época, afirmou que havia reduzido significativamente sua estimativa sobre quando a inteligência artificial geral poderia surgir e atribuiu entre 10% e 20% de probabilidade a uma catástrofe provocada pela IA. Em maio de 2024, foi a vez de Ilya Sutskever, cofundador e cientista-chefe da OpenAI, deixar a empresa em meio a divergências sobre a prioridade dada à segurança após a breve saída e posterior retorno de Sam Altman ao comando da companhia.Em julho de 2026, mais de 1.100 funcionários de empresas de ponta em inteligência artificial, incluindo cofundadores da Anthropic e o cientista-chefe da OpenAI, assinaram uma carta aberta pedindo que o governo dos EUA apoiasse mecanismos para desacelerar deliberadamente o desenvolvimento da tecnologia. O movimento ocorreu após relatos de que dois modelos da OpenAI teriam escapado de um ambiente de testes controlado. Assim, a saída de Coxon representa ao menos o quinto grande alerta público vindo de pesquisadores do setor desde 2023. A questão é: por que esta ganhou tanta repercussão?Parte da resposta está na reação que suas declarações provocaram. Evan Hubinger, líder da equipe de Ciência de Alinhamento da Anthropic, apoiou publicamente o ex-colega e afirmou acreditar haver mais de 10% de chance de extinção da humanidade dentro de uma década por causa da IA. Segundo ele, a Anthropic ainda não possui um plano concreto para controlar sistemas superinteligentes. Outros pesquisadores da empresa, como Samuel Marks e Joe Benton, também reforçaram as preocupações, com Benton classificando as críticas de Coxon como “amplamente precisas”.Leia tambémOracle supera projeções de receita no 1º tri fiscal impulsionada por boom da IAAs ações da empresa, que acumularam queda de mais de 20% neste ano, subiram quase 7% após o fechamento do mercadoTSMC vê salto de 53% das vendas em agosto com mercado relacionado a IA aquecidoA receita de agosto da TSMC foi de 514,8 bilhões de novos dólares taiwaneses (US$ 16,35 bilhões), aumento de 53,3% em relação ao mesmo mês do ano anteriorA repercussão política foi imediata e mais ampla do que em episódios anteriores. Em menos de 48 horas, o senador republicano Ted Cruz descreveu o risco como “assustador demais”, enquanto o senador democrata Bernie Sanders passou a trabalhar em uma proposta legislativa para interromper temporariamente o desenvolvimento de sistemas avançados de IA. No Reino Unido, um ex-ministro do Tesouro defendeu um tratado internacional sobre superinteligência, e um parlamentar trabalhista sugeriu proibir o desenvolvimento de modelos considerados “fora de controle”.O fenômeno ajuda a ilustrar o conceito da chamada “Janela de Overton”, criado pelo analista de políticas públicas Joseph Overton. A teoria sustenta que, em qualquer momento, apenas um conjunto limitado de ideias é considerado politicamente aceitável. Com o tempo, porém, ideias vistas como extremas podem ganhar espaço, ser normalizadas e acabar incorporadas ao debate principal.Aplicada ao contexto atual, a tese de que a inteligência artificial avançada poderia representar uma ameaça existencial à humanidade passou anos restrita a pesquisadores especializados e comunidades ligadas ao altruísmo eficaz. Hoje, porém, o tema já aparece em discursos de parlamentares dos dois principais partidos americanos e mobiliza dezenas de milhões de pessoas nas redes sociais. Para muitos observadores, isso sugere que a Janela de Overton realmente se abriu para esse tipo de preocupação.Outro fator relevante é a crescente resistência pública ao avanço da infraestrutura necessária para sustentar a corrida da IA. Quando Hinton deixou o Google em 2023, o ChatGPT havia sido lançado há apenas alguns meses e os data centers ainda não eram alvo de controvérsia política. Já em 2026, a situação mudou radicalmente. Pesquisas passaram a registrar maioria da população contrária à rápida expansão desses empreendimentos, impulsionada por preocupações com consumo de energia, impacto ambiental e custos para os consumidores.Uma pesquisa da Reuters/Ipsos divulgada em junho mostrou que 64% dos entrevistados acreditam que não é positivo construir data centers em ritmo acelerado, enquanto 77% demonstraram preocupação com potenciais aumentos nas tarifas de eletricidade. Levantamentos da Gallup e da Economist/YouGov apontaram níveis de rejeição local a novos data centers superiores a 70%, ultrapassando até mesmo a oposição observada em relação às usinas nucleares.Há, porém, uma explicação menos confortável para a viralização da mensagem de Coxon. Economistas como Timur Kuran e Cass Sunstein descrevem um fenômeno chamado “cascata de disponibilidade”, no qual uma ideia ganha força principalmente porque passa a ser repetida de forma constante e visível. Isso não significa que a preocupação seja falsa, mas sugere que a popularidade de determinado alerta não é necessariamente um indicador de sua precisão científica.Uma teoria semelhante, a da “cascata informacional”, argumenta que, quando muitas pessoas passam a apoiar uma determinada visão, novos participantes tendem a seguir o grupo em vez de formar uma avaliação própria. Nessas situações, fatores aparentemente aleatórios, como o momento de uma publicação ou quem a compartilhou inicialmente, podem ter um impacto enorme sobre sua disseminação.No fim das contas, a rejeição crescente aos data centers e o efeito dessas cascatas sociais não são explicações excludentes. Um público já predisposto a desconfiar da expansão da IA pode ser mais receptivo a alertas dramáticos sobre seus riscos. E, uma vez iniciado o processo de viralização, a percepção de consenso tende a crescer rapidamente.Por isso, a impressão de que o “apocalipse da IA” está mais próximo do que nunca talvez não decorra apenas do conteúdo dos alertas, mas também do momento político, social e econômico em que eles surgem. Como resume a análise, o timing desta vez parece ter sido perfeito.© 2026 Fortune Media IP LimitedThe post “Mundo está em perigo”: por que este alerta sobre o risco da IA “quebrou” a internet? appeared first on InfoMoney.
