A inflação acima das expectativas, a alta no barril do petróleo e o mercado de trabalho devem pressionar o Federal Reserve (banco central dos EUA) a elevar nesta quarta-feira (16) os juros ao intervalo de 3,75% a 4%. O patamar atual está em 3,5% a 3,75%.Segundo o Bank of America (BofA), a decisão deve se basear nos dados que mostram a economia aquecida, com crescimento sólido, mercado de trabalho equilibrado e inflação alta.Os dados mais recentes apontam que o Índice de Preços ao Consumidor (CPI) avançou 0,4% em agosto (3,4% em 12 meses) e o Índice de Preços ao Produtor (PPI) também subiu 0,4%, com a disparada no preço do diesel. Recentemente, o petróleo Brent superou os US$ 100, pressionando os preços de energia.Essa pressão sobre as commodities energéticas é reflexo direto da nova escalada militar no Oriente Médio entre os EUA e o Irã, com ataques a petroleiros, ameaças de bloqueio no Estreito de Ormuz e investidas dos rebeldes houthis na região do Estreito de Bab el-Mandeb, destaca a XP. De acordo com Andressa Durão, economista do ASA, os números de inflação sustentam a alta de juros e devem dar força para Kevin Warsh convencer os membros indecisos a votarem pelo aumento de 0,25 bps. na taxa.Leia também: Com petróleo em alta, gasolina nos EUA sobe a US$ 4,31 e diesel bate recordeArgumentos para a alta de jurosA análise do Goldman Sachs das declarações de membros do Comitê de Política Monetária (Fomc) indica uma inclinação a apertar a política monetária. Na reunião de julho, embora a taxa tenha sido mantida, três diretores já divergiam para defender um aumento imediato. A votação ficou em 9 pela manutenção e 3 pelo aumento.Beth Hammack, presidente do Fed de Cleveland, declarou recentemente que a economia não está restritiva. “Tanto os dados concretos quanto os relatos qualitativos me indicam a mesma coisa: a política monetária não é restritiva. A inflação está muito alta — e quanto mais tempo ela permanecer acima da nossa meta, mais difícil será trazê-la de volta para baixo. No momento, o que percebo é que chegou a hora de agir”, disse.Outros diretores do Fomc, como Michael Barr e Christopher Waller, também deixaram claro que uma leitura de inflação aquecida em agosto justificaria uma ação decisiva para ajustar a postura do Fed. E Kevin Warsh, presidente do Fed, declarou preocupação com a inflação. “No que diz respeito ao componente de estabilidade de preços do nosso mandato, os números são mais preocupantes. Portanto, o foco principal do Fed neste momento deve ser os preços.”O BTG Pactual destaca que a inflação de serviços supercore (que exclui aluguéis) nos EUA acelerou para 4% acumulados em 12 meses, sinalizando uma forte demanda doméstica. Além disso, o relatório de emprego (payroll) de agosto surpreendeu ao registrar 162 mil vagas criadas, quando a projeção era de 55 mil.O dado veio com revisões altistas acumuladas em 55 mil vagas nos dois meses anteriores. O ganho foi puxado pela indústria de transformação, com adição de 41 mil vagas, refletindo os fortes investimentos em Inteligência Artificial, e pelo setor de serviços, que abriu mais 86 mil vagas. No mesmo período, a taxa de desemprego permaneceu estável em 4,1%.Leia também: Rendimento de títulos dos EUA de 10 anos atinge 5%, nível mais alto desde 2023Fed ‘sem paciência’ para a inflaçãoCamilo Cavalcanti, gestor de portfólio da Oby Capital, afirma que o quadro é de um comitê menos tolerante para a alta de preços. “Combinado à votação dividida (9 a 3) da reunião de julho, com três diretores já defendendo alta, o quadro é de um Comitê que perdeu paciência com o ritmo de convergência da inflação ao centro da meta de 2%”, avalia.Felipe Mecchi, economista do C6, também aposta na alta de juros. “Como os preços continuam pressionados e o mercado de trabalho segue resiliente, nossa avaliação é que a autoridade monetária deve voltar a subir os juros na reunião da semana que vem”, afirma.Tese minoritária: manutenção dos jurosApesar da alta probabilidade de elevação de juros, algumas instituições e gestores mantêm a projeção de manutenção da taxa nos EUA nesta reunião de setembro.Entre elas está o Bradesco. Em relatório, a equipe de economia avalia que o Fed deve manter os juros, ainda que reconheça um risco elevado de alta. O banco argumenta que, embora o núcleo do CPI tenha subido 0,29% em agosto (3,35% em 12 meses) impulsionado por itens voláteis como diárias de hotéis e passagens aéreas, os aluguéis residenciais e o aluguel imputado tiveram a menor alta para um mês desde 2020. Como os aluguéis têm peso elevado no índice, a desaceleração continuada deve conter a inflação à frente, o que poderia pesar no argumento da manutenção da taxa no patamar atual.Vinicius Flores, gestor de investimentos e sócio-fundador da Stratton Capital, com sede em Nova York, também aposta na manutenção. “Apesar da precificação atual do mercado, continuo acreditando que o Fed pode optar por manter os juros inalterados na próxima reunião”, diz.Os dados que fundamentam sua leitura são as expectativas de inflação implícitas nos títulos do Tesouro (Treasuries), que seguem bem ancoradas. Além disso, ele avalia que o mercado ainda não incorporou as revisões metodológicas do PCE que serão divulgadas em 30 de setembro, que tendem a produzir resultados mais favoráveis para a inflação. Outro ponto contra um aumento de juros agora são as eleições de midterm nos EUA, previstas para novembro, que poderia ser interpretado como uma atitude política.Projeções para o ano e 2027Para o encerramento de 2026 e os anos seguintes, os cenários traçados pelas casas indicam um ciclo prolongado de aperto monetário.O BofA projeta aumento de 75 pontos-base em 2026, a partir de setembro.A Oby Capital prevê pelo menos duas altas em 2026, uma em setembro e outra em dezembro.A Stratton Capital projeta uma taxa terminal de 4,25% até o fim de 2026, com aumento de 50 pb. adicionais em relação ao nível pós-setembro.Durão, do ASA, espera duas altas de juros neste ano. Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, projeta apenas uma alta de juros neste ano, a depender da evolução do conflito no Oriente Médio e dos preços do petróleo, com retomada de elevações em 2027.Além desta reunião de setembro, o Fomc deve se reunir em 27 e 28 de outubro e em 8 e 9 de dezembro.Impacto no BrasilA alta dos juros nos EUA impacta o Brasil pela reprecificação de risco e realocação de capital. Quando o Fed eleva suas taxas, os títulos do tesouro americano (Treasuries) passam a oferecer um rendimento maior. Nesta segunda-feira (14), os rendimentos atingiram 5%, o maior nível desde 2023. Isso faz com que o dinheiro se mova em direção aos EUA, já que o mundo entende que há baixo risco de a economia americana quebrar e o governo não honrar os pagamentos.Este movimento faz com que ocorra uma saída de dólares do Brasil, o que valoriza a moeda americana. Com isso, os produtos importados, insumos industriais e combustíveis ficam mais caros internamente.Para conter essa inflação e tentar frear a saída de capital, o Banco Central muitas vezes é pressionado a manter a taxa Selic elevada ou até mesmo aumentá-la, encarecendo o crédito no mercado interno.The post Inflação e petróleo pressionam Fed para mais uma alta de juros nos EUA appeared first on InfoMoney.
