O varejo, que já vem se sentindo pressionado pela queda das vendas nos últimos meses, terá de lidar com mais uma situação complicada. A Black Friday, uma das datas mais esperadas pelo setor, neste ano terá um consumidor até disposto a comprar, mas que quer gastar menos. A projeção é de recorde de 18,3 milhões de pedidos na semana do evento, 10,8% acima do ano anterior, ao mesmo tempo em que o ticket médio deve recuar 2,2% pela primeira vez na série histórica, de R$ 808,50 para cerca de R$ 791. Essa é a conclusão de uma pesquisa feita pela Stefanini Marketing por meio das empresas Gauge, Ecglobal e W3haus.O estudo “Black Friday Talks” mostra que, por trás dessa combinação, estão mudanças que vão além da busca por descontos. Isso porque o consumidor chega à Black Friday mais experiente, começa a pesquisar preços com maior antecedência e pretende recorrer em massa à inteligência artificial para conferir se uma promoção realmente vale a pena ou não. Paralelamente, o ambiente é de alto endividamento, inadimplência recorde e crédito ainda caro.LEIA MAIS: Garantia Shopee: recurso retém pagamento até a entrega ser confirmadaO levantamento projeta faturamento próximo de R$ 14,5 bilhões na semana da Black Friday de 2026. Se confirmado, o valor representará um avanço de 8,4% em relação a 2025. A pesquisa quantitativa ouviu mil consumidores e foi complementada por entrevistas de maior aprofundamento, análise de comportamento e testes envolvendo ferramentas de inteligência artificial.Roupas ultrapassam eletroeletrônicosConhecida como a grande oportunidade para adquirir bens de maior valor, muitas vezes adiados durante meses à espera de descontos mais altos, a Black Friday sempre teve um consumidor com um foco em televisores, smartphones, computadores e eletrodomésticos. Mas dessa vez parece que há uma mudança dentro da cesta de compras.Isso muda completamente a fotografia para 2026. Segundo a pesquisa, roupas aparecem na liderança das intenções de compra, citadas por 55% dos consumidores, seguidas por eletrônicos, com 46%. Perfumaria e produtos de beleza aparecem com 40% cada, enquanto eletrodomésticos ficam em 39%. Calçados alcançam 37%. Até supermercado, categoria que há poucos anos não fazia parte do levantamento, aparece com 26%.O relatório relaciona diretamente essa mudança de composição à redução projetada do ticket médio. Em 2025, roupas já haviam ultrapassado eletrônicos em número de pedidos. Agora, a intenção de compra reforça a migração para categorias de uso pessoal e de menor valor unitário.Serviços também entram nessa transformação. Streaming aparece entre as intenções de compra de 46% dos entrevistados interessados nessa categoria, seguido por viagens, passagens ou hospedagem, com 36%, e academia, bem-estar ou saúde, com 35%. A Black Friday, portanto, começa a disputar gastos que fariam parte do orçamento ao longo do ano.Leia também: O tempo esfria e as vendas esquentam: o efeito do inverno para o comércioOrçamento mais apertado A mudança da cesta explica parte do ticket menor. Mas ocorre em um momento no qual as famílias brasileiras chegam ao segundo semestre com as finanças bastante pressionadas. Em julho, o Brasil tinha 83,9 milhões de consumidores inadimplentes, o equivalente a 51% da população adulta, segundo o indicador mais recente da Serasa Experian.O quadro já vinha se deteriorando. Em junho, eram 83,7 milhões de inadimplentes, e cada consumidor nessa situação acumulava, em média, aproximadamente quatro dívidas, somando R$ 6.920,63 por CPF. O comprometimento da renda das famílias havia alcançado 28,5%, maior patamar da série histórica, segundo boletim econômico da Serasa Experian.Esses números não permitem afirmar que o endividamento causou a redução do ticket prevista pela pesquisa da Stefanini. Mas o ambiente financeiro certamente ajuda a compreender por que uma Black Friday com mais pedidos não significa necessariamente uma disposição