“Brasil é país high yield”: por que não investir lá fora é cada vez mais arriscado

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O investidor brasileiro costuma enxergar os títulos públicos do país como ativos de risco mínimo, de nota “Triple A”, mas essa não é a leitura do mercado internacional, que trata o Brasil como emissor high yield, ou seja, com alto retorno, porém de alto risco. A avaliação é de Marcelo Guterman, especialista de investimentos da Franklin Templeton Brasil.“Para quem mora no Brasil, pode parecer Triple A, mas o máximo que acontece é a inflação comer o rendimento. Para o investidor estrangeiro, nós somos Double B”, disse Guterman, em referência ao risco soberano brasileiro, em evento promovido nesta semana pela Planejar. “Você imaginaria colocar 100% do seu portfólio em um título de crédito Double B? O Brasil é um país high yield, e é por isso que paga essa rentabilidade”, falouA indústria brasileira de investimentos soma cerca de US$ 2 trilhões, enquanto a mundial deve fechar o ano com cerca de US$ 155 trilhões, segundo Giuliano De Marchi, CEO da J.P. Morgan Asset Management na América Latina, que participou do mesmo evento. Para ele, mesmo sendo um dos maiores mercados do mundo, o Brasil responde por apenas 1,5% das oportunidades globais de investimento. Isso significa que quem concentra a carteira no país deixa de fora 98,5% das possibilidades de diversificação, não apenas geográficas, mas também de classes de ativos que poderiam proteger o portfólio de oscilações.“Apesar de o Brasil ser um mercado muito grande e desenvolvido, sendo um dos 10 maiores mercados do mundo, ele representa mais ou menos 1,5% das oportunidades de investimento que existem no mundo. 1,5%, gente!”, afirmou De Marchi no mesmo painel. “A primeira lição de investimento de qualquer pessoa é não colocar todos os ovos na mesma cesta, mas a gente acaba fazendo isso por falta de conhecimento ou de legislação”, disse.Leia tambémCrédito privado hoje é “strike ou canaleta”, e especialistas recomendam dosar o riscoTaxas de retorno atrativas devem ser avaliadas ao lado da saúde da empresa, considerando alavancagem, exposição a riscos macroeconômicos e liquidez, alertaram profissionais da Nord, Itaú Asset e Santander Corretora em evento da PlanejarRenda fixa: chegou a hora de abandonar de vez o CDI?Especialistas veem CDI alto por muito tempo, mas divergem sobre alongar prazos no Tesouro e no crédito privado Para Guterman, essa concentração decorre do fenômeno comportamental conhecido como home bias (viés doméstico), que leva os investidores a manter os recursos no país onde moram. No Brasil, o efeito é agravado pelo nível dos juros locais.“O outro lado da moeda de ter muitas oportunidades é saber exatamente o que fazer com elas. Sem falar, obviamente, da estúpida taxa de juros que nós temos no Brasil, que é o grande problema para ativos de risco (não só diversificação internacional, mas bolsa, títulos longos, crédito, tudo é influenciado negativamente pela taxa de juros real que a gente tem)”, afirmou.“Quando você compara o CDI em 10 anos, ele parece dar 140% ou 150%, mas quando você tira a inflação do CDI, ele enfraquece; e quando você joga o CDI em dólar, você vê que não saiu do lugar”, explica William Castro Alves, estrategista-chefe e sócio da Avenue: “eu costumava dizer que você vai ficando mais rico numa ilha cada vez mais pobre”.Ele cita como exemplo os títulos do Tesouro com taxas de IPCA + 6%, 7% ou 8%. No exterior, segundo Alves, é possível encontrar papéis que pagam CPI (índice de preços ao consumidor dos EUA) + 3%. Para quem busca retorno elevado em dólar, há títulos high yield que rendem dólar +6% ou dólar + 7% ao ano.“O CDI prende as pessoas nessa armadilha do ‘quentinho’, enquanto lá fora acontece uma revolução que permite participar de uma carteira diversificada globalmente em renda fixa e renda variável”, afirmou.Segundo De Marchi, o investidor médio estrangeiro prefere comprar um fundo de mercados emergentes, que resolva a região como um todo, do que investir especificamente no Brasil. “O Brasil representa cerca de 70% das oportunidades de ações da América Latina, mas na carteira global do investidor estrangeiro ele vira menos de 2%”, afirmou.Como entrar no mercado internacionalSegundo os especialistas, a popularização de plataformas de investimento internacional tem facilitado o acesso ao mercado estrangeiro e reduzido as barreiras burocráticas e fiscais. Entre as principais tendências de produtos, De Marchi cita os ETFs (fundos negociados em bolsa) ativos. Essas estruturas reduzem custos de distribuição e gestão em relação ao formato tradicional dos fundos.Alves destaca as estruturas UCITS, fundos europeus sediados na Irlanda ou em Luxemburgo e que podem ser acessados do Brasil. Elas protegem o investidor do imposto sobre herança americano (estate tax) e permitem o diferimento fiscal com o reinvestimento automático dos dividendos.Outra alternativa, segundo Guterman, são ativos inexistentes no mercado brasileiro, como os CLOs (Collateralized Loan Obligations). São estruturas de crédito corporativo que podem entregar retornos de dólar +15% a dólar +20% ao ano, mas também trazem renda variável na composição.Para De Marchi, essa variedade de opções e a necessidade de estudar o mercado internacional colocam os planejadores financeiros no papel de sommelier, orientando os investidores em um cardápio de alternativas para diferentes estratégias.Ele destaca que, hoje, o brasileiro aloca em média apenas 1% do patrimônio no exterior, bem abaixo de vizinhos como Chile (50%), Colômbia (40%) e México (30%). A projeção de De Marchi é que essa fatia chegue a 20% ou 30% nos próximos anos, o que vai exigir dos profissionais do setor domínio sobre o tema.The post “Brasil é país high yield”: por que não investir lá fora é cada vez mais arriscado appeared first on InfoMoney.

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