Washington — Com menos de dois meses até as eleições de meio de mandato (midterms”), o presidente Donald Trump iniciou um esforço final na semana passada para preservar sua maioria republicana no Congresso, argumentando que os Estados Unidos sob controle do Partido Republicano haviam reduzido os preços “muito, muito”.Mas, para muitas famílias e empresas, a economia parecia estar em terreno muito mais instável até sexta-feira. Os preços dos combustíveis dispararam, os custos das hipotecas subiram e a inflação registrou níveis desconfortavelmente altos, testando a paciência do público com as frequentes garantias de Trump de que o país está no caminho certo.O contraste ressaltou os riscos políticos e econômicos para Trump, que pode em breve enfrentar a ira de um eleitorado há muito desiludido com promessas feitas em Washington de reduzir o custo de vida. À medida que novembro se aproxima, os preços subiram sob a liderança do presidente, impulsionados em grande parte por uma agenda que incluiu dois anos de uma arriscada guerra comercial e uma guerra prolongada com o Irã.Leia também: Núcleo do CPI vem mais “quente” que o esperado e abre espaço para alta de jurosAs consequências ficaram evidentes no mais recente indicador do índice de preços ao consumidor (CPI), divulgado na sexta-feira (11). O relatório mostrou que os preços subiram a um ritmo anual de 3,4% em agosto, o que aumentou as chances de o Federal Reserve elevar as taxas de juros na próxima semana.Os dados chegaram no mesmo dia em que uma pesquisa separada e de longa data da Universidade de Michigan constatou que a confiança do consumidor caiu drasticamente neste mês. Nesse relatório, os americanos expressaram novas preocupações de que a economia estava se engasgando e que a inflação continuaria a subir.A inquietação preparou o terreno para o novo esforço de Trump na semana passada para convencer os eleitores de que ele ajudou, e não prejudicou, a economia. Ao longo de dois dias de discursos na convenção de meio de mandato de seu partido em Dallas, o presidente se esforçou para convencer os americanos de que os republicanos haviam alcançado “um sucesso econômico tremendo”.Mas Trump não se limitou a uma defesa arrogante de seu histórico. O presidente também disse que enviaria um cheque de US$ 5.000 aos cidadãos americanos se os republicanos mantivessem a Câmara e o Senado em novembro, embora não tenha cumprido promessas semelhantes no passado.“Então, se os republicanos vencerem, vocês vencem conosco”, disse Trump, acrescentando logo depois: “Parabéns. Agora tudo o que precisamos fazer é vencer.”A Casa Branca não respondeu a um pedido de comentário.Para Trump, a luta contra a inflação tem se mostrado tão perniciosa que ofuscou até mesmo os poucos pontos positivos da economia. Apesar de quase dois anos de turbulência política, o mercado de trabalho permaneceu forte, a economia está crescendo e o país está testemunhando um boom em torno da inteligência artificial, que tem geralmente encantado os mercados financeiros.Preços e saláriosMas esses pontos positivos nem sempre têm sido óbvios ou tangíveis para os eleitores, que sofreram anos de custos crescentes que atingiram o pico durante a pandemia de coronavírus. Essas tensões financeiras continuaram em agosto, quando os preços subiram mais rápido do que os salários por hora em uma base anual pelo quinto mês consecutivo.“A economia está indo bem, mas isso não está elevando a confiança do consumidor”, escreveu Oren Klachkin, economista de mercado financeiro da Nationwide, em uma análise dos novos dados de inflação na sexta-feira. “Em vez disso, eles estão focados diretamente no aumento dos preços e das taxas de juros que estão corroendo o poder de compra.”Em uma entrevista, Klachkin acrescentou que não via a inflação “caindo em um ritmo significativo tão cedo”. Ele citou uma série de riscos, incluindo a incerteza em torno das tarifas na guerra comercial de Trump e a guerra com o Irã.Leia também: Emprego forte revive aposta em alta de juros nos EUA e embaralha caminho da SelicPetróleo, gasolina e dieselAmbos os conflitos se intensificaram na semana passada, um período que não foi capturado no relatório de inflação