para desembolsos maiores.Há um sinal anterior dessa cautela. Em pesquisa realizada para a Black Friday de 2025, a Serasa constatou que, embora 72% dos entrevistados afirmassem planejar financeiramente suas compras, 23% já haviam ultrapassado o limite do cartão em edições anteriores e 12% disseram ter se endividado ao tentar aproveitar os descontos. É nesse cenário que a queda do ticket ganha outra dimensão. O consumidor não está necessariamente abandonando a Black Friday. Mas pode estar reorganizando a maneira de participar dela.Leia também: 80% dos brasileiros compram pelo celular (e gostariam de Pix ainda mais rápido)Pesquisa começa um mês antesSe há menos espaço para errar, há também mais disposição para investigar. Mais da metade dos consumidores, 56%, começa a pesquisar ofertas com mais de 30 dias de antecedência. Em 2021, eram apenas 21%. Em média, cada pessoa passa por aproximadamente cinco canais para procurar promoções, enquanto 71% participam de grupos ou canais de ofertas, conforme o estudo da Stefanini.As chamadas datas duplas, como 9/9, 10/10 e 11/11, também entraram nessa engenharia de comparação. Segundo o levantamento, 94% conhecem essas campanhas e 67% já compraram nelas. Em vez de simplesmente concorrer com a Black Friday, essas datas passam a servir como uma espécie de régua de preços para novembro. O comportamento sugere que o varejo terá mais dificuldade para vender como excepcional um desconto que não seja efetivamente competitivo.Leia Mais: Impulso da Black Friday gera crescimento generalizado no varejo em novembroIA vira fiscal das promoçõesE é justamente nesse ponto que surge uma nova personagem na Black Friday. Nada menos que 86% dos entrevistados dizem pretender utilizar inteligência artificial para ajudar nas compras da Black Friday deste ano. O uso, porém, está menos relacionado a perguntar à máquina “o que devo comprar?” do que a submetê-la a uma tarefa bastante pragmática: descobrir se o negócio é realmente bom. Entre os usos citados estão comparar preços, mencionado por 49%, verificar promoções, com 47%, tirar dúvidas e checar marcas ou lojas, ambos com 42%.“O cenário do levantamento para 2026 revela um consumidor mais experiente, que aprendeu a utilizar as ferramentas digitais a seu favor e que chega à Black Friday de 2026 com a inteligência artificial como aliada para pesquisar, comparar e ajudá-lo a tomar decisões de compra”, afirma Guilherme Stefanini, CMO global do Grupo Stefanini e CEO da Stefanini Marketing.Ou seja, a IA não está necessariamente tomando a decisão pelo consumidor. Um detalhe que mostra bem isso é que 7 em cada 10 pessoas chegam à ferramenta já com algum produto definido. Entre elas, mais da metade fornece detalhes que vão de especificações gerais ao modelo desejado. Assim, a inteligência artificial funciona menos como vendedora e mais como investigadora.Essa interpretação aparece também quando a pesquisa pergunta até onde o consumidor permitiria que a tecnologia agisse sozinha. Apenas 20% aceitariam que a IA concluísse a compra, enquanto 40% permitiriam que ela montasse o carrinho e 31% restringiriam sua atuação a alertas de preço. Para 35%, o limite está no princípio de que “a decisão tem que ser minha”.Essa mudança cria uma dificuldade adicional para varejistas e marcas. A oferta passa a ser submetida não apenas à memória do consumidor, mas a ferramentas capazes de cruzar informações de diferentes fontes em segundos. Preço baixo continua sendo o atributo mais citado na avaliação das ofertas, com 63%, mas vem acompanhado por custo-benefício, qualidade, frete, cupons, segurança, formas de pagamento, cashback e políticas de troca e devolução. “O consumidor brasileiro de 2026 não quer apenas uma promessa de bom preço. Quer evidências de que a oferta é real”, afirma Stefanini.The post Black Friday terá mais pedidos, ticket menor e consumidor com IA de olho nos preços appeared first on InfoMoney.
