O forte avanço dos custos de frete marítimo para transporte de minério de ferro tem reduzido significativamente a rentabilidade dos produtores globais e levado os preços FOB (valor que representa o preço da mercadoria e os custos associados até o momento em que ela deixa o local de origem) do minério aos níveis mais baixos em oito anos, segundo análise do Marcio Farid, Emerson Vieira e Henrique Marques, do Goldman Sachs.Embora o minério de ferro entregue na China (CFR) tenha permanecido relativamente resiliente, os fretes do segmento capesize, usado no transporte de grandes volumes de commodities, mais que dobraram em relação à média dos últimos dez anos nas rotas Brasil-China e Austrália-China. Como consequência, os preços recebidos pelos exportadores nos portos de origem atingiram os menores níveis desde 2018.Segundo o banco, o movimento é resultado de um desequilíbrio entre oferta e demanda de embarcações, agravado pela alta dos combustíveis marítimos e por restrições operacionais que reduziram a disponibilidade efetiva da frota global. Entre os fatores citados estão os tufões no Sudeste Asiático, a redução da velocidade dos navios devido ao aumento dos custos de combustível, um ciclo concentrado de manutenções obrigatórias e a limitada expansão da frota de capesize desde 2020.Leia tambémIbovespa Hoje Ao Vivo: Bolsa cai com dados de inflação, eleições e STFBolsas dos EUA avançam após inflação ao consumidor acelerar No lado da demanda, o destaque é o crescimento das exportações de bauxita da Guiné, que competem diretamente com o minério de ferro pelo uso das embarcações. De acordo com o Goldman Sachs, o mercado opera atualmente com um déficit estimado entre 3 milhões e 5 milhões de toneladas por mês em capacidade de transporte.Aperto deve continuar até 2028A expectativa do banco é que o mercado de fretes continue apertado pelos próximos anos. Embora a entrega de novos navios deva acelerar em 2027, uma expansão mais relevante da oferta é esperada apenas a partir de 2028. Enquanto isso, novas cargas devem continuar entrando no mercado.Entre elas está o projeto de minério de ferro de Simandou, na Guiné, que já iniciou embarques e deverá ampliar gradualmente suas exportações nos próximos anos. O crescimento do comércio de bauxita também continua sustentando a demanda por navios de grande porte.Além disso, uma parcela relevante da frota global passará por inspeções obrigatórias. Segundo o relatório, cerca de 510 navios capesize, equivalentes a aproximadamente 25% da frota mundial, deverão entrar em estaleiros para manutenção em 2026, reduzindo temporariamente a capacidade disponível no mercado.Diante desse cenário, o Goldman Sachs avalia que a oferta e a demanda por embarcações dificilmente voltarão ao equilíbrio antes de 2028 ou 2029.Brasil sente impacto maiorO banco destaca que os produtores brasileiros são os mais vulneráveis ao aumento dos fretes devido à maior distância entre os portos do Brasil e a China.Atualmente, o custo de transporte na rota Brasil-China gira em torno de US$ 40 por tonelada, aproximadamente o dobro do observado na rota Austrália-China, próxima de US$ 20 por tonelada.Para o Goldman Sachs, a combinação de minério a US$ 100 por tonelada e frete próximo de US$ 40 por tonelada não parece sustentável para milhões de toneladas de produção que dependem do mercado spot de transporte marítimo. O banco estima que entre 50 milhões e 70 milhões de toneladas anuais de minério produzido no Brasil operam atualmente próximo do ponto de equilíbrio econômico.O relatório afirma que a situação já afeta algumas empresas. Segundo verificações realizadas pelo banco junto ao setor, a Usiminas (USIM5) reduziu sua produção de minério em cerca de 30%, enquanto outras mineradoras de menor porte avaliam desacelerar operações devido à pressão sobre as margens.Vale mais protegida, CSN Mineração mais expostaEntre as companhias listadas, o Goldman Sachs vê a CSN Mineração (CMIN3) como uma das mais expostas ao cenário atual.A empresa embarca entre 40 milhões e 45 milhões de toneladas por ano, tem exposição integral aos preços spot de frete e ainda depende da compra de minério de terceiros para cerca de 30% de seus volumes comercializados.Já a Vale (VALE3) estaria relativamente protegida. Segundo o banco, cerca de 90% a 95% dos volumes transportados pela mineradora em 2026 estão cobertos por contratos de frete com tarifas inferiores às praticadas atualmente, enquanto aproximadamente 80% dos embarques de 2027 também já contam com proteção contratual.Na avaliação dos analistas, fretes estruturalmente mais elevados tendem a reduzir a competitividade relativa do minério brasileiro frente ao australiano. Ainda assim, os contratos de longo prazo da Vale, que cobrem aproximadamente 75% dos embarques da companhia, ajudam a mitigar parte desse impacto.Pressão sobre oferta pode dar suporte ao minérioApesar da deterioração das margens dos produtores, o Goldman Sachs não acredita que a disparada dos fretes seja suficiente para elevar os preços do minério de ferro no curto prazo.Segundo o banco, os fundamentos do mercado continuam desafiadores, com produção de ferro-gusa fraca na China, estoques elevados nos portos e margens pressionadas das siderúrgicas chinesas.Ainda assim, os analistas observam que os fretes mais altos elevam a curva global de custos da indústria e podem oferecer suporte aos preços caso parte da oferta deixe o mercado em razão da menor rentabilidade. O principal gatilho para uma recuperação mais consistente do minério seria justamente a redução da produção de mineradoras de maior custo, cenário que começa a ganhar força diante das condições atuais.The post Frete marítimo salta e pressiona mineradoras brasileiras: como afeta VALE3 e CMIN3? appeared first on InfoMoney.