mais recente. Mas os americanos ainda sentiram as consequências. O retorno das hostilidades no Irã, por exemplo, fez o preço do petróleo Brent, a referência global, atingir US$ 110 por barril brevemente na sexta-feira.Foi a primeira vez desde julho que os preços do petróleo atingiram esses níveis, e nos Estados Unidos coincidiu com um aumento contínuo nos preços da gasolina. Nacionalmente, a gasolina custava em média quase US$ 4,30 por galão até sexta-feira, de acordo com a AAA — bem mais de um dólar a mais do que há um ano. Ainda pior era o custo do diesel, que ultrapassou US$ 6 por galão, estabelecendo um recorde que pode afetar profundamente o transporte e a logística.Leia também: Preços do petróleo sobem forte após novos ataques à Arábia Saudita e a OrmuzO aumento levou Kevin Hassett, diretor do Conselho Econômico Nacional da Casa Branca, a reconhecer que os custos crescentes do diesel em particular representavam uma “questão grande, grande” para a economia. Em uma aparição na sexta-feira na Fox Business, ele apontou a incerteza geopolítica — inclusive no Oriente Médio — como a causa raiz.Mas não houve sinal na semana passada de que a guerra com o Irã estava perto de terminar. Até Trump reconheceu em certo momento que os altos preços do petróleo e da gasolina poderiam persistir até “logo após a eleição”, embora tenha previsto que os custos cairiam rapidamente, contrariando os avisos dos economistas.“Eles vão despencar, e vamos conseguir reduzi-los. Acho que para a gasolina, vamos conseguir colocá-la abaixo de US$ 2 o galão”, disse o presidente a repórteres, acrescentando: “Acho que vai demorar um pouco mais do que o meio de mandato.”Juros, hipotecas e TreasuriesO novo choque energético criou mais dores de cabeça para o Fed e seu novo presidente, Kevin Warsh. Enquanto o Fed planeja um aumento da taxa de juros para conter a inflação, Trump redobrou suas exigências por cortes significativos nas taxas. Na ausência de uma redução acentuada, o presidente chegou a ameaçar recentemente que poderia cortar todo o comércio com países que vendem mais aos Estados Unidos do que compram. As taxas estão agora na faixa de 3,25% a 3,75%.Em Wall Street, os ventos contrários econômicos também ajudaram a aumentar o custo dos empréstimos do próprio governo durante toda a semana. Isso veio na forma de rendimentos mais altos, que ultrapassaram 4,9% nos títulos de 10 anos, o nível mais alto desde 2023.O aumento trouxe implicações significativas, particularmente para os proprietários de imóveis, já que as taxas de hipoteca acompanham de perto os rendimentos desses títulos. A taxa média de um empréstimo de 30 anos atingiu cerca de 6,8% na semana passada, de acordo com Michael Fratantoni, economista-chefe da Mortgage Bankers Association, a maior em 15 meses.No início do ano, Trump havia prometido um plano agressivo para reduzir os custos habitacionais. Desde então, uma confluência de fatores fez as taxas de hipoteca dispararem, levando Fratantoni a prever na sexta-feira que elas poderiam chegar “a 7% ou acima” em breve.Os altos rendimentos também aumentaram os custos para Washington pagar suas próprias dívidas, que recentemente ultrapassaram US$ 40 trilhões sob Trump. Mas uma tentativa do secretário do Tesouro, Scott Bessent, de comprar títulos antigos na semana passada não conseguiu reduzir os rendimentos, já que os mercados ignoraram a intervenção.Brett Loper, vice-presidente executivo de políticas da Fundação Peter G. Peterson, que apoia a redução do déficit, atribuiu a má recepção às muitas “forças tectônicas em jogo”, incluindo a dívida americana em rápido crescimento.Some-se a isso a nova proposta de Trump aos eleitores, prometendo US$ 5.000 aos americanos se os republicanos prevalecerem nas eleições de meio de mandato — um plano que Loper estimou que poderia custar US$ 1,2 trilhão.Esse custo, somado aos problemas fiscais existentes, provavelmente “levaria a uma maior inflação e taxas de juros mais altas”, disse ele.Este artigo foi originalmente publicado no The New York Times.c.2026 The New York Times CompanyThe post Preços altos estragam novo esforço de Trump para salvar maioria republicana appeared first on InfoMoney.
